A câmera escura de Guinga

Ao lado do Quarteto Carlos Gomes, o compositor e violonista lança o disco “Avenida Atlântica”

Guinga e o Quarteto Carlos Gomes (Foto: Vanessa Moura)

Um homem e seu violão diante de um quarteto de cordas. De um lado, um compositor popular de obra idiossincrática, refratário à partituras, de voz rouca e toque ágil ao instrumento. De outro, instrumentistas educados formalmente, dotados de técnica impecável e egressos de importantes orquestras brasileiras.

A arquitetura do teatro do Sesc Pompeia, que distribui a plateia em dois lados do palco — além dos bancos laterais, no mezanino — deixou Guinga e os membros do Quarteto Carlos Gomes face a face. Os concertos, realizados em julho do ano passado, celebravam os 50 anos de carreira do compositor. A cena montada sugeria uma oposição, velha e gasta, entre o popular e os eruditos.

Postos em ação, os lados em confronto se embaralharam, ao produzir o som de uma terceira coisa. Guinga encaixava seus acordes como se regesse uma orquestra, atento ao movimento geral da música, à espera do momento exato de intervir. A rouquidão que envolvia a voz de baixa projeção era o invólucro perfeito para as canções — desenhava imagens fugidias, como vistas numa foto antiga ou ainda não revelada.

Já os músicos desentranhavam com seus arcos as ricas harmonias do cancioneiro apresentado. Nos arranjos, elaborados por Paulo Aragão, ouvia-se o assobio dos pássaros de Villa-Lobos e o rasante de urubus surpreendidos por Tom Jobim, revelando que aquela formação não nos é assim tão distante.

A síntese do compositor com o quarteto está agora registrada em disco. Concertos amanhã (9) e domingo (10) no Sesc Bom Retiro, em São Paulo, marcam o lançamento de Avenida Atlântica, que pode ser ouvido no site do Sesc e em plataformas de streaming.

O popular e os eruditos (Foto: Vanessa Moura)

As cordas

“Guinga é sem dúvida um dos gênios brasileiros”, diz o maestro Cládio Cruz, primeiro violino do quarteto. “As canções que ele compõe podem ser arranjadas para conjuntos de câmara, para dois instrumentos solo, apenas uma voz ou para uma grande sinfônica”, afirma o ex-spalla da Osesp. Cruz explica que o Carlos Gomes empresta sua “diversidade de timbres e cores” às funções harmônicas nas canções divididas com Guinga e, nas outras, “toca arranjos especificamente escritos para quarteto” — como pode ser ouvido na suíte formada pelas canções Capital, Casa de Villa e Henriquieto.

O responsável pela transposição do cancioneiro de Guinga para a formação de quarteto foi o arranjador e violonista Paulo Aragão. “A música do Guinga é bastante especial para o arranjador”, diz Aragão. “Por um lado, ela é extremamente brasileira e popular, no lirismo das melodias e na criatividade das harmonias. Por outro, se aproxima de procedimentos da música clássica, uma vez que seu violão já vem pronto, ‘fechado’, para o arranjador”.

“O primeiro passo é escrever a melodia e todo o acompanhamento do violão, nota por nota”, afirma o músico. Estes já se revelam “cheio de vozes que caminham, de texturas que usam com criatividade as cordas soltas, de construções cheias de nuances e detalhes”, o que “já aponta os caminhos do arranjo”. Assim, Aragão buscou utilizar o “manancial de timbres e texturas” do quarteto sem abrir mão da delicadeza e do protagonismo do violão, “cuja sonoridade é delicada por natureza”. O desafio, ele diz, foi “aproveitar ao máximo toda a variedade de sons das cordas sem desvirtuar a alma da música do Guinga”.

“Meu Pai”

O mesmo idioma

A relação do compositor com a chamada música erudita vem desde cedo e divide espaço com a canção brasileira e com o jazz. Este, aliás, não é o primeiro tratamento camerístico de sua obra — basta lembrar do ótimo Rasgando Seda, gravado com o Quinteto Villa-Lobos em 2012. “Eu nunca fiz distinção, sempre fui inquieto, curioso e quis ouvir tudo, para ver o que me agradava, o que me emocionava”, diz Guinga. Quando gosta de algo, a audição é acompanhada por horas ao violão tentando entender como a música é construída — sempre de ouvido, sem auxílio de partituras.

“Dentro do limite do violão, eu posso ouvir uma orquestração do Ravel pro Mussorgsky, como Quadros de uma Exposição, e tentar entender a harmonia, posso ouvir o Adagietto de Mahler e tentar entender o que está acontecendo ali”. Essa relação, que Guinga diz ser menos teórica do que uma prática “em profundidade”, aproxima formas musicais separadas em prateleiras. É assim que, passando de Au Bord de l’Eau, de Gabriel Fauré, para Derradeira Primavera, de Tom Jobim, “parece que eu estou no mesmo idioma”.

Sua régua, no entanto, segue sendo a da canção. “Eu sou um compositor popular” foi a primeira frase que disse, em entrevista concedida à Bravo!.Eu sempre tive isso na minha cabeça: eu quero ser um compositor brasileiro”, conclui, demarcando o campo em que joga em casa. Coisa que, como no futebol, não elimina riscos.

“Chapliniana”

A encruza

Um dos lances de ousadia deste Avenida Atlântica está em Meu Pai, com letra do próprio Guinga. É coisa rara num repertório repleto de parcerias com alguns dos maiores letristas da canção brasileira, como Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro — aliás, Odalisca, Henriquieto e Par Constante, feitas com o primeiro, e Saci, com o segundo, estão presentes no disco.

Como sugere o título, Meu Pai é uma canção profundamente pessoal, que desenha imagens da infância do compositor e traça um breve perfil de seu pai. “Quando eu fiz a melodia, estava totalmente envolvido pela negritude da minha família”, diz Guinga. “Eu já sentia a coisa do negro, do índio, quando cantava sem letra e, quando terminei, senti imediatamente a presença do meu pai”.

O compositor visita até hoje o cruzamento de quatro ruas — citado no verso “Habitará meu pai a encruza?” — em Vila Valqueire (bairro da zona oeste do Rio) onde se recorda do pai, um homem pobre que não acreditava em Deus, que serviu na Aeronáutica como voluntário “para ter o que comer e vestir” e despertou, a seu modo, a sensibilidade do filho. “Eu tive a oportunidade de dormir no quartel várias vezes e papai me acordava para ouvir o toque do silêncio”, ele conta. “Olha, Guinga, olha como isso é bonito”, dizia seu pai. “Isso para mim também é aula de música”.

Guinga no estúdio (Foto: Vanessa Moura)

Os torpedos

Como numa camera obscura, a imagem do Brasil projetada pela canção de Guinga é invertida. Seja o Rio antigo, a infância ou os ecos de uma ancestralidade negra, sua canção sugere uma joia soterrada sob as ruínas do país. Ela seria, assim, o retrato de um Brasil atropelado pela história. Ao mesmo tempo, apontaria para uma nação que ainda não existiu — popular e erudita, legível e complexa.

“Eu nunca rompi com a tradição, mas nunca quis ficar parado no passado”, afirma Guinga, ao recordar uma frase que ouviu de um professor aos 15 anos: “Carlos Althier, você procure sempre tocar as estrelas, meu filho, mas nunca tire os pés do chão”. O compositor traduz: “Eu uso o passado para desvendar o meu futuro”.

Variando sobre o tema inscrito na lápide de Villa-Lobos — “Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade sem esperar resposta” —, Guinga diz que sua música “é um pequenino torpedo que eu mando para o futuro”. Quem sabe o biscoito fino de Guinga não foi feito para o ouvinte que passou, mas para aquele que virá. Enquanto isso, a canção simples e absurda que produz pode ser ouvida por nós, agora.


Guinga e Quarteto Carlos Gomes

Dias 9 (21h) e 10 (18h). Ingressos: R$ 9 a R$ 30.

Sesc Bom Retiro: Alameda Nothmann, 185 — Bom Retiro — São Paulo.


Ouça Avenida Atlântica no Spotify: