A dor de Marguerite Duras

Baseado na obra da escritora francesa, o filme "Memórias da Dor" retrata o desespero de familiares de prisioneiros de campos de concentração

A atriz Mélanie Thierry na pele da escritora Marguerite Duras

Por Aline Khouri

A senhora Katz espera há seis meses e, consequentemente, desafia Deus. Do mesmo modo, comporta-se Marguerite. Ambas são personagens de Memórias da Dor, dirigido por Emmanuel Finkiel, baseado na obra A Dor (1985), de Marguerite Duras. Escolhido para representar a França na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, Memórias da Dor mostra as duas primeiras histórias, de um conjunto de seis, ambientadas durante a Segunda Guerra Mundial. Autobiográficas, as narrativas não são apenas o retrato íntimo dos momentos vivenciados pela autora, mas também cumprem a função de documentar a história da época.

O ano é 1945. É a espera que mantêm a senhora Katz e Marguerite — que é própria Duras — vivas. No entanto, a mesma espera as mantêm praticamente em um limbo onde a normalidade não existe mais. Enquanto a primeira aguarda notícias da filha judia e deficiente física, a romancista francesa desespera-se pela ausência do marido Robert L. (o escritor Robert Antelme), enviado ao campo de concentração de Dachau, na Alemanha. Ele não era judeu, mas prisioneiro político por militar no Partido Comunista francês. O texto é belíssimo e visceral. Com uma linguagem mais objetiva e sem apelos excessivos à tragédia, Marguerite Duras consegue despertar angústia no leitor que acompanha sua experiência dramática de sobreviver enquanto aguarda o retorno de Robert.

A vida anterior é impossível, mostram livro e filme. “A dor é uma das coisas mais importantes da minha vida”, escreve Duras. Seu desespero pulsa das páginas que descrevem a agonia diária, os pensamentos de que o marido tenha morrido numa vala escura dizendo seu nome após passar fome durante meses. A fome do campo de concentração é, guardadas as devidas proporções, incorporada de alguma forma à vida da escritora, que tem dificuldade de se alimentar e emagrece cada vez mais. “Só sei que ele passou fome durante meses e que nem na hora de morrer viu um pedaço de pão, nem uma única vez. Não teve direito ao último desejo dos moribundos”, ressalta.

Enquanto faz uma composição entre as duas histórias iniciais de Duras, a representação cinematográfica usa algumas de suas frases que ajudam a situar o espectador na realidade dos familiares e amigos dos prisioneiros do governo alemão. Ainda que a transposição de A Dor para as telas seja tocante e bastante fiel ao texto original, o cinema não consegue atingir o mesmo efeito das linhas da autora.

Agente da Gestapo

Além de abordar a espera cotidiana pela volta dos prisioneiros e o que acontece após o retorno, há uma crítica sutil ao voyeurismo de algumas pessoas que iam a Orsay (França) assistir ao reencontro dos prisioneiros de guerra com seus familiares como se fosse um espetáculo. O filme revela também um pouco das reflexões de Marguerite a respeito do aparato de extermínio nazista. Em choque, ela comenta a escala industrial da morte racionalizada e de seus perpetradores, assunto que despertou reflexões subsequentes escapando do binarismo do bem e do mal como as obras de Primo Levi e Hannah Arendt.

A adaptação não linear volta ao ano de 1944 para mesclar-se ao texto Monsieur X., Aqui Chamado Pierre Rabier. Nele, Marguerite Duras expõe sua relação com o agente da Gestapo — cujo verdadeiro nome era Charles Delval — que prendeu Robert Antelme e posteriormente foi condenado à morte. Mélanie Thierry (Marguerite) e Benoit Magimel (Pierre) são muito bem-sucedidos em revelar o caráter dúbio do relacionamento entre eles, mas o roteiro é interrompido e já não é tão fidedigno à narrativa como em A Dor.

Ambos geram especulação sobre a relação entre Rabier, que insiste em encontrar-se frequentemente com Marguerite para aproximar-se dela na França ocupada pelos alemães, falar de Robert e vasculhar informações sobre o grupo de militantes ao qual o casal pertencia. Ele parece atraído por ela que afirma usá-lo para obter informações sobre o marido. Parece um jogo de gato e rato no qual o comportamento dos envolvidos permanece nebuloso para a audiência.

Interessante notar que Duras testemunhou no julgamento de Delval e ressaltou algo que ele lhe contara: poupara duas mulheres e uma família de judeus após ver o desenho de uma criança. Não se sabe se isso é verdadeiro, mas a escritora relatou estes fatos para salvá-lo da pena de morte, o que foi em vão. Várias das narrativas de Duras sobre a Segunda Guerra Mundial, compostas entre 1943 e 1949, foram reunidas no livro Cadernos de Guerra e Outros Textos, publicado no Brasil pela editora Estação Liberdade.