A elegância da poesia de Ana Martins Marques

Por Beatriz Goulart

A premiada poeta mineira Ana Martins Marques é formada em Letras e doutora em literatura comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autora dos livros A vida submarina (Scriptum, 2009), Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011), O livro das semelhanças (Companhia das Letras, 2015) e Duas janelas, escrito em dupla com Marcos Siscar (Luna Parque, 2016).

Em sua escrita, o carinho pelo cotidiano, a intimidade em mapear cenas, objetos e sentimentos fazem da sua poesia um lugar de aconchego. Em entrevista à Bravo! nos contou um pouco sobre o seu processo de criação, suas leituras, suas inspirações: "Gosto da ideia de uma escrita que deixa ver os rastros da leitura".

A produtora Pimenta Filmes de Belo Horizonte, registrou para os leitores de Bravo! Ana Martins lendo alguns de seus poemas.

Você poderia contar um pouco como foi o processo de criação de O livro das semelhanças ( terceira coletânea de poemas de Ana lançado em 2015).

Não sou muito metódica para escrever. Em geral, vou escrevendo os poemas de forma mais ou menos aleatória, às vezes com grande intervalo de tempo, e só posteriormente procuro selecioná-los, ordená-los para compor o livro. Isso é um pouco diferente no caso das séries, em que os poemas vão sendo escritos de forma simultânea, mais articulada. É o caso, por exemplo, da seção “Visitas ao lugar-comum”, que parte de certas expressões idiomáticas, muitas vezes tomando-as literalmente, e dos poemas da seção “Cartografias”, que giram em torno de mapas e lugares.

A primeira parte d’O livro das semelhanças (que se volta para o próprio livro e seus elementos: capa, dedicatória, epígrafe, índice, etc.) surgiu justamente a partir da minha dificuldade para organizar o livro, para pensar que tipo de ordenação eu poderia dar aos textos, muitos dos quais já haviam sido publicados anteriormente em jornais, sites e revistas, e também a partir de uma indagação sobre o lugar do livro, e em particular do livro de poemas, num momento em que estão em curso tantas transformações no modo de circulação dos textos.

Tanto em A vida submarina quanto em Da arte das armadilhas há uma série de poemas dedicados a objetos cotidianos e ao espaço da casa, e em ambos há também muitos poemas metalinguísticos. O que aproxima e o que distancia O livro das semelhanças dos livros anteriores?

Vejo algumas proximidades desse livro com os anteriores — a presença dos objetos e do mar, os poemas sobre poemas, o exercício das séries, algumas figuras que retornam (Ícaro, as sereias…). Há, inclusive, alguns diálogos explícitos, por exemplo entre o “Poema não de amor”, que está n’O livro das semelhanças, e o “Poema de amor” do livro anterior. Tenho a impressão de que O livro das semelhanças é um livro mais reflexivo do que os anteriores, e também de que me permiti experimentar mais — nas formas, nos temas, nos procedimentos.

Depois de O livro das semelhanças, você lançou, este ano, Duas janelas, escrito em dupla com o poeta Marcos Siscar. Como foi o processo de escrita?

Decidimos escrever o livro como uma conversa, a partir dos poemas que íamos enviando um ao outro. Foi um exercício interessante e também difícil, de escutar a palavra do outro e procurar escrever com e a partir dela. Escrever junto, ao mesmo tempo que é um exercício que possibilita sair um pouco das próprias manias e obsessões, porque as palavras do outro convidam a seguir outros fios, lidar com palavras e imagens que não são nossas, abre também a possibilidade de ver com mais de clareza os próprios procedimentos de escrita, de que a gente nem sempre está consciente…

Muitos dos seus poemas foram traduzidos — para o inglês, o espanhol, o francês, o italiano… Qual língua fala mais perto da sua voz? Por quê?

Gosto muito de ter poemas traduzidos, e não só porque assim eles podem chegar a novos leitores, que não conhecem o português. Eu sinceramente acho que a tradução pode melhorar os poemas, ampliar as possibilidades de leitura, acrescentar camadas de sentido, revelar aspectos que estavam ali, virtualmente, mas que só o transporte para outra língua torna possível perceber. A tradução é um encontro, e eu tive a alegria de encontrar excelentes tradutores (e sobretudo tradutoras, entre elas a Prisca Agustoni, a Paula Abramo, a Alison Entrekin, a Julia Sanches, a Elisa Wouk Almino), que frequentemente me levaram a descobrir aspectos dos meus poemas de que eu mesma não havia me dado conta. Nenhum livro meu foi ainda traduzido integralmente, e acho muito interessante também observar a escolha dos tradutores, o modo como, ao selecionar os poemas que querem traduzir, eles criam novas séries, novos arranjos dos textos, e fazem assim também uma espécie de intervenção crítica, pessoal, sobre a obra. Não tenho uma língua preferida, acho que cada tradução de certo modo cria um novo poema, com uma música própria, um modo próprio de lidar com os recursos da língua, com a memória literária que cada língua carrega.

Inspirações: o que você está lendo? Quais os poetas/escritores clássicos e os contemporâneos que acompanha ou não vive sem?

Não sou uma leitora muito fiel. Nos meus três livros, há poemas dedicados ou escritos a partir de textos de outros autores (Drummond, Manuel Bandeira, Ana Cristina César, e. e. cummings, Joseph Brodsky), que estão, claro, entre os meus preferidos. Gosto da ideia de uma escrita que deixa ver os rastros da leitura.

Por outro lado, é sempre bom lembrar que a “inspiração” ou a “influência” não são um processo simples, mas um trabalho complexo e sutil de memória e esquecimento do que se leu, que pode incluir também a resistência, a dispersão, a desmontagem… Muitos dos autores que leio, inclusive alguns dos meus preferidos — Kafka ou Borges ou W.G. Sebald, por exemplo –, não parecem entrar diretamente no que escrevo. Por outro lado, leituras que não são muito marcantes podem fornecer ideias, recursos, imagens para a escrita.

Ultimamente, tenho lido bastante alguns poetas poloneses: além do Brodsky, Zbigniew Herbert e Wislawa Szymborska, que acabou de ter uma nova coletânea de poemas lançada pela Companhia das Letras. E também muitos portugueses: Sophia de Mello Breyner Andresen, Adília Lopes, Manuel António Pina, Manuel de Freitas… Li recentemente, e recomendo, os dois livros do Daniel Faria lançados pela Chão da Feira: Explicação das árvores e de outros animais e Homens que são como lugares mal situados.

Numa rua, numa cidade ou em casa, o que você gosta de fuçar? (fora livrarias e sebos, rs).

Não acho que eu seja uma pessoa muito atenta, não sou propriamente uma boa observadora… Sou distraída, ou então, talvez, ao contrário, eu tenha uma espécie de atenção para coisas menores, desimportantes: sou muito capturada por detalhes, por pequenas coisas, e acabo perdendo os quadros gerais… Tem uns versos muito bonitos do Boris Pasternak, alguma coisa como “Grande Deus do amor, Grande Deus do detalhe”… Gosto de andar pela cidade, ver detalhes das casas, das pessoas, das ruas, gosto de descobrir pequenos cantos… Mas às vezes também me dou conta de que andei muito tempo sem prestar atenção em nada. E de fato adoro fuçar livrarias, posso ficar muito tempo fazendo isso. Talvez essa forma de atenção tenha alguma coisa a ver com a minha atração por certos poemas, que são como uma espécie de círculo traçado em torno de uma coisa, que permite olhá-la de novo.