A fala segundo Tom Wolfe
Em novo ensaio, que propõe rever tudo o que se sabe sobre linguística, jornalista faz chacota de Noam Chomsky

Quem teve a oportunidade de ler grandes obras de Tom Wolfe, como A Fogueira das Vaidades e O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, não duvida que ele seja um escritor brilhante. Quem conhece seu lado jornalista sabe o quanto ele pode ser prolixo, e que o seu processo de pesquisa é demasiadamente longo, por vezes fatigante. O problema é que, ao juntar essas e outras características, corre-se um grave risco: ou seus livros são amados, ou odiados na mesma proporção. Foi dessa forma com boa parte dos títulos que ele lançou nas últimas três décadas, ao ponto de os críticos afirmarem o quão decadente tornou-se a carreira daquele que é um dos fundadores do new journalism. E tem sido assim com seu novo livro, O Reino da Fala, recém-lançado no Brasil.
Colecionador de polêmicas, Wolfe sempre se manteve em uma turbulenta relação com a crítica especializada dos mais respeitados jornais do mundo. Mas continua sem se intimidar: no ensaio atual, ele propõe repensar tudo o que se sabe sobre a linguagem e afirma que ela é a verdadeira responsável pelas conquistas (e derrotas) que a humanidade teve ao longo dos séculos.
O escritor questiona a Teoria da Evolução proposta por Charles Darwin e Alfred Wallace, envereda pelo trabalho do linguista Daniel Everett e faz críticas ferrenhas a Noam Chomsky. Para este último, aliás, Wolfe parece ter dedicado boa parte do trabalho e deboche vistos no livro: apresenta argumentos contra as aclamadas teorias linguísticas do estudioso, e afirma que ele é um fracassado em todos os aspectos de sua carreira — vale salientar, uma carreira de sete décadas estudando o assunto.
Não é de se espantar o quanto alguns argumentos de pesquisa de Wolfe parecem equivocados — maior queixa dos críticos quanto ao novo livro. O leitor de O Reino da Fala há de convir que o autor não é um linguista, e sim um jornalista cujas teorias quase nunca são levadas a sério. Nem poderiam, visto que seu embasamento muitas vezes se perde no didatismo e se torna improcedente. Mas, afinal, o que esperar de Tom Wolfe?
Ele parece mais superficial do que era há 40 anos? Sim, mas não é nada que já não tenha sido perceptível nos seus últimos trabalhos. Ele fala demais, o que torna o livro cansativo em algumas partes? Sim, todos sabem o quanto Wolfe é verborrágico e não faz a menor questão de disfarçar isso. Por outro lado, é inegável seu talento para misturar o trabalho de pesquisa com seu humor ácido e inteligente. Como é do seu feitio, em O Reino da Fala há diversas tiradas engraçadas a respeito da classe social daqueles que critica. É impossível não dar risadas com os detalhes irônicos que ele usa para descrever Darwin, Wallace e os outros.
Sendo assim, não é um ensaio para ser encarado do ponto de vista teórico, mas faz-se recomendável para os entusiastas de linguística enxergarem seus estudos por um viés bem humorado. Em 1998, quando seu livro Emboscada No Forte Bragg foi massacrado pela mídia norte-americana, Wolfe respondeu: “Eles não entenderam que se tratava de um livro de ficção, não de jornalismo”. Se O Reino da Fala for lido por essa premissa, as críticas serão mais maleáveis e as risadas, garantidas.
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O Reino da Fala, de Tom Wolfe. Tradução de Paulo Reis. Editora Rocco, 192 págs. R$ 29,90.

