A gênese da canção de protesto

Show no IMS de São Paulo parte do disco ‘Aviso aos Navegantes’, de Alberto Ribeiro, para pensar a canção política no Brasil

Guilherme Werneck
Nov 8 · 8 min read

Quando se pensa em música de protesto no Brasil, muito provavelmente o nome de Alberto Ribeiro não vai aparecer ao lado de Chico Buarque, Geraldo Vandré, Renato Russo ou Mano Brown. Famoso compositor de marchinhas de carnaval, parceiro de Braguinha em clássicos como Touradas em Madri, Alberto Ribeiro é, segundo o crítico musical José Ramos Tinhorão, o autor do primeiro disco de protesto do Brasil: Aviso aos Navegantes, lançado em 1956 pela Continental.

O disco é desses difíceis de encontrar até na internet, os registros são esparsos e talvez a melhor panorâmica sejam trechos incluídos em um programa da Rádio Batuta. O Instituto Moreira Salles tem uma cópia do LP de 10 polegadas nos arquivos de Tinhorão, e o cantor e pesquisador Marcelo Pretto tem outra, a que a Bravo! teve acesso. Reza a lenda que o disco foi todo composto durante o Estado Novo (1937–1945) de Getúlio Vargas, o primeiro período ditatorial do Brasil. Ribeiro, que foi preso pelo regime, só conseguiu gravar essa coleção de músicas que haviam sido censuradas mais de dez anos depois do fim da ditadura e dois após o suicídio de Vargas.

O disco é composto por 16 faixas curtas, nenhuma delas chega a dois minutos de duração. Os temas, curiosamente, continuam atuais. Há um duplo olhar, um mais macro e outro filtrado por personagens coloridos, como o avaro Agapito que não come e não se casa para poupar dinheiro que empresta a “juros, de 20%, 30%”, as dificuldades do agricultor Macário, que perde tanto para a saúva quanto para os atravessadores, Seu Cosme que nasceu ao Deus dará e criou uma família sem estudo e só com trabalho, Expedito o funcionário público “chupa sangue” que vagabundeia na seção, o operário Isidoro. Todos contam um pouco desse Brasil desigual, com um olhar privado para as privações e prevaricações.

Mesmo nos temas mais abertos, como Latifúndio, que traz uma crítica mais estrutural, o viés é sempre pessoal e passa pela ironia. A canção começa assim: “Para que quer você tanta fazenda, se só usa uma calça e um paletó? Se não quer me entregar ao menos venda, um pedaço, um pedacinho só”. O mesmo acontece com Plantadores de Bananas: “Plantando dá. Quando dá eu nada ganho. Querem pagar seis cruzeiros, por um cacho deste tamanho.”

Essa pequena semente da música de protesto ganha agora uma nova leitura com o espetáculo Aviso aos Navegantes — Antecedentes da canção de protesto no Brasil, que acontece nos dias 12 e 13 de novembro no IMS de São Paulo. Concebido por Marcelo Pretto com o curador musical do instituto Juliano Gentile, o espetáculo parte desse conjunto de canções e traz um olhar novo para elas, com uma perspectiva mais atual tanto musicalmente, quanto em relação ao gênero. Um tema que volta a ser relevante hoje frente aos episódios de censura que voltaram a assolar o país neste 2019 de Bolsonaro.

Marcelo Pretto (foto de Anita Kalikies)

“Esse show tem uma dupla origem. Como a programação daqui é enxuta, quantitativamente falando, a gente dá muita preferência a coisas que tenham esse olhar sobre o acervo ou sobre outras programações do IMS. Tivemos aqui uma exposição no ano passado chamada Conflitos [cujo subtítulo era: fotografia e violência política no Brasil, 1889–1964] e eu fiz uma playlist para essa exposição a pedido de uma das curadoras. Estava conversando com o Marcelo [Pretto] depois de um show que ele fez aqui, o Cantos Populares de Elsie Houston, que também veio do acervo, e ele falou desse disco. Fui pesquisar e ele existia no acervo do Tinhorão do IMS. Acho que só eles dois tinham o disco”, conta Gentile.

O show que nasce de Aviso aos Navegantes tem, obviamente, Marcelo Pretto à frente, dialogando com o piano de Lincoln Antonio. Na banda, Kabé Pinheiro (percussão) e Rodrigo Sestrem (flauta transversal, pífano, rabeca, sax-tenor e sax-soprano). Mas a conversa contemporânea está assegurada por duas participações especiais. “Quando a gente começou a se debruçar sobre o disco, propus que a gente fizesse uma conversa do disco com rap e o slam, por isso eu convidei a Roberta [Estrela D’Alva], e com algumas vertentes do samba, e chamei a Tia Cida dos Terreiros, que é filha do Blecaute. A gente vai até fazer uma das músicas que ficaram conhecidas na voz dele que é Pedreiro Waldemar”, diz Gentile. “Então a gente acabou mapeando um pouco de uma certa música de protesto que é anterior e à margem da do cânone da música de protesto. Musicalmente é interessante porque têm coisas ótimas que vieram à tona e, historicamente, é interessante porque, como mostra a exposição Conflitos, isso é a regra no Brasil, esses temas estavam o tempo todo prementes”, completa.

Autoretrato de Lincoln Antonio

Juliano Gentile não queria dar spoilers sobre o show, mas entregou algumas pistas. “Essas músicas são simples do ponto de vista musical. Não só porque elas são curtas. São simples porque foram feitas para dar um recado direto. Como elas já têm mais de 60 anos, a ideia é fazer uma recriação, não uma leitura fiel. A formação instrumental é diferente do álbum, que traz uma coisa um pouco mais clássica. Quem tocava piano no disco era o Radamés Gnattali, e aqui a gente tem um piano preparado do Lincoln Antonio, isso já demonstra um pouco a abordagem. A ideia não é reproduzir aquelas harmonias, mas trazer novos elementos, ver o que cada música pede, onde cada música pode ir, não ficar preso ao formato original. É interessante porque, como são músicas curtas, às vezes pode funcionar quase como uma vinheta. Se a gente quisesse fazer algo fiel, jamais iria chamar a Roberta [Estrela D’ Alva] ou mesmo a Tia Cida do Terreiro”, conta.

E teremos os malabarismos vocais do Marcelo Pretto? “Isso vai ter de deixar para o show, mas foi um dos motivos pelos quais ele foi chamado”, entrega a contragosto.

Uma das coisas interessantes é notar que esse disco nasce antes do boom da música de protesto, que ocorre mundialmente nos anos 60, embora suas raízes remetam aos anos 30 e 40. Se aqui temos Aviso aos Navegantes, nos Estados Unidos, por exemplo, havia um olhar politizado para a música folclórica na mesma época. Woody Guthrie talvez seja o melhor exemplo disso. Para Gentile, a chave está menos na questão meramente política e mais na social. “Acho que isso está mais ligado a um fenômeno de urbanização da música popular. Mas eu não sei se esse intercâmbio era essencialmente musical ou político. Em ambos os casos tem a ver com uma dinâmica da música popular se estabelecer nas cidades. Tem uma dinâmica urbana que favoreceu isso. As economias começam a crescer com a indústria e as desigualdades também”, avalia.

A partir dos anos 60, a música de protesto passa por várias fases, da politização que vem para um novo olhar para as raízes folclóricas, passando pela virulência niilista do punk ate chegar à negação da canção aliada à potência do discurso que vem com o rap. Em seus diferentes estilos, ela sempre dialoga com um momento político. Daí ser tão interessante nesse momento em que vemos a ascensão de projetos políticos antidemocráticos em todo mundo. Pergunto a Gentile como ele vê a música de protesto hoje, nesse contexto de país cindido e de fake news.

“Acho que tem duas coisas. Primeiro, se a gente falar de Brasil, a música de protesto está identificada com a esquerda, mas eu tive a oportunidade de conhecer gente da Polônia, e o punk lá é anticomunismo. Assim acho que se pensar de uma maneira mais global, a música de protesto entra como algo anti-poder. Agora, claro, na maior parte do mundo, ela está identificada com uma luta com a qual a esquerda se identifica, que é contra a desigualdade, a opressão, a ditadura”, pondera.

“Porém tem uma outra coisa. No fundo, assim como o tema da canção de protesto e no tema da exposição Conflitos, sempre existiu uma disputa. Então não sei se dá para dizer que tem algo bom, mas tem algo vindo à tona. Essa parcela de apoio a ditadura sempre existiu. Talvez a sociedade tenha se acomodado num consenso de que aquilo era algo vencido, de que falar a favor de um ditador e de um torturador era algo que ninguém mais faria. Tanto a esquerda quanto a direita pareciam estar em outras questões e, de repente, a gente está vendo que não”, conclui.

Gentile aponta que a canção de protesto sempre existiu, mesmo que esteticamente com formas diferentes, em contextos diversos e com dimensões e popularidades diferentes. “A questão é identificar onde ela está. No nosso caso aqui, um dos objetivos era mostrar um pouco da história do Brasil. Então o cara que escrevia marchinha tinha essa visão nos anos 30, 40 e 50. E a gente achando que nos anos 50 estávamos nos anos dourados, e olha o que estava para acontecer. Então dá para você fazer algumas comparações, tomando cuidado, claro, porque são contextos diferentes, mas há 5, 6 anos, você imaginava que o Brasil estaria assim? Olha como a gente foi incapaz de perceber algumas coisas. Se você for olhar retrospectivamente, a coisa se repetiu, não só os períodos ditatoriais, mas a ilusão de que a democracia estava consolidada no Brasil”, completa Gentile.


Serviço

Show Aviso aos navegantes — Antecedentes da canção de protesto no Brasil. 12 de novembro (terça-feira), às 20h30. 13 de novembro (quarta-feira), às 20h30. Cineteatro do IMS Paulista. Ingressos para cada apresentação: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Vendas antecipadas no site Eventbrite (imoreirasallespaulista.eventbrite.com) ou, no dia do evento, na bilheteria do IMS Paulista, a partir das 10h

Ficha técnica

Marcelo Pretto (voz), Lincoln Antonio (piano preparado), Kabé Pinheiro (percussão) e Rodrigo Sestrem (flauta transversal, pífano, rabeca, sax-tenor e sax-soprano). Participações especiais: Roberta Estrela D´Alva e Tia Cida dos Terreiros.

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

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