A gente fica ouvindo, não fica?

Gabriel Quintão/Divulgação

Na primeira audição do disco Remonta, Liniker não poupa sorrisos. “É como uma criança vindo ao mundo, tô trabalhando nessas composições desde os meus 16 anos”, diz aos presentes com um misto de alegria e nervosismo. Ela, que completou 21 há dois meses, conta que queria muito uma obra à altura do que o grupo sonhou e também da expectativa do público. O álbum foi lançado para o público nesta sexta e já está disponível em diversas plataformas (YouTube, Spotify, Deezer, Google Play, Apple Music, entre outras). Logo mais chega o CD físico — e ainda há previsão de vinil para o fim do ano.

Rafael Barone, diretor musical e baixista, é um dos que agradecem às pessoas que apoiaram o financiamento coletivo de Remonta. A arrecadação, feita entre junho e julho, passou de R$ 104 mil — a meta era R$ 70 mil. O EP Cru, ele lembra, foi feito com R$ 200.

Lançado em outubro de 2015, Cru tem três canções e catapultou o trabalho de Liniker e Os Caramelows para um grande público. O negócio estourou pra valer. As três também estão em Remonta, mas Barone me conta que foi unânime a decisão de repaginá-las. Por exemplo, a mais dançante do EP, “Louise du Brésil”, ganhou o sax inconfundível de Thiago França.

As demais canções, que já vinham sendo apresentadas nos shows do grupo, também foram remontadas em arranjo e espírito. Prova disso é a extensa lista de convidados: Tássia Reis, Xênia França, Tulipa Ruiz, Assucena Assucena e Raquel Virgínia (ambas da banda As Bahias e a Cozinha Mineira), Aeromoças e Tenistas Russas, e parte do Bixiga 70 (Daniel Gralha, Daniel Nogueira e Cuca Ferreira).

A faixa–título inicia com Liniker à capela.

O guitarrista William Zaharanszki aparenta entusiasmo após o público ter escutado as 13 faixas. Conheceu o pessoal da banda por acaso, antes de Cru, quando rumava por uma carreira na área do Direito. Aí abraçou a música. Ele me diz que a gravação do álbum foi rápida, coisa de uma semana, e que o grupo deixou de lado outras partes da vida para mergulhar de cabeça no projeto.

A primeira faixa é uma introdução instrumental. A voz de Liniker só aparece na música seguinte, e é à capela. Logo aí quem tá ouvindo percebe o som “classudo” que está por vir, como Barone gosta de definir a cara de Remonta.

Veja o papo que a Bravo! teve com Liniker:

Dá pra dizer que desde o lançamento de Cru, no fim do ano passado, a vida de vocês mudou totalmente. Você já parou pra pensar em tudo que aconteceu de um ano pra cá? Você pira nisso às vezes?

Eu acho que já era um processo em que tava todo mundo trabalhando há muito tempo. Eu já tava trabalhando nesse meu sonho desde os 16, o pessoal da banda também, então é uma coisa que aconteceu porque eu acho que tinha que acontecer, sabe? É tempo, é momento e é muito orgânico como tudo aconteceu. É muito orgânica também a relação que as pessoas tiveram com o nosso trampo, como chegou em cada pessoa e como elas se apropriaram disso. Então, acho que as mudanças desses 12 meses é ver o quanto de verdade tem tudo isso. Não é um privilégio, é um trampo que a gente tá fazendo de muito tempo. Eu sou muito de aterrar nosso pé no chão cada vez mais, saber que isso acontece porque tem essa troca direta com as pessoas, porque a gente tá falando o que a gente tá sentindo.

Pouco antes da gravação teve o falecimento da Bárbara [Rosa, backing vocal do grupo]. Como isso afetou o disco?

A Bárbara foi pro tempo, mas é uma pessoa presente na nossa vida sempre. A gente sabe que ela tá olhando onde quer que ela esteja e que com certeza ela tá bem. Foi um lance de muita coisa, né? Show, o disco vindo, antes de entrar no estúdio, essa perda muito grande. É um processo de remontar, pegar tudo isso, guardar onde tem espaço dentro da gente e transformar isso em coisas boas. A Bá é uma pessoa muito presente pra gente. E ela estudava comigo no colegial, então tem toda uma relação de antes. Ela viveu aqui todos os momentos possíveis, foi feliz em todos os momentos, foi uma motivação muito forte pra gente. Ela tá aí.

Pra você, o que é sucesso?

Sucesso? Eu não tenho uma definição, não sei, não tenho mesmo. Acho que no nosso lance não é o sucesso que acontece, sabe? É essa troca verdadeira, é o que me vale. O que me vale com as pessoas é muito mais a troca que eu tenho com elas do que falarem que eu sou uma cantora famosa, uma cantora de sucesso. Tudo que acontece tem um propósito.