A geometria sensível de Maria Leontina

Pintora tem centenário de nascimento celebrado com exposição de cerca de 80 trabalhos na Dan Galeria, em São Paulo

“Os Enigmas 9”, 1956

Poética e racional, a pintura de Maria Leontina desfila ao longo da tela formas geométricas dispostas de maneira inventiva, sem compromisso com realismo ou rigidez concretista. Fazendo da abstração geométrica uma linguagem própria — atenta às ideias e às formas, aos conceitos e às coisas, ao som e à cor — Leontina desdobrou nos anos 50 um capítulo da arte brasileira do século 20 que não se confunde com o neoconcretismo, embora guarde semelhanças com ele.

“Nos 50 anos de atividade como pintora e desenhista, Maria Leontina realizou uma trajetória muito poética e requintada, com pinceladas sutis e colorido denso, que foi de um expressionismo figurativo na década de 1940, à uma geometria sensível em 1950, culminando em um abstracionismo leve e etéreo nas décadas de 1960, 1970 e 1980”, resume o artista Alexandre Dacosta. Ao lado de Peter Cohn, Dacosta — que é filho da pintora — assina a curadoria de exposição na Dan Galeria, em São Paulo, que celebra o centenário de nascimento de Maria Leontina.

Autorretrato, década de 1940

A mostra apresenta cerca de 80 trabalhos, entre telas e desenhos (alguns deles inéditos), que cobrem as diversas fases da pintora, incluindo exemplares de seu período expressionista, quando teve aulas no ateliê de Waldemar da Costa. É o caso de um autorretrato dos anos 40, em que os desenhos de sua blusa xadrez e os livros ao fundo já dão mostra da geometrização que viria a seguir. Antes disso, porém, há um par de suas naturezas-mortas feitas no início da década de 50. Nelas se percebe um controle maior da pincelada, cores mais sóbrias e crescente autonomização da forma dos objetos.

O abandono total da figuração se consolida em 1954 com a série Os jogos e os enigmas. Divididas por linhas horizontais interrompidas, as telas exibem sequências de retângulos, triângulos, esferas, semicírculos e losangos. A pintura ganha maior controle e rigidez, e os elementos são organizados na tela segundo uma lógica própria, que recusa qualquer pretensão de realismo.

Sem título, 1956

Quando olhamos mais de perto, no entanto, notamos que os triângulos não tem medidas perfeitas, o traço que define as formas é impreciso e os campos de cor tem pinceladas visíveis, ainda que mínimas. Não há, portanto, mesmo no período geométrico mais rígido de Leontina, o apagamento dos rastros deixados pela mão da artista.

“A Maria Leontina chega na abstração por buscar respostas para as coisas que estão na parte invisível do mundo: tempo e espiritualidade, por exemplo”, analisa a curadora Paula Braga. “Nesse sentido, ela está percorrendo os passos da melhor arte abstrata, como Kandinsky e Malievtch, que também viam as formas da abstração geométrica como veículos de aproximação com os enigmas invisíveis do mundo”, continua Paula, que assina o texto crítico do catálogo.

Sem título, 1957

Na segunda metade da década de 50, Leontina desdobraria em outras fases sua pesquisa formal com o abstracionismo geométrico. Em Da paisagem e do tempo, por exemplo, as figuras geométricas se multiplicam, colocando-nos diante de verdadeiras bibliotecas apinhadas de formas. Este caráter imaginário foi sublinhado pela própria pintora, que adjetivou os substantivos da série: “paisagem interior, é claro, e tempo atemporal”.

“Da paisagem e do tempo / fundo azul”, 1958

Já nas Narrativas, frases, percursos, a disposição dos elementos se torna mais rígida e o conjunto ganha a aparência de uma engenhoca em pleno funcionamento. Nos Episódios, por fim, as telas são mais estreitas e a organização dos elementos se verticaliza, formando pilhas de formas geométricas em equilíbrio incomum.

“Episódios”, 1958

Dos anos 60 em diante, a pintura de Leontina perde a rigidez formal. A artista foi “soltando a mão”, como diz Alexandre Dacosta, “diluindo suas formas, com inspiração em páginas em branco, panejamentos, sombras, quase liquefazendo sua pintura”.

Com traços distorcidos, as formas perdem o contorno retilíneo e passam a se organizar de forma mais solta, com uma lógica interna menos apreensível. Por outro lado, a paleta de cores é reduzida — não costuma passar de três por tela — e o branco ganha protagonismo, como se observa na série Páginas.

“Páginas”, 1972

“Creio que as arestas menos definidas indiquem o interesse da artista em integrar vários elementos, mostrar figura e fundo num convívio harmônico e não numa relação de interrupção da extensão da figura”, comenta Paula Braga. “Tudo é parte de um todo, o que reforça a ideia de junção entre conhecimento e espiritualidade, que a razão ocidental, dura e cheia de arestas bem definidas, refuta”, conclui.

Poética e racional

Filha de um engenheiro ferroviário com gosto por música e de uma ex-discípula de Almeida Junior, Maria Leontina era uma mulher cultivada na intelectualidade do Rio de Janeiro e de São Paulo — cidades onde alternou a moradia desde a infância. Leitora de Kafka, Dostoiévski, Rilke e Pessoa, disse que “muitos de meus trabalhos nasceram de uma associação plástica com a poesia”. Ouvinte de Debussy e Satie, e para quem “o som é muito parecido com a cor”, confessou que “quando estou pintando e ouvindo música ao mesmo tempo, creio que alguma coisa do som e do ritmo é transmitido à tela”.

Sem título, 1965

Leontina lia também filosofia e, segundo Paula Braga, é possível aproximar a sua obra do pensamento sobre o tempo de Santo Agostinho — “o tempo é enigmático, percebido mas não compreendido” — e da teoria das formas puras de Platão — “há muitos cavalos no mundo, mas a ideia de cavalo é uma só”.

Esse escorregar pela metafísica, no entanto, não fazia da pintora uma residente afixada nos céus da filosofia idealista, uma vez que, segundo Paula, “Leontina percebia a busca por conhecimento como uma busca espiritual, ou seja, é possível viver o mundo terreno em sua maravilhosa plenitude, sem desvaloriza-lo em prol de um mundo ‘do além’”. Para a curadora, “pensar e estudar, como ela fez através de suas composições abstratas, é um louvor ao mundo sensível, ao mundo físico”.

Maria Leontina (Foto: Dulce Carneiro / Acervo Alexandre Dacosta)

“Ela era um ser realmente metafísico e poético”, define Alexande Dacosta. “A literatura, a música, a dança, tudo contribuía para sua sensibilidade, seu olhar, seus desenhos. Como filho, pude perceber seu olhar para os pequenos acontecimentos cotidianos: as manchas de sol nas paredes, as plantas, os sons, os cheiros.”

“Ela gostava muito de desenhar, em qualquer lugar, em qualquer papel — chamava-os de apontamentos mentais. Sua espiritualidade transparecia na sua fala mansa, pausada, sem sobressaltos. Gostava muito de arte sacra, chegando a fazer uma coleção de santos antigos e também de objetos de barro da arte popular do Vale do Jequitinhonha. Era uma figura doce, que acariciava com as mãos as páginas do livro que estava lendo”.

Páginas amassadas

O centenário de Maria Leontina levanta a questão do lugar sui generis ocupado pela pintora na história da arte brasileira do século 20. Seria ela da escola carioca ou paulista? Concreta ou neoconcreta? Abstração geométrica ou geometria sensível? Isto sem mencionar o fato de que sua obra recebe menos atenção e estudo que a de Milton Dacosta, seu marido, sem nada dever em qualidade ou interesse.

“A obra de Maria Leontina é mais um capítulo da profícua produção de mulheres artistas no Brasil, e tem a grandeza daquilo que recusa os rótulos da moda”, defende Paula Braga. Para a curadora, Leontina “opta pela arte que dialoga com os problemas filosóficos incontornáveis, universais, que aparecem nos primórdios da filosofia africana e grega: o tempo, a relação do ser-humano com o universo, as possibilidades de pictorialmente acercarmo-nos da parte invisível do mundo”.

Sem título, década de 1980

Por outro lado, não deixa de chamar a atenção no percurso de Maria Leontina — a figuração expressionista, o impulso geométrico e sua subsequente distorção — algumas correspondências com o movimento geral da arte moderna, da arte brasileira do período e, com o risco de avançar o sinal, também do país. Como Hélio Oiticica deixa claro no seu Esquema geral da nova objetividade, o impulso construtivo da arte brasileira que toma fôlego nos anos 50 e acelera no início dos 60 tinha chão social e histórico no processo de modernização do Brasil.

Pois este movimento é golpeado em 1964 e enterrado em 1968. Uma vez interrompido, as formas — sociais, políticas, artísticas — a ele associadas vão aos poucos perdendo contorno, murcham, são distorcidas, violentadas e eventualmente somem. Nesta perspectiva, que não separa os produtos culturais de seu contexto particular e histórico, a produção tardia de Leontina não deixa de ser um testemunho dessa distensão, ainda que a pintora a contorne com poesia e inventividade.

O que, aliás, nos põe a imaginar: estivesse Maria Leontina viva, o que diriam suas novas formas do tempo em que vivemos? Estariam suas Páginas amassadas como bolinhas de papel?


Maria Leontina — Poética e Metafísica

Abertura: hoje (26), às 19h. Visitação: até 30/11, de segunda a sexta (10h/18h) e sábado (10h/13h).

Dan Galeria: Rua Estados Unidos, 1638 — Jardim América — São Paulo.