A iluminação de Andreas Staier

O pianista alemão Andreas Staier (Foto: Josep Molina)

“Um compositor dedicado a concertos para piano se espanta quando um pássaro de repente entoa o motivo de sua obra mais recente”. Bem poderia ser apenas uma ideia de canário, mas é mesmo de estorninho. O estranho pássaro, de espécie dotada da má-fama dos pombos e da capacidade de imitação dos papagaios, foi adquirido por módicos 34 florins por certo Wolfgang Amadeus Mozart em um pet shop de Viena.

A posterior amizade permitiu que o pássaro retribuísse a inspiração, levando o compositor a mimetizar suas capacidades vocais em obras como Uma Piada Musical. É, ao menos, o que defendem ornitólogos como Meredith West e Andrew King ou Lyanda Lynn Haupt, que escreveu uma biografia do protagonista deste singelo capítulo do anedotário do compositor austríaco.

Haupt afirma ainda que, quando da morte do pássaro, quatro anos após o encontro, Mozart celebrou um funeral — formalidade que não dispensara nem a seu pai, diga-se — no jardim de sua casa, onde leu na presença de amigos uma elegia escrita de próprio punho dedicada ao falecido.

O cupido musical em questão, que uniu os companheiros até a derradeira despedida, foi o Concerto para Piano no. 17 em Sol Maior, finalizado por Mozart em 1784. A obra pode ser ouvida de hoje (27) a sábado (29), não por papagaios ou estorninhos, mas pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo com o solista Andreas Staier. As apresentações acontecem na Sala São Paulo sob a batuta da jovem regente polonesa Marzena Diakun, que também conduz a Osesp em Abertura de Concerto, de seu conterrâneo Karol Szymanowski, Alvorada na Floresta Tropical, de Villa-Lobos, e em dois excertos do balé A Bela Adormecida, de Tchaikovsky.

Esta é a primeira vez de Andreas Staier no Brasil, onde, além dos três concertos com a Osesp, também realiza um recital de piano no domingo (30). O músico alemão é íntimo do repertório barroco, clássico e romântico, o que se reflete na escolha do que apresenta ao público paulistano: a Fantasia no. 4 em Dó Menor, de Mozart, seguida por duas peças de Haydn (a Sonata no. 59 em Mi Bemol Maior e as variações de Un Piccolo Divertimento) e duas de Beethoven (as Variações em Fá Maior e a sonata Tempestade).

Staier se tornou conhecido por aquilo que em música de concerto é chamado de performance historicamente informada, em que se vale de instrumentos de época, como fortepianos e cravos, para interpretar obras antigas — o que lhe rendeu da crítica o título de “mágico supremo entre os fortepianistas”. Especialista em Bach, é dele também uma das mais notáveis interpretações das Variações de Goldberg (ouça abaixo) entre os cravistas da geração posterior a Gustav Leonhardt.

Andreas Staier toca o Concerto para Piano no. 17, de Mozart, em apresentação de 2012

Em conversa por e-mail, concedida à Bravo! dias antes de viajar a São Paulo, Andreas Staier falou sobre o que o atraiu à música de concerto, o repertório que apresenta em seu recital e a expectativa de tocar no Brasil pela primeira vez. Leia a seguir:

Boa parte de seus discos e concertos é dedicada ao repertório barroco, clássico e romântico. O que o atraiu para este tipo de música?

Pode alguém explicar o amor? Simplesmente aconteceu assim. Quando eu era criança, ouvi o Oratório de Natal de Bach. Já o começo, com os tambores e a orquestra entrando, seção por seção, foi o momento: me atingiu como uma iluminação.

Em uma entrevista de 2014, você disse que “Bach é o inventor do concerto para teclado”. Como os compositores clássicos e românticos desenvolveram esta forma? Por falar em Bach, podemos esperá-lo para o bis?

A forma do concerto clássico e romântico tem pouco que ver com Bach. No entanto, ele pode ter sido o primeiro a experimentar a forma do concerto italiano — de Vivaldi e outros — com o cravo como instrumento solo. Provavelmente era apenas porque ele tinha filhos com talento para as teclas e queria dar a eles a oportunidade de tocar num conjunto maior. Se quiserem, posso tocar Bach para o bis.

No seu recital, você interpreta variações e sonatas de compositores da Primeira Escola de Viena. Você poderia falar um pouco sobre este repertório?

Em vídeo para a Osesp, Andreas Staier comenta o repertório de seu recital

A Fantasia de Mozart serve como uma introdução improvisada, seguida de dois pares de composições bastante experimentais — sonata e variações do último Haydn e variações e sonata do período intermediário de Beethoven. Estas últimas peças foram compostas na época em que ele [Beethoven] menciona a um amigo que não estava satisfeito com suas obras e que queria seguir einen neuen Weg, um novo caminho. Sem dúvida, essas peças (as três sonatas da op. 31, das quais toco a segunda, e as variações op. 34 e 35, das quais toco a primeira) trazem algo novo para sua música — só que, como é frequente, gerações de músicos e musicólogos têm se perguntado exatamente o que é esta nova abordagem. Longo demais para explicar numa entrevista por escrito…

Você tocará piano nos concertos no Brasil, mas o seu reconhecimento também vem de performances historicamente informadas ao cravo e ao pianoforte. Como é alternar entre os instrumentos? Muda a maneira como você aborda a música?

Eu não mudo minha abordagem; isso significaria mudar minha percepção musical, o que eu não poderia fazer mesmo se quisesse. No entanto: sim, é claro que a mudança entre instrumentos tão diferentes exige uma recalibragem de todos os fatores, especialmente da abordagem técnica.

Se não estou enganado, esta é sua estreia no Brasil. Quais são suas expectativas de tocar no país?

Eu estou imensamente curioso e ansioso para minha visita! O Brasil é um país que eu acho fascinante de muitas maneiras diferentes. Por esse motivo eu estou extremamente grato que agora, de fato pela primeira vez, surgiu a oportunidade de ir lá.


Andreas Staier na Sala São Paulo

Com a Osesp e Marzena Diakun: hoje e sexta-feira (21h) e sábado (16h30). Ingressos: R$ 46 a R$ 213. Recital: domingo (16h). Ingressos: R$ 85 a R$ 110.

Sala São Paulo: Praça Júlio Prestes, 16 — Campos Elíseos.


Ouça as Variações de Goldberg, de Johann Sebastian Bach, na interpretação de Andreas Staier: