Imagem de um corpo liberto

A percepção e a restrição da figura feminina são o ponto central das criações de Ursula Jahn, de notável força política e visual

Da série "A Carne Que Habito" (2015)

A fotografia carrega em si um inerente jogo de poder: o autor sempre decide o que mostrar e o que esconder na imagem criada. Essa lógica faz com que ela possa tanto ser dos meios mais democráticos quanto dos mais enviesados em suas representações. Em uma sociedade em que a imagem é cada vez mais central, construir uma diversidade de olhares se torna uma tarefa absolutamente indispensável.

Ursula Jahn é uma entre várias fotógrafas de sua geração que busca uma construção fotográfica mais representativa, com espaço para novos olhares e assuntos. A gaúcha de 24 anos busca esta reconstrução visual voltando a câmera para a representação do feminino e a memória.

“Experiências pessoais me motivaram a trazer para meu trabalho mulheres e sua luta pela conquista de poder sobre o seu próprio corpo. Motivação que também vem de mim mesma, de tudo que eu passei tendo um corpo gordo que se tornou público, onde todos acham que podem julgar ou opinar.”

Ao trabalhar com o seu corpo e o de outras mulheres em sua criação, a artista se insere em um processo de pluralização da imagem corporal na fotografia, trazendo histórias e personagens que estavam majoritariamente fora do campo de interesse da criação tradicional de imagens. Em À La Carte (2016), por exemplo, vemos partes de mulheres nuas estampadas em tábuas de carne, construindo uma conexão direta entre o feminino e uma mercadoria.

"À La Carte" (2016)
“Busco pela autonomia feminina perante sua própria imagem. Este trabalho se firma como um convite para que o espectador se confronte com ideias acerca do corpo feminino que ainda predominam no plano social: da sua admissão como coisa, como objeto destituído de qualquer valor, direito e autonomia. Esse novo cenário, que permite abordar esses assuntos no espaço público, tirando os do espaço privado, é de grande importância para mim, pois fazer da poética um ato de posicionamento político, dissolver essas barreiras entre arte e política, é ampliar e dar visibilidade a opressões e denúncias da presença nociva de preconceitos e discriminações que perpetuaram até hoje.”

Ursula estende sua conexão com outros campos artísticos em Descompressão, uma foto-performance que tem a sua imagem como figura central. O trabalho, que mostra a artista retirando uma cinta compressora em 18 fotografias, traz de vez o autorretrato para sua prática. A série explora as restrições de sua autoimagem e o desejo de libertar-se delas, trazendo a sua imagem da não só como objeto estético, mas principalmente como ato político.

“Eu literalmente alivio o que estava em pressão. Não vou mais camuflar minha existência para tornar meu corpo mais socialmente acessível. Me libertei daquilo que a sociedade, a mídia e os médicos colocavam sobre o mim e também me libertei da pressão que eu colocava ao tentar me encaixar. Tinha uma dívida interna que, no ato de me livrar do tapume sobre o meu corpo, a bermuda compressora, eu sanei. Tá tudo bem agora. Sempre vai haver gordofobia e gordofobia médica, sempre vai haver pressão estética e maneiras de tentar te desempoderar, vão tentar me oprimir sempre, por ser uma mulher gorda, mas eu aceito quem eu sou, aceito as minhas escolhas e não vou mais me encolher.”

Essa exploração da sua autoimagem a levou a uma pesquisa em seu acervo familiar, relembrando uma tendência infantil: se esconder das fotografias. Este gesto consideravelmente comum entre crianças toma uma proporção distinta dentro da trajetória da artista que percebe desde seus primeiros anos um desconforto com seu próprio corpo. Dentro deste processo arqueológico, Ursula percebe que até o acaso participava do seu apagamento nas imagens familiares:

“quando eu era criança eu não gostava de ser fotografada. Tem algumas cópias no acervo da minha família em que eu me rasguei ou risquei. Fora as várias em que eu simplesmente não apareço, por vontade própria ou por uma série de coincidências que fui descobrindo: garrafas que escondem meu rosto, um filme queimado justamente onde eu estaria, sempre com este acaso que aprofunda esta desaparecimento da minha imagem neste acervo. Tive muitos problemas com a minha autoimagem e fazer este retorno através do arquivo pode se transformar em um processo de aceitação, entendendo a fotografia como um espaço meu.”
"De Volta ao Álbum de Família" (2017)

A exploração de seu acervo familiar apresenta um conector importante para o entendimento da produção da artista, apontando mais uma vez para a importância do corpo em seu trabalho, seu entendimento, aceitação e seu uso político. Além disso, percebe-se sua facilidade de transitar entre diferentes campos criativos, colocando a fotografia como uma das etapas de sua criação, nem sempre como seu produto final.

Uma produção que entende o papel político do artista me parece essencial, especialmente quanto temos uma triste nuvem de censura pairando sobre nossas cabeças. Ao se apresentar como centro de sua obra, Ursula abre espaço para a discussão sobre representação do corpo gordo e do corpo feminino em nossa sociedade. Com um desenvolvimento conceitual preciso e uma estética marcante, suas obras ganham cada vez mais espaço e permitem uma importante discussão sobre o protagonismo na fotografia contemporânea.