A invasão do barulho americano

Psicodelia, indie e pós-punk estiveram aqui bem representados por bandas dos EUA

Mercury Rev

Por Edson Valente

A tarde e a noite de domingo não foram exatamente silenciosas em São Paulo no dia 4 de novembro. Enquanto alguns pegavam o rumo de casa ao final do feriado prolongado de Finados, o Festival Balaclava testava os ouvidos mais atentos na Audio, casa de shows paulistana na Barra Funda. Em especial, três bandas desenrolaram no palco do lugar um recorte substancioso do bom rock independente americano produzido nas três últimas décadas, sinalizando influências e transformações do estilo.

A primeira delas tem anos de estrada. O grupo Mercury Rev, montado em meados dos 1980 em Buffalo, no estado de Nova York, brigou nas trincheiras farpadas do grunge e, nos quase 2000, cultivou uma sonoridade muito mais limpa quando, em 1998, lançou aquele que é por muitos considerado seu melhor álbum: Deserter’s Songs. E foi justamente para reproduzi-lo do começo ao fim que a banda veio ao Brasil desta vez — já estivera por cá em 2005, ocasião em que se apresentou no Curitiba Rock Festival.

Se tomarmos alguém que tenha parado no tempo e conhecia apenas os dois primeiros discos do Rev, Yerself is Steam (1991) e Boces (1993), essa pessoa talvez pensasse que, na Audio, estivesse sofrendo do resultado de algum tipo de lobotomia da cognição musical. Afinal, onde estaria a loucura destemperada das guitarras que mais pareciam as sirenes de alguma torre do inferno e que caracterizavam alguns dos trechos mais sublimes de Yerself…?

É que Deserter’s… envereda por um lirismo bem menos extremo — quase que a transformação de um porão de manicômio em cenário da Disney. Muito da suavização da paleta sonora da banda se deu pela saída do vocalista David Baker após o lançamento de Boces. Alguns diriam que ali findava a fase aguda de voos psicóticos experimentais rumo a construções melódicas mais suntuosas — e também pop.

Porém, o Mercury Rev não perdeu totalmente a mão para o barulho. Dois dos cabeças originais do grupo, Jonathan Donahue e Grasshopper (Sean Mackowiak), conduziram as ações na Audio, e eles ainda manjam bem do riscado do noise. O ajuste do som não ajudava muito; o do baixo parecia “estourado”, e os vocais de Donahue muitas vezes se escondiam sob o amálgama condensado dos instrumentos. Ainda assim, o timbre caracteristicamente desvairado das guitarradas de Grasshopper teve seus momentos de saudação aos nostálgicos. Essas passagens evocavam ainda o estilo de uma banda-irmã do Mercury Rev que também trilhou rotas paralelas às do grunge: Flaming Lips, da qual o próprio Donahue foi integrante.

Mas voltando ao repertório da noite: sob quaisquer circunstâncias, as canções de Deserter´s… têm uma magia própria quase inabalável. São comoventes. No palco, Donahue gesticulava os braços como se regesse os instrumentistas, aos moldes de Mickey comandando vassouras em Fantasia. O quê de performático se acentuava por uma boina e uma gravata vermelha de bolinhas como figurino, assemelhando-o a um pintor francês. As tonalidades do Mercury Rev são definitivamente impressionistas, e, nesse contexto, distorções e caos sonoro por demais contundentes se tornam meio que intrusivos. Até o desajuizado final das microfonias foi quase comportado. Menos mal, que a guitarra usada por Donahue era emprestada de uma artista brasileira e não poderia mesmo ser desmantelada em nome da psicodelia. O tecladista do show também foi um representante do Brasil — Danilo Sevali, da banda Hierofante Púrpura. O Rev abriu com a elegância de “Holes” e fechou com a tocante “The Dark is Rising”, que inicia o álbum seguinte a Deserter´s Songs, All Is Dream.

Deerhunter se apresentou logo em seguida — sua estreia em solo brasileiro. E foi algo como um salto vertiginoso das nuvens para se estatelar contra alguma parede fria. Corte sem anestesia. Estranheza sem paliativos. O que se poderia buscar de soturno e deslocado no indie estadunidense estava ali. E muito bem orquestrado, por sinal. E naturalmente estranho, sem grandes adereços no gestual ou no vestuário. Todos os músicos muito sérios todo o tempo, compenetrados, atentos a uma missão completamente alheia ao entretenimento — o Mercury Rev se divertia muito durante o show, era perceptível. A sobriedade do Deerhunter não permite — ainda — qualquer relaxamento desse tipo.

Deerhunter

Métrica do caos

Presenciou-se, então, um atualizado jogo de sombras do pós-punk. O som na Audio parecia devidamente calibrado para cada rangido de guitarra, bem como para o fluxo dos vocais de Bradford Cox. A despeito dos holofotes de luzes coloridas sobre os músicos, predominou mesmo a ambiência sonora em tons de preto, branco e cinza, característica da banda. O repertório abrangeu faixas de álbuns lançados de 2008 para cá e deu uma ideia bem equilibrada — e favorável — da monotipia que o Deerhunter produz ao derramar tintas de Joy Division, krautrock , Sonic Youth e outros ruídos de garagem dos 1990 de uma forma bem personalista. E calculada, como se fosse possível estabelecer uma métrica do caos. Um barulho à altura dos ouvidos de quem o procurava.

A feminina Warpaint fechou a noite, muito aclamada pelos fãs presentes. Aqui falamos de outra guinada do rock americano, firmada nos vestígios de uma reverberação mais inglesa, com ecos das guitarras do The Cure. Mas a incursão por uma América mais ruidosamente noventista não havia terminado.

Warpaint

O selo e produtora musical Balaclava também se encarregou de trazer pela primeira vez para o Brasil o Built to Spill, grupo icônico da onda independente que se espraiou pelos EUA e mundo afora há mais de 20 anos. Entre altas e baixas dessa maré, o Built, assim como o Mercury Rev, sobreviveu para recontar sua história, centrada na figura do vocalista e guitarrista Doug Martsch, único membro da formação original que veio ao país. Ele já havia tocado sozinho — e em formato acústico — no Breve, na Pompeia, em São Paulo, no dia 31 de outubro; ladeado por baixo e guitarra de músicos brasileiros, voltou à cena nos dias 8, em Belo Horizonte, e 9 de novembro, em São Paulo, para mostrar o porquê do encantamento por suas melodias na guitarra.

Built to Spill

Na casa paulistana Fabrique Club, na Barra Funda, o Built to Spill foi apenas correto, não estando à altura da expectativa, talvez por o som do lugar — abarrotado, por sinal — não fazer jus aos decibéis prometidos pela trajetória da banda. De qualquer forma, foi um desfecho digno para uma semana em que rumores antes ouvidos somente a distância deixaram de ser lenda — ou a reforçaram.