A linha e o arbítrio de Tide Hellmeister
Exposição no Sesc Bom Retiro destaca colagens e trabalhos editoriais do designer brasileiro nos anos 60 e 70

O Sesc Bom Retiro exibe a partir de hoje (20) uma mostra de obras de Tide Hellmeister em seu período de formação. Concentrada nas décadas de 60 e 70, a exposição TIDE_Cota Zero apresenta desde o trabalho feito pelo artista gráfico para a imprensa e para editoras até as suas originais colagens do período, exibidas pela primeira vez em conjunto.
Esta fase de amadurecimento do designer, antes que essa denominação fosse corrente, coincide com o desenvolvimento da profissão no Brasil, processo que permitia e solicitava certa margem de experimentação. “No começo da década de 80, o estilo do Tide mudou um pouco, entra em um universo mais rococó, barroco, cheio de intervenções de caligrafias, fundos, pinturas”, diz André Hellmeister, filho do artista e coordenador da exposição. “E esta não, era uma fase anterior em que ele trabalhava muito com os brancos e que também foi o começo da carreira dele como artista gráfico”.

No início dos anos 60, Tide fez letreiros para televisão à convite do cenógrafo Cyro del Nero e colaborou com editoras independentes, como a de Massao Ohno. Em alguns dos trabalhos, como os desenvolvidos com Wesley Duke Lee e Roberto Piva, o resultado se aproxima do livro-objeto, para os quais contribuiu não só com um desenho inventivo para as capas, mas com formas originais de diagramação, uso de papeis variados no miolo e encadernações alternativas. Em um livro de Piva, por exemplo, os poemas são impressos em cartões e empilhados numa caixa, que se abre como um presente de aniversário.
É possível também ter uma amostra de seu trabalho para jornais, para os quais foi sobretudo diagramador. Entre as raridades expostas estão os números inicias do Jornal da Tarde, que teve Tide em sua equipe desde o princípio, e exemplares da revista Problemas Brasileiros, editada pelo Sesc, para a qual o designer elaborou capas coloridas que contrastavam com a temática séria da publicação.

O grande destaque da mostra, no entanto, é o conjunto de colagens produzido pelo artista ao longo dos anos 70. O curador Paulo Miyada chama a atenção para o uso do “espaço em branco como elemento ativo das composições” do período. Estas são atravessadas por linhas quase sempre diagonais, que organizam o espaço em que fotografias, recortes de revistas, traços a lápis e, eventualmente, objetos são acoplados através da colagem. À esta arquitetura gráfica a curadoria chamou de “design da arbitrariedade”, expressão que serve de subtítulo para TIDE_Cota Zero.
Em muitas das colagens, a combinação de recursos de fontes distintas vem acompanhada de comentários ora cômicos, ora poéticos — quase sempre com uma sugestão sexual. Nos trabalhos que avançam pelo fim da década de 70, objetos passam a figurar sobre o papel ao lado de fotografias e recortes planos, como no caso de um dedo de cera que é abraçado por uma fotografia de uma mulher nua. O estranho casal é acompanhado por uma partitura com as cores invertidas, um lenço branco rendado, uma tira de gaze e um enorme band-aid. Em outra, Tide une suas principais atividades do período ao colar nada menos que um livro aberto sobre o papel. Posto apenas como objeto, o livro contribui muito mais como forma do que como conteúdo da colagem, na qual figura sem distinção em relação aos outros recursos recortados.
Sobre esta tensão entre o artista e o designer — ou o homem das artes e o homem de imprensa — Tide Hellmeister elaborou também com palavras. “Estas duas coisas sempre andaram juntas, tanto o meu lado gráfico quanto meu lado plástico, são irmãos gêmeos”, disse em uma palestra de 2007 realizada em Florianópolis. “Quando você está fazendo um trabalho gráfico, você não pode deixar de lado o plástico, a arte, essencialmente — é tudo uma coisa só”, resumiu. O artista morreria no ano seguinte, aos 66 anos.

Para saber mais sobre o trabalho de Tide Hellmeister, a Bravo! bateu um papo com Paulo Miyada, curador da exposição, que falou sobre as características da fase inicial do artista, como a centralidade da colagem, e sobre o lugar ocupado pelo design nas artes visuais. Leia a seguir.
O que caracteriza a primeira fase de Tide Hellmeister? Como se deu a escolha por esse recorte (de obras dos anos 60 e 70)?
Esse recorte diz respeito às décadas de formação e amadurecimento do Tide Hellmeister. É um período que contrasta muito com a produção dele que nos anos 80 e 90 se difundiu mais, porque naqueles anos ele estava ao mesmo tempo experimentando e se familiarizando com os princípios do design moderno.
A gente percebe uma preocupação com a clareza do campo gráfico, o espaço em branco como elemento ativo das composições, o uso de linhas, o eixo de organização, linhas diagonais que sugerem movimento visual, o uso variado de tipografia, experimentação de alinhamento, ritmo e proporção tipográficos. E também a apropriação de elementos visuais, imagéticos, quer dizer, fotografias, impressões, fotolitos aos quais ele tinha acesso, colecionava e associava às suas criações por procedimentos de colagem.
Então, além de contrastar o Tide que já é mais conhecido — e por isso ser uma contribuição para acrescentar um capítulo na história dele — é também algo que me parece muito relevante hoje, quando, passado o momento de hegemonia total do design de princípios concretistas (e também uma fase de euforia com o design pós-moderno), a gente vê em muitos lugares a tentativa de adoção dos princípios de legibilidade e de clareza do design moderno — que nem por isso abre mão da experimentação e da invenção plástica como recurso. E é justamente isso, que eu vejo muito na geração atual de designers, que o Tide vivenciou nos anos 60 e 70 e que a gente privilegiou na exposição, tanto no material plástico, das colagens, quanto num panorama de comunicações, revistas e impressos.

Como o artista utilizava o procedimento da colagem?
Por ser um artista/designer que estava neste momento de amadurecimento da profissão, muitas vezes se trata de uma experimentação a partir do chão da fábrica, a partir dos materiais e técnicas — muitas vezes dentro da gráfica literalmente — que ele tinha disponível e que ele recombinava. Então a colagem era um elemento não só expressivo, mas também um dispositivo pro máximo aproveitamento experimental das técnicas e recursos que ele tinha.

[Para] uma das primeiras publicações, ainda do comecinho dos anos 60, que é o Cinema Britânico, o Tide provavelmente recebeu uma enorme massa de texto, sinopses de filmes e pouquíssimas imagens fotográficas para usar na publicação. E a gente vê ele usando uma série de recursos de combinação de imagens, recorte, ampliação de materiais gráficos diversos para construir a narrativa visual desse impresso, que veio ali tão paupérrimo, tão pobre de informação visual.
A colagem é não só um parâmetro estilístico, um procedimento de linguagem, mas é também um modo de aproveitar recursos e de, neste caso, trazer um campo experimental e expressivo para dentro de uma matriz visual modernista majoritariamente clara e ordenada a partir de grids, alinhamentos, etc.
A colagem é um elemento de invenção, de disrupção e também de recombinação e aproveitamento das técnicas. E quando ele faz as colagens, digamos, “puras” (e não como obras plásticas), todo esse repertório é apropriado e se mantém na prática de designer. Então são colagens em que a ideia do papel, da diagramação do espaço em branco, está totalmente viva como parte da composição.
Por estar supostamente mais preso aos parâmetros do mercado e ser visto como menos autônomo do que instrumental, o design nem sempre é reconhecido como “arte séria”. Na sua opinião, o trabalho de Tide contribui para uma revisão desse modo de pensar?
O design efetivamente tem um princípio distinto do campo das artes visuais mais stricto sensu por lidar com clientes, demandas. Isto é constitutivo do trabalho do design, afinal de contas, é um trabalho de projeto que confronta algum tipo de desafio, demanda, problema, com o qual o designer vai se relacionar. Isso não faz dele menor nem maior, mas distinto.
O que eu acho que o Tide ajuda a pensar é que é possível e importante pensar no trabalho do designer além da análise do impacto de peças isoladas. O trabalho do designer, assim como o do artista, constitui uma linguagem, constitui uma investigação consistente que se manifesta em cada peça, em cada produto, digamos assim, mas não se encerra ali. Isso faz com que você perceba um desenvolvimento de linguagens visuais em cada designer, mas também que o trabalho dos designers colabora para a formação de uma linguagem visual compartilhada — na sua época, no seu tempo, no seu contexto.
Não é porque existe a encomenda, a demanda, o problema ou o cliente como parâmetro do trabalho do design que é necessário restringir a atenção para esses produtos como uma soma de peças isoladas, uma soma de feitos cujos efeitos coincidam com as demandas iniciais. É também possível e necessário reconhecer que se trata de um campo de desenvolvimento de linguagem e, portanto, de experimentação.
Eu acho que o Tide, por ter lidado dessa maneira com uma profissão quando ela estava ainda se consolidando — não tinha nome estabelecido, não tinha hierarquias tão claras etc — demonstra com muita leveza e dinamismo uma coisa que hoje, talvez, a gente admire como algo visionário e que pode ser um parâmetro para novos profissionais, novos designers e também para os críticos da área.
TIDE _ Cota Zero
Abertura: hoje (20) às 19h. Visitação: terça a sexta (9h/21h), sábado (10h/21h), domingos e feriados (10h/18h). Até 31/10. Grátis.
Sesc Bom Retiro: Alameda Nothmann, 185 — Bom Retiro — São Paulo.
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