A morte de um escritor no século 21

O tema da morte não é nenhuma novidade em trabalhos artísticos, mas atualmente tem nos parecido particularmente amargo. A sensação de luto, desesperança e distopia que cresce no país desde 2013 ajuda a potencializar a força de algumas obras que tratam do assunto, como o disco Encarnado, de Juçara Marçal (a Ciranda do Aborto que o diga), ou o Globo da Morte de Tudo, instalação de Clima e Nuno Ramos.

Em trabalho com o mesmo tema, mas partindo da própria literalidade da sua morte, J.P. Cuenca reflete sobre a condição atual do Rio de Janeiro; sobre a sua personalidade de escritor eleito um dos “melhores jovens escritores brasileiros” pela revista inglesa Granta e o paradoxo de tornar a experiência de escrever e ser lido em mercadoria, negócio, a ponto de o autor virar um objeto de consumo muito mais rentável do que os próprios livros (que, segundo ele, não são lidos nem pelos próprios pares).

Cuenca partiu de um fato real — a descoberta de que havia um Registro de Ocorrência, uma Guia de Remoção de Cadáver e um Laudo Cadavérico da Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro que atestavam seu óbito — para escrever Descobri que estava morto, lançado neste ano pela Editora Planeta. O trabalho também rendeu um filme, “A morte de J.P. Cuenca”. Em mistura de ficção e documentário, o autor interpreta a si mesmo no longa. Os personagens, todos não atores, interagem a partir de cenas não roteirizadas e diálogos improvisados.

Esse corpo, morto como João Paulo Vieira Machado de Cuenca, foi encontrado numa ocupação no centro do Rio de Janeiro em 2008. Logo depois, essa região seria “revitalizada” e repaginada com museus do futuro, boulevards olímpicos e a própria reconstrução do prédio abandonado, relançado sob nome “Soul da Lapa”, com salão de jogos, lavanderia, academia, espaço home theater e todas aquelas modernidades conhecidas dos empreendimentos imobiliários atuais.

Escrito em primeira pessoa e de modo bem informal, o livro monta o personagem — o próprio Cuenca, supostamente — como um escritor cansado de sua “precariedade”, entediado com os velhos círculos de amigos e enojado do Rio de Janeiro, mas sem coragem de deixá-lo. Passa longos períodos fora do Brasil, emendando palestras e eventos literários, bebedeiras, mulheres, festas, em fugas de momentos-chave da sua vida. Em 2008, na data em que “morreu” no Rio de Janeiro, ele estava em Roma, lançando a tradução italiana do seu segundo romance após uma separação.

Curiosidade seria, talvez, a palavra que mais descreve a sensação do leitor diante do livro: por que, com uma vida aparentemente tão badalada e bem sucedida, ele está enfadado e se distancia de todos? A suposta morte vira um pretexto para que ele reflita sobre essa condição. E sua desconstrução começa quando um amigo lê o seu manuscrito para a revista inglesa — que, como foi publicado, trata com vividez e irritação do “Rio de Janeiro for export” que virou a cidade — e fica irritadíssimo: a gentrificação e as violações de direitos humanos o incomodavam apenas o suficiente para que ele se aproveitasse disso num texto.

“Eu ainda não entendia que minha personalidade não seria construída pelo acúmulo de experiências, e sim erodida por elas”.

Em “Festa”, segunda parte, a erosão é social. Cuenca narra uma pândega com amigos numa casa no bairro de Santa Teresa. Quando todos já estão muito chapados de vinho, champanhe, cerveja, diversas drogas e um “sashimi marinado” — “presente” de um dos amigos ao dono da festa, tratava-se de um pedaço de peixe cru que ficou de 3 a 4 horas na vagina da mulher dele e depois foi servida aos convidados — , começa um tiroteio entre facções e o BOPE no morro. Os donos da festa, tranquilamente, pedem aos convidados para se afastarem da varanda e aumentam o som. Seguiram a vida. Souberam, no dia seguinte, que sete foram mortos.

A festa vira orgia, caos e mais uma separação. Aí começa “Investigação”, terceira parte do livro, em que o autor esmiuça a história da sua morte a partir de um detetive particular ao mesmo tempo em que começa a se enfadar das loas do texto da Granta. A essa altura, já depois do lançamento da coletânea, em 2012, Cuenca é desarmado, numa das palestras que dava nos Estados Unidos, por uma “estudante paulista de pós-graduação”. Maria da Glória, a personagem, reaparece depois para escrever o posfácio do livro.

“No fim das contas, o movimento de encarecimento da cidade e as violações dos direitos humanos me incomodavam apenas o suficiente para eu me aproveitar disso num livro antes de me mudar de cidade e de país.”

Em “Queda”, a última parte, o estilo muda. Torna-se mais fantasiado, dialoga com uma mulher negra (a quem se refere como "você"). Cuenca tenta se desvencilhar da figura que criou, num semi-desfecho (já que o manuscrito é interrompido) que o funde com Sérgio — o verdadeiro morto — e com o cenário das políticas repressivas e sanitaristas do Rio. Cenário esse que acontece desde que o Rio é Rio — podemos lembrar, na tradição literária, que autores como Aluísio Azevedo e Lima Barreto trataram das mesmas questões.

Enfim, surge Maria da Glória, crítica de literatura (longe dos círculos de escritores), acadêmica, que leu atentamente à obra de Cuenca (diferentemente dos seus pares e do próprio personagem, que ignorava e-mails por semanas) para resenhar o texto como um “fim de ciclo” de J.P. Cuenca.

De Brás Cubas (presente no início do livro) à Crônica da Casa Assassinada, o uso da morte na literatura é interessante também por registrar, sob um viés mais íntimo, algo que costuma representar uma cena maior — seja a classe de senhores no século XIX, a tradicional família mineira da sociedade café-com-leite ou o atual Rio de Janeiro que se esfacela. Bueiros explodem e abrem crateras no meio das ruas, centro e os morros próximos à zona sul se gentrificam a partir da política do “deixa-cair” dos prédios antigos e milhares de pessoas são expulsas para lugares mais distantes.

Outro ponto é que “autores defuntos” podem falar o que querem. Nesse sentido, Descobri que Estava Morto explora com sinceridade o círculo entre artistas, jornalistas, publicitários e alguns raros amigos “ricos”, do mercado financeiro, que fazem parte de uma certa elite carioca. Uma das críticas mais contundentes que o livro faz é à imprensa. O amigo que dá a festa em Santa Teresa, por exemplo, trabalha em um jornalão e acaba de ser promovido a editor, mas evita a todo custo publicar temas que podem ir de encontro aos interesses da empresa, como a denúncia do Ministério Público ao “prefeito olímpico” Eduardo Paes.

Aqui, criador e criatura se confundem, e vale um parêntese para a sociologia barata: um dos indícios do pós-Cuenca, depois do livro, é a sua saída da Folha de S. Paulo, onde escrevia quinzenalmente (e da Globonews, já em 2014) e para escrever no The Intercept, site do jornalista Glen Greenwald. O portal promete fazer um contraponto à chamada grande mídia – Glen foi um dos jornalistas que revelou, via WikiLeaks, o grampo a Dilma e ao Planalto pelos Estados Unidos.

Ao sair da morte literal para a morte literária, Descobri que Estava Morto ganha peso e pode virar um documento importante para entender, futuramente, o boom e a queda que vivemos nos últimos anos. Há um jogo que mostra as contradições entre "capitalizar" uma egotrip e a responsabilidade social de transformar a história de Sérgio e Cristiane (o morto e a mulher que testemunhou o óbito) em algo menos fadado ao esquecimento do que o que geralmente acontece com moradores de ocupações, pobres, sem familiares, enterrados como indigentes e, claro, muitas vezes negros. São postos em xeque tanto a posição "moral" — atribuída, normalmente, à esquerda — como o “sistema” (capitalista, das grandes corporações, representadas tanto pelo mercado editorial e imprensa como pelos empreendimentos imobiliários), que tudo traga. Não se trata, no entanto, de uma divisão entre bem e mal, mas de uma reflexão que tenta questionar o lugar de um escritor hoje e se colocar menos distante — lembrando que Cuenca é branco, vindo de uma família tradicional e com certa influência política — de Cristiane e Sérgio. A eles o livro é dedicado. Mas Sérgio é que morreu.