A persistência da noite

No romance Noite Dentro da Noite — Uma Autobiografia, Joca Reiners Terron conta “uma história em pane”, de um presente contínuo preenchido de esquecimento, estranheza e violência

Foto: Rafael Roncato

Numa ponta da história, no passado, está a irmã do filósofo Friedrich Nietzsche, Elisabeth Förster, e seu projeto de criar uma colônia ariana no Chaco paraguaio, em fins do século 19; na outra, no futuro, está Joca Reiners Terron, descendente de alemães, e a ideia de escrever sua “autobiografia”. Entre os dois polos estende-se um presente essencial, persistente, que é o cerne do romance Noite Dentro da Noite — Uma Autobiografia, lançado nesta quarta-feira em São Paulo.

Nada, contudo, é tão simples: tão ilusória quanto a autobiografia anunciada é a linearidade sugerida por essa sequência temporal. Se a primeira, claro está, foi polida pela ficção, a segunda se desfaz numa estrutura narrativa em que causa e efeito, antes e depois, se embaralham na história do menino que, em 1975, perde a memória e a fala depois de bater a cabeça numa coluna de concreto na EEPSG em que estudava no Paraná.

É o “Ano do Grande Branco”, em que o menino de 11 anos passa a duvidar de que seus pais são quem dizem ser; em que a família se muda às pressas, por motivos desconhecidos, para o Mato Grosso; em que a ideia de um irmão desaparecido se torna crescente. Ele não sabe, nós não sabemos: desde o início, Noite Dentro da Noite acumula lacunas e incertezas, e Joca Terron é hábil em fazer da amnésia e da mudez de seu alter-ego uma experiência para o leitor.

Nessa “história em pane”, até o narrador é um enigma. Trata-se de Curt Meyer-Clason (1910–2012), o espião do Terceiro Reich que, preso na Ilha Grande, acabou se apaixonando pela literatura latino-americana e traduziu para o alemão, entre várias obras, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Em Noite Dentro da Noite, ele funciona como intérprete e interlocutor do menino sem passado, que terá sua precariedade ampliada pela violência nos anos da ditadura militar.

Quem está na casa dos 50 anos vai identificar as referências de infância da época: kichutes, congas azuis, gibis de capa arrancada, figurinhas de tatuar nos chicletes Ping Pong, Bombril na antena de TV, bicicleta Monark. E também o hino à bandeira toda a manhã na EEPSG, onde os alunos se perfilavam em perfeita ordem moral e cívica. E onde, depois da aula, o protagonista era surrado e torturado por filhos de soldados.

O tempo congelado

Esquecimento, estranheza e violência — esta a tríade que descortina o mundo desse Joca Reiners alternativo, preso em um contínuo de tempo como os dos índios mbyá-guarani. “O amanhã para eles não passa de uma remota possibilidade controlada pela natureza”, diz o desfigurado Kurt Meier, que adentrou o Pantanal mato-grossense a bordo de um submarino alemão perdido no rio Paraguai no fim da Segunda Mundial. Mais um personagem a acrescentar dúvidas à história.

Não é o único. Cada um dos elementos narrativos que surgem na trama vão desenhando conexões misturadas e imprecisas, remetendo a outros tempos. No presente fraturado do protagonista, as próprias identidades pessoais se tornam nebulosas. É um trabalho de ourivesaria criar um universo tão formidavelmente sinuoso, e não se pode condenar que, por vezes, o romance se perca um tanto. Assim como a exuberância visual da prosa, outras vezes, resvale no excesso.

Entretanto, “da capo ao fine” (para usar uma expressão recorrente e importante do livro) Noite Dentro da Noite é fiel e uma estrutura que não se contenta com as facilidades do realismo e do discursivo: à amnésia e à mudez do protagonista, junta-se a imaginação de uma criança que nos faz mergulhar na mesma e persistente escuridão.

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Noite Dentro da Noite, de Joca Reiners Terron. Companhia das Letras, 464 págs., R$ 64,90 (R$ 39,90 e-book)