A persistência do menino bonito

Crítica: "Mal dos trópicos", novo disco de Thiago Pethit, é uma ode à clássica masculinidade homoerótica

Capa de "Mal dos Trópicos"

Uma cabeça de estátua grega de um sujeito sem nome. Um nariz fraturado denunciando a passagem do tempo. A capa de Mal dos Trópicos, quarto disco de Thiago Pethit, é icônica e marca a volta do artista surgido no contexto do Baixo Augusta no início dos anos 2010 anunciada já na canção de abertura: "Volto em luto e choro em pleno carnaval" (Abre-alas). Sob a égide das mitologias greco-romanas, Mal dos Trópicos é um disco enxuto porém bem edificado a partir do resgate pós-moderno de ideais e imagens clássicas e mira, sobretudo, na construção e na afirmação do homoerotismo na obra de Pethit (já presente em outros trabalhos).

Na contemporaneidade, temos a consciência de que não existe uma só homossexualidade, como o psicanalista brasileiro Jurandir Freire Costa vem defendendo ao desconstruir a ideia universal do homossexual. Assim como não há uma só masculinidade ou uma só feminilidade, as questões de gênero e sexualidade passam pela construção intersubjetiva de estilísticas, formas de existir e performar, através da linguagem, da estética e da vivência de cada ser. Cada sujeito, mais conformado ou não aos rótulos que a ele são atribuídos, deverá buscar a máscara que melhor molde o seu rosto, o seu corpo e o seu desejo. Em Mal dos Trópicos, Thiago Pethit reaviva a persona homossexual clássica nascida na Grécia antiga e que, inicialmente, esteve relacionada à erudição, às artes e à androginia.

Na Antiguidade, o amor entre iguais era uma das tônicas da filia grega. Nos banquetes filosóficos, celebravam-se a filia pelo conhecimento, pelo belo, pelo bem e pela irmandade. Sem nada querer saber das mulheres, como Camille Paglia resgata, a figura do "menino bonito" personificava o ideal de beleza e do bem para a vida livre dos homens. O kouros ("jovem", em grego), representado em estátua de mármore datada de 590–580 a.C., tem ares femininos e masculinos. Recém saído da puberdade, seus músculos estão em formação, sua cintura é fina e seu rosto, andrógeno. Como na performance atual de Thiago Pethit no clipe de "Orfeu", não há barba, o corpo é magro e os cabelos, longos. (Não haveria na figura do twink, alimentada hoje pela pornografia homoerótica, um pouco de kouros grego?)

Para além da performance do "menino bonito", Thiago Pethit se volta ao mito de Orfeu, citado no subtítulo do disco, Queda e ascensão de Orfeu da Consolação. Dele, toma a lira (seu símbolo), o prazer pelas artes e a busca incansável pelo amor que levou Orfeu a resgatar Eurídice até mesmo no mundo das sombras. Embora originalmente Orfeu seja heterossexual, Thiago Pethit, ao desejar ser o cantor do ser amado (“Deixa eu ser teu Orfeu / Cantar meu poema ateu”, Orfeu), aponta para o homoerotismo: “Quero ser teu homem / Seja meu homem também” (Teu Homem).

O culto homoerótico ao corpo masculino percorre as inflexões do jogo erótico, no qual se alternam presença e ausência, junção e dissolução, desejar e ser desejado. Me Destrói talvez seja uma das melhores expressões do erotismo de Georges Bataille na qual o amante deseja se fundir ao ser amado: "Eu no teu suor, no teu perfume / teu sexo, teu semên, teu ciúme / me destrói". A integração entre timbres eletrônicos e acústicos em Me destrói, assim como em diversos momentos de Mal dos Trópicos, nos faz lembrar de Marítmo (1998), de Adriana Calcanhotto, pioneiro disco que explorou semelhante sonoridade (como em Mais Feliz e Asas). Em outros momentos do disco, como na regravação da clássica Nature Boy, o arranjo vocal performado pelo grupo Seis Canta inebria aquele que vislumbra e narra a passagem de um rapaz encantador.

Orfeu, Eros, Narciso, as Bacantes. Thiago Pethit toma emprestada a erudição das narrativas greco-romanas para criar mitos pós-modernos de um sujeito atravessado pelo desejo. Da rejeição, cria-se um rio mítico que, assim como Medeia, vingará seu desamor: “Choro este rio / até alcançar com minha tristeza / fazer onda no mar / e devorar praias / tsunamis, tufões / e do teu novo amor / naufrague ilusões” (Rio). Na canção Mal dos Trópicos, narra-se epicamente uma cena de gang bang, na qual o poeta cantor é cercado por homens nus “segurando seus fálicos triunfos” (Orfeu). Se, na pós-modernidade, os mitos caem por terra, Pethit os reconstrói.

Paralelamente ao discurso neoclássico, a produção e os arranjos de Diogo Strausz se destacam pela tradução musical que desenvolvem. Como uma marca própria, o produtor carioca enlaça arranjos calcados em timbres de câmara (cordas, metais e coro) e camadas eletrônicas, criando colagens entre o clássico e o moderno, velhas ruínas e novas edificações. A canção de amor e angústia Noite Vazia, primeiro single do disco, construída, inicialmente, a partir de um loop, ganha ares épicos com o arranjo de cordas que vai crescendo ao longo da gravação. O fato do disco ser encerrado por uma faixa instrumental, Samba de Orfeu, faz jus ao notável e notório trabalho de Strausz, que reafirma sua assinatura musical já iniciada na produção de Rainha dos Raios (2014), de Alice Caymmi.

No Olimpo de Mal dos Trópicos, é nítido o diálogo com a obra do hoje imortal Antonio Cicero, que, igualmente, resgata, na contemporaneidade, figuras e mitos gregos. Se, em Embarque pra Citera, o poeta carioca evoca a imagem da ilha dos prazeres no final de uma festa no Baixo Leblon, Thiago Pethit desfila o desejo pagão de Orfeu pelos bares da Consolação e beija o amado em um apartamento do Copan, símbolos do centro de São Paulo que sintetizam toda uma geração homoerótica alternativa. Como na máxima de Antonio Cicero, "os deuses gostam de se disfarçar" (Onze e Meia) e caminham pelas ruas. Construídos narcisicamente à imagem e semelhança dos homens, habitam as ruas da República e frequentam a boate L'amour (Mal dos Trópicos).

O poema Cicero, do poeta carioca, ressoa nos versos labirínticos de Noite Vazia: “Eu sou a sombra /eu sou a dobra”. Já em Orfeu, os versos “Eu sou o amante / que você devora / de trás pra frente” relembra o poema homoerótico De Trás pra Frente, de Antonio Cicero: “O amante / cabeça, tronco, membro / eretos para o amado / não o decifra um só instante. / eu mesmo ainda me lembro: / o amante é devorado (…)”. O resultado da aproximação com a poética de Cicero, em parte, também nos leva ao cantor e compositor Arthur Nogueira que, desde o disco Sem Medo Nem Esperança (2015), reverencia Antonio Cicero (além de, por vezes, tê-lo como parceiro em composições).

Embora pareça um discurso autocentrado, a projeção apolínea de Orfeu (filho de Apolo, deus do Sol e da ratio, a razão) também se volta ao Brasil de 2019 nos momentos em que se pensa uma civilização. À luz da judicialização arbitrária da política, os versos iniciais de Orfeu têm um sentido de crítica: “meu país está em guerra / e as leis da minha terra / nem um deus será capaz de mudar" (Teu Homem). Em Mal dos trópicos, a volta do Brasil no mapa da fome ecoa na constatação do cantos: "Dizem que o amor é um mal dos trópicos / mas a fome é mais veloz".

Na contemporaneidade, a masculinidade homoafetiva nada mais tem a ver com a persona homoerótica grega. A masculinidade que se volta a si mesma— que não diz respeito, necessariamente, ao sexo entre iguais, muito pelo contrário — hoje é misógina, agressiva e ignorante. A performance de grande parte do eleitorado de Jair Bolsonaro não nos deixa mentir: homens que, na internet e fora dela, atacam mulheres, opositores e minorias além de cultuar a ignorância sem qualquer esforço civilizatório. A existência e a resistência da homossexualidade masculina clássica, que hoje vemos emergir na cultura alternativa urbana que serve de matéria prima para o novo trabalho de Thiago Pethit, tem dimensões políticas. Há de se preservar a delicadeza e se desejar a grandeza para se edificar uma civilização.