A poesia extrapolada de Torquato Neto

Registro mais completo sobre o poeta piauiense da Tropicália, “Torquato Neto — Todas as Horas do Fim” chega aos cinemas nesta quinta-feira

Foto: João Rodolfo do Prado/Divulgação

Deixar uma obra que tem Marginália II, Louvação e Geléia Geral com Gilberto Gil; Destino, Let's Play That e Dente por Dente com Jards Macalé; Mamãe Coragem e Nenhuma Dor com Caetano Veloso, entre composições com Edu Lobo, Roberto Menescal e Geraldo Azevedo, não é pouca coisa. Torquato Neto saiu de cena aos 28 anos e ainda assim é figura fundamental para a música popular brasileira. Pior: não era propriamente um músico, e sim poeta.

O médico piauiense Edmar Olveira, seu amigo, diz em Torquato Neto — Todas as Horas do Fim, filme que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, que a missão de Torquato Neto foi a de trazer poesia para tudo o que fazia: cinema, colunas de jornal, composições de canções populares, cartas. E talvez também isso esteja presente no próprio formato do filme, dirigido por Eduardo Ades e Marcus Fernando, uma pesquisa de filmes do cinema novo e do cinema marginal, cenas da vida de Torquato, momentos históricos do Tropicalismo, fotografias de família e imagens de obras de arte que inspiravam aquela época costuram o documentário. Fora isso, entrevistas com amigos, familiares e conterrâneos do piauiense dão o tom do registro. Como só há uma gravação em voz do poeta, de 1968, outros trechos são narrados por Jesuíta Barbosa, que, diga-se, ora é natural e, em outros momentos, arrasta os textos com pouca empolgação.

Descrito como doce, porém com temperamento forte; sensível, mas desapontado com os rumos do Brasil na ditadura e do movimento tropicalista depois de sua efervescência, Torquato Neto demonstrava esse humor oscilante em seus escritos. Ao mesmo tempo em que falava a partir de um quadro que hoje pode ser descrito como depressivo, via cores e alegrias, queria continuar vivo. Apesar de ter se suicidado aos 28 anos, sua presença é tão marcante e lembrada pelos amigos que, mesmo hoje, é difícil que alguém não conheça alguma de suas músicas. Nos shows de Gil, Veloso, Macalé, Edu Lobo, é raro que não o mencionem.

Com os parangolés de Oiticica. Foto: César Oiticica/Divulgação

Um pouco do dilaceramento de Torquato Neto pode ser explicado — como o filme mostra — pelo relacionamento com a família, que escolheu deixar aos 16 anos para ir morar em Salvador, onde conheceu os músicos baianos. Naquela época, é bom mencionar, Teresina vivia uma certa renovação intelectual, seguindo a tradição do estado (que já tinha uma Academia de Letras desde 1917), a partir da criação de centros literários ao redor da Faculdade de Direito e da Faculdade de Filosofia. Seu pai era defensor público. A família tinha um projeto para o filho em Teresina.

Mas a sua paixão era música, e em Salvador se encontrou. Estudou no colégio Marista na mesma época que Gilberto Gil e conheceu os outros doces bárbaros. Depois, no Rio de Janeiro, de início deslumbrou-se com a cidade, como conta Caetano Veloso no filme. Depois, foi de alguma forma escanteado pelos líderes do movimento tropicalista, brigou com boa parte da intelectualidade carioca, se casou e teve um filho, Thiago, passou uma temporada na Europa, conviveu nos círculos de arte com Hélio Oiticica e o Exploding Galaxy, de David Medalla, conheceu Jimi Hendrix e Yoko Ono, voltou ao Brasil e escreveu colunas no Última Hora. Uma de suas últimas empreitadas foi a revista Navilouca, criada com Waly Salomão, em volume único.

Torquato Neto já havia ganhado alguns registros audiovisuais — dois deles, feitos por diretores próximos: Documento especial: Torquato Neto, o Anjo Torto da Tropicália, de Ivan Cardoso e O Anjo Torquato Neto, de Paulo César Saraceni, que, por sinal, também valem a curiosidade. Mas Torquato Neto — Todas as Horas do Fim é mais completo no sentido da pesquisa, do diálogo com os ambientes culturais que o poeta frequentou e que, como supertrunfo, não recorre ao clichê de Cajuína.