“A primeira tecnologia digital de ponta de dedo”

Na série sobre quadrinistas brasileiros, Rafael Spaca fala com Sérgio Graciano, que conta a história de uma vida na turma do Mônica e como criou o cabelo do Cascão

Desde pequeno, lá em Cambuquira (Minas Gerais), você já se interessa em desenhar?

Não, meu interesse por desenho iniciou aos dez anos de idade.

Como foi sua infância em Cambuquira, você tinha acesso a livros e gibis?

Sai de Cambuquira bebê, com três meses de vida.

Quando você sai de Minas Gerais e vem a São Paulo e qual foi o motivo da mudança?

Saímos de Cambuquira eu ainda bebê. Meus pais vieram para São Paulo em busca de trabalho.

Em São Paulo você começa a trabalhar como ajudante de pedreiro. Você já tinha certo no seu pensamento que aquilo era uma coisa passageira ou encarava como uma profissão mesmo?

Sentia que era um trabalho passageiro. Queria mais, fui em busca dos meus sonhos.

É verdade que foi graças ao seu trabalho como ajudante de pedreiro que você foi trabalhar com o Mauricio de Sousa?

Sim, foi através desse trabalho que conheci o Maurício. Fui trabalhar como pedreiro na casa de uma pessoa que me apresentou ao Maurício. Foi então, que comecei fazer os testes (durante dois meses) para trabalhar com ele.

Como foram estes testes, no que consistia?

Os testes eram desenhos dos personagens da turma da Mônica.

Desenhar requer talento, teimosia ou persistência/repetição?

Na minha opinião dois fatores são importantes, talento e persistência.

Você se aposentou recentemente, seu inicio foi em 1966, era um dos funcionários mais antigos da Mauricio de Sousa Produções. Quando começou, já imaginava que ela chegaria onde chegou?

Tínhamos um sonho e trabalhamos para concretizá -lo.

Muitos sabem como é a Mauricio de Sousa Produções hoje, mas não sabem como ela foi no seu inicio. Pode contar como era o estúdio, quantas pessoas trabalhavam lá?

O estúdio era composto por três salas pequenas e uma grande. Eram cinco desenhistas, que se dividiam para produzir os desenhos e arte final. O roteiro era por conta do Maurício.

Era uma época em que vocês saiam às ruas oferecendo os gibis. Quais as suas recordações deste período?

No início distribuímos tiras para os jornais, tablóides e jogos. Íamos para o interior em busca se clichés para renová-los.

Você já começou como desenhista ou arte-finalista?

Iniciei como arte finalista.

Na Mauricio de Sousa Produção você colaborou em milhares de histórias. Como era a dinâmica de trabalho lá?

Cada profissional tinha uma história para produzir. Cada um tinha sua parte na história. Minha parte era arte final.

Seu trabalho está muito ligado ao desenho do Cascão, sua digital, como um carimbo, virou cabelo do Cascão para facilitar a produção do desenho que era feito com caneta. A ideia veio por acaso ou algo planejado?

A idéia surgiu por acaso.

Essa técnica da digital é usada ainda hoje, mesmo com toda a tecnologia à disposição?

Essa técnica na área de arte final ainda é utilizada. Mesmo com a tecnologia, ainda utilizam a impressão digital.

Quais outras ideias que elaborou e que foram aceitas no estúdio?

A ideia que mais se destacou foi a do Cabelo do Cascão, que eu batizei com “a primeira tecnologia digital de ponta de dedo.”

Você, além do Cascão, desenhava outros personagens da Turma da Mônica?

Sim, realizava a arte final em outros personagens como: Piteco, Astronauta e a turminha toda.

Como é a sua relação com o personagem Chico Bento, você também o desenhava?

Minha relação com Chico Bento é a melhor possível, pois me considero tio de todos os personagens.

Nunca abriu mão do nanquim ou já, nos últimos tempos, fazia seus desenhos pelo computador?

Nunca abri mão do Nanquim, minha técnica foi feita sempre a bico de pena.

Algumas animações, feitas para o cinema e consumo de vídeo, tem a sua participação. Como foi executar esse trabalho em desenho animado?

Foi mais um aprendizado.

Quais filmes você trabalhou?

Trabalhei no primeiro filme da turma.

Não é fácil trabalhar cinquenta anos no mesmo lugar. Como conseguiu isso?

Com muito prazer e amor por aquilo que se faz.

Seu trabalho é tão importante na Mauricio de Sousa que, hoje, a marca das suas mãos estão na parede do estúdio, eternizando-o ao lado do próprio Mauricio. Como foi isso pra você?

Isso para mim foi uma honrra e uma vitória. Maurício se tornou meu grande irmão.

Hoje o politicamente incorreto predomina na sociedade. Algumas das histórias que desenhou durante esse período seriam repelidas nos tempos de hoje?

Acho que não. Colaboramos com a educação de milhares de crianças.

Como acompanha o desenvolvimento das histórias, do tempo que começou aos dias de hoje. Alguma coisa mudou?

As crianças cresceram e nós os acompanhamos.

Quando se escreve e desenha para criança a responsabilidade aumenta?

Sim, somos exemplos.

Nos anos 80 muitas personalidades da televisão como Faustão, Xuxa, Gugu, Sérgio Mallandro e Os Trapalhões foram para as HQs. Foi, provavelmente, nossa época de outro na produção de HQs nacionais e de leitura também. Esse período foi o de maior ameaça na hegemonia da Turma da Mônica? Alguém chegou a ameaçá-los verdadeiramente?

Não, esse momento serviu para concretizar nosso trabalho.

Como analisa o gosto de grande parte dos leitores de HQs por super-heróis internacionais?

Os quadrinhos internacionais são boas referências para o aprendizado, uma escola.

Nunca passou pela cabeça criar um, na Mauricio de Sousa, para testar a receptividade?

Acreditamos desde o início na força da turma da Mônica e trabalhamos para o sucesso dos personagens.

Como define seu estilo?

Meu estilo é o estilo Maurício de Sousa, lá foi a minha escola.

As crianças estão lendo menos nos dias de hoje?

Estão lendo menos quadrinhos porque hoje existem muitos concorrentes, jogos, celulares, vídeos etc.

Você desenhou também os mangás?

Não

Como resume esses cinquenta anos na Mauricio de Sousa?

Para mim a palavra que resume esses cinquenta anos de Maurício de Sousa é sucesso. Uma grande conquista. Parabéns para nós!!!!

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