A roda vive

Crítica: 50 anos depois da montagem original, a peça devora as origens e renasce em um novo ciclo “perigoso” — mas também “divino maravilhoso”

Foto: Jennifer Glass

Por Pedro Vicente

A metáfora da uma roda viva fala do fluxo inquieto e inexorável dos acontecimentos rolando numa estrutura infinita que sustenta a vida. A roda viva percorre todas as esferas, impõe golpes, inspira revoluções, cria mundos e destrói tudo. Dessa roda viva fala o clássico da MPB cantado por Chico Buarque há 52 anos no festival da TV Record; dessa roda viva fala o texto teatral do mesmo Chico, dirigido por José Celso Martinez Corrêa no verão seguinte, em 1968, no Teatro Princesa Isabel, no Rio, abrindo o famoso ano que nunca acabou com o escândalo de uma obra iconoclasta e selvagem que marcou a cena brasileira.

Dessa roda viva fala a peça do coletivo Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona que reestreia em São Paulo, já com três meses de sucesso na temporada de 2018. A montagem celebra os 50 anos da encenação original e vai além. Devora as origens e renasce no aqui e agora, mostrando o quanto a mesma roda vive, hoje, e avança em espiral para um novo ciclo especialmente arriscado. Perigoso, em termos políticos, sociais e ambientais, mas talvez ainda divino e maravilhoso, já que tudo na montagem busca transformar essa constatação numa experiência libertadora.

Como outras peças da companhia, Roda Viva é um espetáculo audiovisual em grande escala, feito para ocupar o incrível teatro-rua desenhado por Lina Bo Bardi e Edson Elito. Há uma banda de alto nível, com oito músicos performáticos. Há um trabalho de arte forte, luz, cenário, adereços, figurinos e maquiagem, além de uma videoarte sofisticada, em grandes formatos, mixando imagens ao vivo e referências poético-visuais originais ou de Mário Peixoto ou Luccino Visconti. Há um elenco que um ET definiria como sacerdotes de alguma celebração da poesia cósmica, capazes de dar a qualquer frase a força de um aforismo.

E há a reencarnação do celebrado coro da montagem de 1968, que então incorporava todas as revoluções em curso, incluindo a sexual e a psicodélica, explodindo em cena a força libertária daquele momento. Num depoimento de 2017, Zé Celso fala sobre o impacto do coro na montagem original: “Era um coro maravilhoso, as pessoas absolutamente empoderadas, uma coisa que existia mesmo, em 68: antes de começar o espetáculo, eles fodiam, já entravam doidos, entravam possuídos…”. Nesse ímpeto, alguma violência foi inevitável, registrada pelo crítico Anatol Rosenfeld no ensaio O Teatro Agressivo, de 1971, citando o Oficina de Roda Viva como “expoente virulento desse tipo de teatro”.

Hoje, 2019, o novo coro do Roda Viva renova essa força revolucionária com outra potência. A opção da abordagem é pela empatia, o prazer do encontro e a celebração da cena. O jogo do desaforo encontra no público uma cumplicidade lúdica, conquistada ao longo do repertório da companhia e dos poucos avanços da sociedade nesse meio tempo, hoje gravemente ameaçados. Talvez por ganas de união frente a essas ameaças, hoje o público do chamado Terreyro Eletrônico do Oficina parece em geral receptivo, fortalecendo o encantamento de uma arte que constrói uma mentalidade libertária.

Em 1968, o coro de Roda Viva era um ultraje para um público cego para sua imagem refletida. Hoje, parte dele quer entrar para o coro. Já não são bufões impertinentes gritando “comprem!” na fuça de espectadores incomodados, mas talvez magos da re-existência performando num cabaré rebelde do Terceiro Reich. Na plateia, há os que assistem várias vezes, sabem de cor, repetem falas. A cumplicidade favorece atuações vibrantes, sedutoras, abusadas, mas não agressivas. E habilidosas numa subversão que parece querer um salto de consciência, não pelo choque, mas pelo prazer. Um coro fiel à raiz contracultural e transgressora, mas talvez hoje mais lascivo do que agressivo. Mais maduro, ou amoroso. Atento às demandas de um tempo violento em que o humor e a delicadeza podem ser a única eloquência real.

A montagem original de Roda Viva marcou o início do desenvolvimento da linguagem atual da companhia, quando se definiu o protagonismo de um coro e a opção pelo formato especificamente musical. Hoje, o Oficina pratica talvez um gênero à parte, nomeado Tragicomédia Orgia Antropofágica — unindo a tradição circense, o teatro musical de revista brasileiro, antropofagia oswaldiana e perspectiva ameríndia; além da ancestralidade do teatro ritual, especialmente a encenada na montagem de As Bacantes, de Eurípedes, espécie de peça-manifesto do coletivo.

A adaptação do texto é assinada por Zé Celso e pelo grupo, e traz cenas adicionais de humor e sagacidade implacáveis no diálogo com a realidade atual. A lógica quase onírica do original explode, e a recepção é mais fértil no campo inconsciente, sensorial e emotivo. Ao mesmo tempo, é o teatro vivo que contextualiza fatos históricos: o cerne da peça sempre foi a construção de um falso mito, usado para manipular as massas numa trajetória bizarra, finalmente devorado pelo coro. Ou engolido pela Roda Viva.

Cultura do prazer

Paradoxalmente, entra em cena uma identidade cultural brasileira que merece ser cultivada. Não só porque neutraliza o falso moralismo simplório que a perversão do poder quer impor, mas por ser a expressão de uma brasilidade saudável, necessária: a cultura da liberdade, da alegria, da festa, a cultura do prazer. E talvez de uma consciência despertada no jogo dos afetos. Num tempo em que um poder corrompido promove o ódio e a discriminação, a tribo assentada no coração do Bixiga vai na direção oposta. E alcança a qualidade rara de um espetáculo que encena criptogramas inevitavelmente decifrados pelo inconsciente e o coração do público. Libertários na maestria poética do caos.

A peça narra a saga de Benedito da Silva, ou Ben Silver (Roderick Himeros), um brasileiro qualquer que chega ao estrelato com ajuda de um Anjo caído (Guilherme Calzavara), espécie de Mephisto capitalista, e de um Capeta midiático (Joana Medeiros) para depois ser devorado pelas fãs (o Coro). É o ponto de partida para uma encenação monumental, de narrativa não linear, que deixa para o coração a chave do entendimento.

Já nos primeiros minutos, o Anjo declara: “No início, era Adão!”, e define o show business em cena como metáfora para o messianismo que corrói a sociedade patriarcal em colapso. Seguem-se símbolos e palhaçadas que instigam uma tomada de posição consciente frente à inevitável Roda Viva.

Contra os ataques intensificados por uma Repórter Barbie Fascista (Clarisse Johansson), os guardiões dessa consciência são as personagens do Mané (Marcelo Drummond), cúmplice no paradoxo de Silva, mestre dos brindes e arauto de uma crueldade transcendental; e a esposa de Silva, Juliana (Camila Mota) que, na morte do astro, recusa o papel de herdeira da máscara de mito e declara: “Tô fora de messias! Agora é Xota power!” E assim consuma, no Terreyro Eletrônico do Oficina, o vodu que institui o matriarcado no mundo.

Livre da formatação funcional, Juliana propõe um novo “acordo cosmopolítico de produção”, segundo o programa da peça, advogando os direitos da natureza, muito além da natureza humana. No grito pré-tropicalista de 1968, às vésperas dos anos de chumbo, Roda Viva gritava contra a opressão da ditadura militar. Hoje, às vésperas sabe-se-lá-do-quê, a Tragicomédia Orgia Antropofágica do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona resgata o poder de uma certa identidade cultural brasileira, talvez mais ideal do que factual, mas necessária até a medula, porque libertária por natureza.