A volta da Galeria São Paulo

Depois de dezesseis anos fechada, a galerista Regina Boni reformula a ideia da galeria e a reabre como projeto itinerante. A primeira individual é do aquarelista Ucho Carvalho

Obra de Ucho Carvalho

A Galeria São Paulo, que ficava num charmoso sobrado na rua Estados Unidos, nos Jardins, em São Paulo, foi uma das vedetes da arte no Brasil por 21 anos. A marchand Regina Boni, à época amada por muitos e odiadas por tantos outros, criou um conceito próprio de galeria, dando visibilidade à arte transgressora e experimental, exigindo exclusividade dos artistas com quem trabalhava e fazendo da galeria um centro de arte contemporânea nacional. A galerista foi peça-chave na consolidação do mercado de arte no país.

Regina Boni acompanhou a geração que se iniciava na arte na década de 70 e ajudou a dar visibilidade a muitos artistas nos anos 80, quando abriu a galeria. Entre eles Baravelli, Antonio Dias, Carmela Gross, Tomie Ohtake, Wesley Duke Lee, Leonilson, Aguilar, entre outros. Também foi uma das responsáveis pela consagração do artista plástico Hélio Oiticica. Em 1986, ela promoveu um desfile na rua da galeria, de passistas da Mangueira vestidos com os parangolés de Oiticica, literalmente parando o trânsito. Ele teve cinco individuais na Galeria São Paulo.

Ela diz que a origem do seu itinerário foi seu trabalho como figurinista do tropicalismo — ela foi a criadora e proprietária da marca Ao Dromedário Elegante, que vestiu Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, entre outros nos anos 60. Isso porque ela sempre acreditou na “originalidade de uma proposição artística brasileira em diálogo com o mundo”. Daí sua aposta nos artistas que trabalhou. Daí o sucesso de sua galeria.

Hélio Oiticica

Apesar disso, em 2002 a marchand resolveu fechar as portas, se dizendo enfastiada com o cenário das artes, que não queria mais fazer parte daquele universo, trabalhar segundo os ditames do mercado. “Estava cansada, queria apenas um pouco mais de arte, genuína, pura”. Passados 16 anos, Regina Boni resolveu reformular a galeria e adaptá-la à nova realidade do mercado das artes, hoje muito diferente do que aquele que conhecera. Não haverá endereço físico: será a Galeria São Paulo Flutuante, um retorno efêmero, sem compromissos com a duração, mas apenas com cada uma das mostras que vier a promover. “Um dos objetivos da galeria é ter preços aceitáveis e formatos possíveis, que possa caber onde os humanos possam conviver com arte”. Regina acha que o sistema atual das galerias está prestes a desmoronar, que falta aventura nas linguagens, que falta a pulsação real da arte, apartada do marketing do mercado.

Quando falamos sobre a motivação para trabalhar como galerista ela diz que é a mesma desde o início — o que a emociona, o desejo de apresentar artistas que sua sensibilidade detecta como necessários. Ela conta que há pouco tempo conheceu o trabalho do fotógrafo Rodrigo Sombra, que a tocou muito. Ela procurou um amigo marchand propondo uma exposição, mas ele não se interessou pelo desconhecido. O fotógrafo, já morando nos Estados Unidos, começou a participar de exposições e, inclusive, ser um dos fotógrafos a ter um fotolivro publicado pela editora inglesa Paper Journal. Isso para Regina foi a confirmação de que suas antenas continuam ligadas, que não deixou de ser quem sempre foi. Em março de 2019, Rodrigo Sombra será a individual da Galeria São Paulo Flutuante.

Para recomeçar o processo, a galerista apresenta a partir de hoje uma coleção de 30 aquarelas do artista paulista, Ucho de Carvalho, de quem conheceu as obras pelo Facebook sem saber que eram de sua autoria “eram aquarelas instigantes feitas com uma técnica incrível. Eram mágicas. Descobri que as aquarelas eram dele mesmo e o convidei para inaugurar o projeto comigo. Ele topou e aí estamos!” As obras estarão à venda com preços entre cinco e doze mil reais.

Para o futuro, Regina Boni pretende realizar uma mostra dos Desaparecidos da Ditadura, seguida das pinturas do baiano Walter Lima, expor também o pintor e desenhista Fernando Barata, isso para começar: “Minha escolha será sempre a importância que a exposição pode ter do ponto de vista cultural, social ou histórico — a independência do pensamento do autor, e o meu, claro”.

Serviço

Mostra Ucho Carvalho 30 Aquarelas

Rua Estados Unidos, 2186.

de 10/12 2018 a 28/02/2019