“Algum comentário?”

“Domínio Público”, peça dos quatro artistas brasileiros censurados em 2017, é uma reflexão sobre a circulação e a recepção da arte

Renato Gonçalves
Mar 30, 2018 · 4 min read

Em 1911, o Louvre amanheceu com um vazio na parede. Uma das muitas pinturas de sua galeria renascentista não estava mais lá. “Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci, na noite anterior, havia sido levada pelo italiano Vincenzo Peruggia, funcionário da área de reparos técnicos do museu. Como falar de Mona Lisa desde então? A partir do envolvimento sentimental de Peruggia que enxergava patriotismo em reaver uma peça para o seu país ou a partir da perspectiva jurídica de furto? A partir do espaço em branco deixado na parede — que, inclusive, trouxe mais visitantes à galeria — ou de todas as leituras do quadro somente feitas após a sua devolução?

Aparentemente desconexo dos motivos que uniram os artistas Wagner Schwartz, Renata Carvalho, Maikon K. e Elisabete Finger, no segundo semestre de 2017, isto é, a gritaria generalizada de setores reacionários e conservadores e a censura a obras de arte no Brasil, o ponto de partida de “Domínio Público”, fruto do encontro dos quatro, aponta para um caminho essencial para a compreensão de fenômenos como o do ano passado: as dinâmicas próprias de circulação e recepção da arte — muitas vezes deixadas de lado pelo usual foco na esfera da produção.

Encomendada pelo 27º Festival de Curitiba, a peça, estruturada por quatro monólogos, é iniciada por Wagner Schwarz, performer de La bête, e encerrada por Elisabete Finger, artista e uma das espectadoras da execução da citada obra no MAM-SP (Museu de Arte Moderna de São Paulo). Ambos, ao trazer explanar sobre Mona Lisa, acabam falando de si próprios: constantemente editados, recortados e reduzidos por rótulos, assim como os discursos correntes que, somente no último século, enalteceriam os mistérios da obra renascentista, o “pelado do museu” e “a mãe inconsequente que coloca a sua filha em frente a um homem nu” põem em questão o jogo de narrativas que o circundam.

É um homem ou uma mulher? Os ombros e as mãos de Mona Lisa possuem traços masculinos ou femininos? Renata Carvalho, protagonista da peça O evangelho segundo Jesus, rainha do céu, quando entra em cena, discorre, a partir de Mona Lisa, a percepção e o julgamento de corpos dissidentes que a própria atriz enfrentou ao ser uma mulher trans e interpretar Jesus Cristo nos palcos — tendo sido censurada em Jundiaí (SP) e Salvador (BA). Maikon K., na sequência, aborda a potência da arte que pode mobilizar as mais diversas reações, da paixão à repulsa, como aquelas que levaram o Louvre, após sucessivas tentativas de dano ao quadro, a reforçar a sua segurança e a colocar a obra por trás de vidros blindados. Afinal, o que pode suscitar uma obra de arte e, principalmente, que perigos ela pode conter a ponto de um artista ser levado à delegacia, como foi o caso de Maikon K. ao realizar a performance DNA de Dan em Brasília?

A doçura e a calma na voz dos artistas e a eloquência dos monólogos contrastam com a imperatividade dos julgamentos e dos discursos inflamados das redes sociais que atacaram os artistas e suas obras e essa escolha teatral até mesmo quebra a expectativa daqueles que acreditaram que encontrariam uma espécie de obra-resposta igualmente bélica, combativa. Indo na direção contrária das reducionistas e achatantes discussões que tomaram conta da opinião pública, Domínio Público, que teve sua estreia no Teatro da Reitoria da UFPR, no dia 29 de março, é um ensaio que busca trazer diferentes visões sobre o que está ao redor da arte, sempre ampliando o assunto, nunca o encerrando. Constantemente se apoiando nos discursos acadêmicos que buscaram analisar a fundo cada detalhe do quadro e também impressões de diferentes setores ao longo do último século, os artistas apontam para a formação de discursos que legitimam ou deslegitimam a arte e que, em última instância, podem colocá-la ou no pedestal ou na vala da mediocridade.

Sob o olhar e o sorriso ora atraentes ora inquietantes de Monalisa, posicionada no topo do espaço cênico que dispensa qualquer outro elemento para além da reprodução da tela e da palavra dos artistas, somos levados, no fim, à ideia do vazio que a arte pode conter, assim como o vazio deixado pelo gesto/furto de Vicenzo Peruggia no início do século XX que ampliaria as dimensões de uma obra até então irrelevante, e que só poderá ser preenchido pela audiência, que, por sua vez, é atravessada por uma ampla gama de afetos e desafetos, opiniões públicas e vivências pessoais. Nesse sentido, não será gratuita a última linha da peça, reforçada pela postura de escuta de Elisabete Finger em direção à plateia: “algum comentário?”.

Domínio Público — segunda sessão, nesta sexta-feira (30) às 21h no Teatro da Reitoria da UFPR.

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

Renato Gonçalves

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Doutorando em Ciências da Comunicação (ECA-USP), mestre em Culturas Brasileiras (IEB-USP) e pesquisador multidisciplinar da cultura. Docente da FMU-FIAM-FAAM.

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