“Amor Líquido” toca nas feridas afetivas

Inspirado na obra de Zygmunt Bauman, filme de Vítor Steinberg evidencia o vazio dos relacionamentos humanos

Embora tenha sido lançado em 2003, foi no ano de 2014 que o Amor Líquido, de Zygmunt Bauman, ganhou um frisson nos meios mais descolados aqui no Brasil. Livro de cabeceira de fashionistas, artistas e da turma cool daquele ano, a obra do sociólogo polonês parecia explicar muitas das aflições que dominam o ser humano da era atual. Com o embasamento de quem passou uma vida se dedicando ao assunto, Bauman dissecou tudo que há por trás das fragilidades nos relacionamentos afetivos, o motivo deles terminarem antes mesmo de começarem, a preferência (e o alerta) por laços virtuais que formam amigos de infância e amores à primeira vista entre verdadeiros estranhos, que, em seguida, se diluem como se nada tivesse acontecido.

O resultado, claro, é aquela sensação de vazio, de insegurança, de apatia e desilusão. Além dos inúmeros questionamentos que tomam conta do nosso ser. Certamente, se você vive com a cabeça neste mundo, se identificou com alguma dessas situações. Para saber mais da parte teórica, indico (sempre) a leitura do livro do Bauman. Ou, para ver na prática como isso perturba um indivíduo, pode assistir ao filme homônimo de Vítor Steinberg, cuja exibição a Bravo! teve acesso com exclusividade.

No longa, acompanhamos os passos de Paula (interpretada pela xará Paula Liberati), executiva extremamente bem-sucedida que está prestes a casar. Metódica, ela parece ser do tipo que não perde a linha nunca, mesmo entre os amigos mais extravasados durante uma festinha em sua casa, no belíssimo edifício 360º, em São Paulo. Até que o grupo resolve fazer sua despedida de solteira em uma fazenda hermética para uma experiência com ayahuasca. A primeira reação dos jovens é de estranheza ao saber que não podem comer carne vermelha, beber nem fazer sexo — o que parece ser um rigoroso desafio para os padrões de diversão dos solteiros na selva de pedra. Posto isso, eles partem para a viagem despretensiosa.

Enquanto algumas crenças usam a ayahuasca em seus rituais, no filme o anfitrião oferece o chá sem maiores protocolos, deixando o grupo bastante à vontade para curtirem os efeitos. Vale lembrar que cada pessoa tem uma relação diferente com a erva. Uns experimentam em busca de evolução espiritual e autoconhecimento, outros por pura curiosidade na tentativa de parecerem modernos, como parece ser o caso da protagonista. O que Paula não esperava era que aquele momento fosse mudar para sempre a forma de enxergar o mundo à sua volta. De volta à cidade grande, ela acaba o noivado, entra numa introspecção, em dias de angústia e desespero, que em nada se assemelha à empresária disciplinada das primeiras cenas.

Em conversa com seu terapeuta (uma das partes mais provocativas), vemos em palavras a interpretação do livro de Bauman que inspirou a adaptação. A protagonista compartilha o que lhe aflige sobre as relações humanas, como se tivesse despertado do seu mundo autossuficiente e não tivesse gostado do que viu. Como se o que vivia antes da ayahuasca fosse um sonho e agora precisasse lidar com o pesadelo que é a realidade — tanto que o longa é dividido em dois atos. Como, nas palavras dela, “se a alma tivesse descolado do corpo”. Paula perde noites de sono em sua catarse, tenta encarar o dia seguinte, reflete até quando vê um daqueles cartazes toscos nos postes da cidade que dizem “trago seu amor de volta amarrado em 2 dias”. Ela sai pra se jogar na noite com aquela euforia que depois se transforma em frustração, e volta pra casa na mesma rotina típica dos moradores da metrópole.

Se identificou? Provavelmente sim. Todos já sentimos os sintomas e efeitos colaterais (nada agradáveis) da modernidade líquida. É sufocante e perturbador encarar o ônus que vem junto da liberdade ilimitada. Como aproveitar as múltiplas escolhas e possibilidades, se você não sabe nem o que quer a longo prazo? Aliás, como pensar a longo prazo, se bate a conscientização de que tudo se dissolve rapidamente, muito antes de nos darmos conta? É impossível ter uma perspectiva de futuro com esse cenário. Fica cada dia mais complexo planejar a própria vida, quando tem-se a sensação de que amanhã pode ser tarde demais. Paula aparece com mais ações do que falas, mas quem conhece a obra de Bauman tem a sensação de que são esses pensamentos que passam pela cabeça da protagonista.

Com fotografia interessante e ótima trilha sonora, a única coisa que Amor Líquido deixa a desejar, infelizmente, é não explorar um pouco mais os outros personagens em outros ângulos além do fim de semana na fazenda. Os amigos de Paula têm seus curtos momentos de “viagem” com ayahuasca, quando sabemos o que cada um enxerga em seu delírio (ou seria choque de realidade?), mas, pelo sumiço decorrente, parecem eles mesmos um resquício da modernidade líquida que une pessoas com juras de amizade eterna, e depois se desfazem como se fossem totais desconhecidos. Fez falta também o diálogo entre Paula e o noivo, que não aparece em parte alguma, no que podia render uma cena de total identificação entre as “vítimas” do tal amor líquido.

Sobre a protagonista, vale uma análise à parte. Uma das melhores atrizes de sua geração, Paula Liberati vem arrancando elogios em seus papéis no teatro e cinema independente em São Paulo. Ela é capaz de transitar bem entre a comédia e o drama, embora seja nos enredos mais tensos, como o da personagem no longa de Steinberg, que ela mostra seu maior potencial. Seu ar teatral, que em cena faz lembrar muito das musas de Almodóvar, é responsável por boa parte do sucesso do filme. Apesar do bom roteiro de obra cult (e pouco comercial), se a protagonista tivesse tino apenas para o gênero dramático, Amor Líquido poderia ficar monótono e tedioso, colocando tudo a perder. Um legítimo caso de parceria entre atriz e diretor que parecem feitos um para o outro.

Amor Líquido, o filme, passou cerca de sete anos para ficar pronto. Chega a ser irônico, levando-se em conta o imediatismo presente no comportamento estudado por Bauman. De lá pra cá, muita coisa mudou. O sociólogo morreu. Tudo se acelerou de vez. Nada mais é planejado para ficar. Nem projetos, nem governos (vejam só!), nem mesmo relacionamentos. Principalmente relacionamentos! Os amores estão cada vez mais líquidos, as amizades então, nem se fala — salvo uma ou outra exceção de grupos mais antigos. O Soneto de Fidelidade de Vinicius nunca fez tanto sentido, assim como o Romance em 12 Linhas de Bruna Beber: “Quanto tempo falta pra gente se ver pra sempre (…) Quanto tempo falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu”.

Felizmente, e na contramão da efemeridade dos tempos atuais, o estudo de Zygmunt Bauman se imortalizou como obra-prima para entender o comportamento humano. Resta torcer para o mesmo acontecer com o necessário filme de Vítor Steinberg. Que seja eterno enquanto dure.