Natureza em miniatura

A mineira Ana Martins Marques fala sobre "O Livro dos Jardins", que será lançado nesta sexta em São Paulo, e adianta para a Bravo! um dos poemas da edição

Foto: Beatriz Goulart

Os paulistas poderão conferir nesta sexta-feira, na sede da editora Quelônio, o lançamento de O Livro dos Jardins, da poeta Ana Martins Marques, prêmio Bravo! de Cultura de Melhor Livro em 2018 com Como se Fosse a Casa, escrito com Eduardo Jorge. Com capa em papel artesanal e acabamento feito a mão, O Livro dos Jardins reúne 21 poemas sobre plantas e flores, além dos dedicados a poetas que a inspiram ou que a têm acompanhado na sua trajetória. A seguir, Ana Martins Marques fala do livro e adianta para a Bravo!, em primeira mão, um dos poemas.

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"O Livro dos Jardins já existia bem antes de existir assim, fisicamente, nessa forma tão bonita que a editora Quelônio lhe emprestou.

"Já há alguns anos eu tenho no computador um arquivo com esse nome, e já publiquei algumas pequenas séries de poemas em jornais e revistas com o título Poemas do Livro dos Jardins. Os poemas que compõem a segunda parte do livro, dedicados a poetas como Orides Fontela, Sylvia Plath, Wislawa Szymborska e Ingeborg Bachmann, também já tinham sido publicados na antologia O Nervo do Poema: Antologia para Orides Fontela, lançada pela Relicário Edições no ano passado.

"São cerca de 20 poemas curtos, que giram de alguma forma em torno do universo das plantas, das flores ou dos jardins, embora eu pessoalmente esteja muito longe de ter qualquer intimidade com as plantas (como, de resto, com qualquer coisa do mundo; confesso, com alguma vergonha, que já fui capaz de deixar morrer um cacto…). Tem um poema incrível da polonesa Wislawa Szymborska, O Silêncio das Plantas, em que ela diz que falar com as plantas é necessário e impossível. Acho esse poema muito revelador dos nossos movimentos de aproximação e distanciamento em relação aos outros seres, aos outros animais, às plantas, aos objetos, do nosso impulso de compreensão e ao mesmo tempo dos limites da nossa linguagem e do nosso entendimento nessas tentativas de aproximação…

"Apesar de tangenciar essa questão da nossa relação com as plantas, nossas vizinhas de outro reino, os poemas desse livro são na verdade bem modestos: estamos às voltas com o espaço diminuto do jardim, que é uma espécie miniatural e doméstica de natureza, um espaço limítrofe entre a casa e a rua, um espaço natural moldado pelo trabalho das mãos humanas (que, no entanto, acaba, como tudo o que é vivo, escapando um tanto do controle das mãos humanas)…

"Quando recebi, por intermédio da poeta Júlia de Carvalho Hansen, o convite da editora Quelônio, uma editora que publica literatura brasileira em edições feitas em tipografia e outras técnicas tradicionais de impressão e acabamento, lembrei desses poemas e pensei que seria apropriado que eles saíssem em tipografia, numa edição artesanal, costurada a mão…

"O projeto gráfico é assinado pela Sílvia Nastari, e o papel da capa é feito de folhas de bambu verde. Achei bonito o fato de o papel, que é bem rústico, deixar ver sua origem vegetal, como um lembrete de que os livros um dia foram árvores."

Foto: Beatriz Goulart

Um dos poemas de O Livro dos Jardins

girassol

O sol rodeia o mundo e você
o acompanha

a você pouco importa
que seja ele — o mundo –
a dar a volta
ao sol

à vista aérea do sol contrapõe
seu olho amarelo
fincado à terra e que vê
como nós vemos:
nem mais
nem menos

mas está
mais do que nós
alerta

até que tomba
sua cabeça pesada
que conhece o fardo
o peso da luz

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O Livro dos Jardins, de Ana Martins Marques. Lançamento em São Paulo no dia 3, com a presença da autora, na sede da editora Quelônio (rua Venâncio Aires, 1072, Pompeia), a partir das 16h.