Anatomia da incerteza

O espetáculo “Cérebro-Coração” é um convite para o inesperado, resultado de um processo de escrita conjunta, de textos recortados, leituras e vivências da atriz Mariana Lima em parceria com os diretores Renato Linhares e Enrique Diaz

Helena Bagnoli
Sep 19, 2018 · 4 min read
Foto: Divulgação

Córtex motor. Sístole. Córtex pré-motor. Diástole. Córtex pré-frontal. Dentro da caixa. Fora da caixa. Massa cinzenta. Massa branca. Assistir ao espetáculo-aula-palestra-catarse-performance Cérebro-Coração, escrito e encenado pela atriz Mariana Lima, é pensar no cérebro como um ente independente do humano que o carrega. E sempre na iminência de encontrar o coração, esse com ares um pouco menos autônomo, mas miseravelmente testemunha das decisões cerebrais — da ordem da memória ou das sensações.

A cena se abre com a presença de uma cientista prestes a iniciar uma conferência sobre o funcionamento do cérebro, disposta a deixar tudo muito claro na sua palestra. Ela é tão genuinamente natural e convincente que o espectador se coloca disponível na posição do aluno, e à medida que o caos lhe é apresentado, assim como a atriz/cientista/professora, ele é tragado por um túnel abismal que tira tudo do lugar.

Muito rapidamente se aniquilam as delimitações formais entre o racional versus emocional, o pessoal versus universal, não há saberes científicos em contraposição a saberes poéticos, não há o ontem versus o hoje e o amanhã. Instala-se na cena uma mistura de tudo, uma enxurrada de impressões, um destampar — expressão usada algumas vezes no texto — de possibilidades.

Não há mais história. O espectador começa a ser retirado do lugar cômodo e doutrinado do observador e passa a fazer parte daquele universo de probabilidades e não de certezas. Ele olha e não sabe o que vê. É um tempo suspenso.

O texto não se propõe a esclarecer, ele é uma amplificação das vivências da autora-atriz, sem preocupações com a simetria entre passado e presente. Ouvimos ali um diagnóstico pessoal pungente, compartilhado com a segurança e a sensibilidade dos que venceram a si próprios, atestando que algumas regiões do cérebro ouviram atentamente as performances do coração.

Foto:Maurício Fidalgo

Caldeirão de sensações

À medida que a cena transcorre, a atriz vai ficando cada vez mais exuberante, mais humana, dolorida como cada um dos que estão na sala observando-a, confusos sobre saber se são um eu ou se são um outro.

É o primeiro texto de Mariana Lima, que, segundo ela, tinha a intenção de ser mais um relato, uma reflexão sobre os seus lutos, suas dores, mas que depois de reunidos ganharam vida própria e viraram uma peça dramatúrgica. O resultado não é óbvio, ao contrário — é povoado de singularidades soltas, sem hierarquias, constituindo sínteses fragmentadas e sentimentos dissolutos. Mas que gritam o tempo todo aos ouvidos de cada um de nós.

A direção compartilhada de Enrique Dias e Renato Linhares, que também auxiliaram na dramaturgia, estabeleceu um jogo livre com o texto, intensificando às vezes sua crueza; às vezes equilibrando os estranhamentos tão necessários à chamada de consciência de quem ouve e vê.

Eles são apoiados com senioridade pela iluminação e a cenografia — alicerçada em projeções de vídeos — e que revertem e subvertem os sentidos, mas em simbiose, criando um ambiente propício para a encenação, sem muita firula. Da luz branca à vermelha sangue, tudo faz sentido, porque é exato, porque está a serviço da linguagem.

Um conjunto que propicia que Mariana alcance uma potência cênica invejável, visceral, arrebatadora, que vai evoluindo, confundindo, nos fazendo suspeitar que não ouvimos tudo o que havia para ouvir, mas que ali está uma voz bacante, uma atriz pronta para o que der e vier.

Mariana Lima foi revisitar tudo o que a fez ser o que é, tudo o que percebeu, e nesse emaranhado tem Marcel Proust, tem ciência, tem Leonilson, tem Clarice Lispector; tem sua aprendizagem sobre os neurotransmissores e a medicação que trata (ou destrata) os transtornos depressivos; tem história do avô; tem cérebro e coração amalgamados. Um caldeirão do que encontrou, mas principalmente, tudo o que não conseguiu responder.

Cérebro-Coração é das montagens mais audaciosas e inteligentes, uma jornada não convencional que nos propõe um sair de nós sem sair, porque o convite é para adentrarmos nas nossas entranhas, deixar o corpo ser de fato, o que apesar de tudo pode não ser íntimo. Pode ser apenas um esvaziamento, mas o melhor é atravessar essa porta e enfrentar a rotação para o caminho da dúvida de braços abertos.

Cérebro-Coração — Teatro SESC Belenzinho (Rua Padre Adelino, 1.000, Belenzinho, São Paulo, telefone (11) 2076–9700)- Sexta e Sábado:21.30h e Domingo às 18.30h. Até 23 de setembro. De R$9 a R$30.

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

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