Animal político em cena

O dramaturgo Anders Lustgarten fala sobre “Lampedusa”, peça que estreia no Cultura Inglesa Festival, em São Paulo

Daniela Scarpari e Ronaldo Serruya, atores na montagem brasileira de “Lampedusa” (Foto: Maria Tuca Fanchin)

“Anders Lustgarten é um animal raro: um dramaturgo político”, define o crítico de teatro Michael Billington, em artigo no jornal The Guardian. A avis rara em questão é o jovem autor que desde o início da década se destacou na cena britânica ao abordar sem metáforas algumas das questões sociais mais candentes hoje.

O conjunto de temas abordados, que aproximam o seu teatro do colunismo político, é variado. Inclui o conservadorismo do Partido Nacional Britânico (A Day at the Racists), as consequências das políticas de austeridade (If You Don’t Let Us Dream, We Won’t Let You Sleep), o assassinato de curdos na Turquia (Shrapnel) e a situação política do Zimbábue após a queda de Robert Mugabe (Black Jesus).

Em Lampedusa, peça de 2015 que tem sua estreia brasileira nesta quinta-feira (31) no Cultura Inglesa Festival, em São Paulo, Lustgarten mira a crise dos refugiados. Para abordá-la, o dramaturgo optou por reduzir o problema à escala individual, entrelaçando os monólogos de dois personagens, ambos observadores e participantes do drama dos imigrantes.

Enquanto o italiano Stefano, herdeiro de uma família de pescadores, ganha a vida retirando corpos afogados do Mar Mediterrâneo, a britânica de ascendência chinesa Denise anda de porta em porta cobrando dívidas para uma empresa de crédito em bairros operários, onde ouve reclamações a respeito dos estrangeiros.

Ao visitar o poço de ressentimento que alimenta o discurso de ódio da classe dos endividados, e por travar contato direto com a tragédia humana dos refugiados, “a peça se torna a história da descoberta gradual da compaixão por parte dos dois narradores”, diz Lustgarten em entrevista à Bravo!.

Uma versão de Lampedusa em formato de “audio drama” foi produzida pelo jornal The Guardian, em cujo site pode ser ouvida em inglês, narrada por Louise Mai Newberry e Ferdy Roberts, atores na montagem original. A encenação em português acontece no Teatro Cultura Inglesa de Pinheiros, com produção da Companhia do Instante. Luiz Fernando Marques, o Lubi, dirige o elenco formado por Daniela Scarpari e Ronaldo Serruya. O cenário conta com instalação do artista plástico Thiago Rocha Pitta.

Louise Mai Newberry e Ferdy Roberts em cena da montagem original de “Lampedusa” (Foto: Alistair Muir)

Na conversa com a Bravo! por e-mail, Lustgarten comenta a concepção de Lampedusa, lembra o primeiro contato com as artes do palco, quando dava aulas em um presídio, e defende a força política do teatro. “As pessoas reagem de forma muito mais poderosa a histórias e emoções do que ao debate factual, particularmente agora, em uma época de ‘fatos alternativos’ e ‘pós-verdade’. Estamos todos à procura de orientação sobre como viver, e talvez metáforas e narrativas orientem e inspirem melhor do que políticos e jornais”. Leia a íntegra da entrevista a seguir.

Você poderia falar um pouco sobre a peça Lampedusa?

É uma história sobre o neoliberalismo no norte e no sul da Europa. Normalmente as pessoas não colocam essas histórias juntas porque não percebem que elas estão conectadas, e porque as vítimas são frequentemente colocadas umas contra as outras. “Imigrantes versus pobres” é o método básico de controle da elite no Oeste moderno, quando na verdade ambos são vítimas do mesmo sistema, o sistema neoliberal de crueldade e exploração.

A crise dos refugiados é um problema grande e multifacetado. Quais aspectos você decidiu enfatizar?

A realidade física da morte. A peça inicia com uma descrição de como é tirar refugiados mortos para fora do mar. A razão pela qual a descrição funciona é que ela é contada do ponto de vista de duas pessoas que inicialmente desgostam ou desconfiam dos pobres, então ao invés de ser uma palestra, a peça se torna a história da descoberta gradual da compaixão por parte dos dois narradores.

Lampedusa foi apresentada em várias partes do mundo. Como foram as reações fora da Inglaterra? Você tem alguma expectativa específica quanto ao público brasileiro?

Ela foi realizada em quase todos os países da Europa ocidental. A reação mais interessante aconteceu na Grécia, porque os gregos ocupam uma espécie de espaço intermediário entre a Europa e o Sul global — eles foram absolutamente destruídos economicamente pelo Banco Central Europeu e pela União Europeia, e ainda esperam que eles assumam a responsabilidade de receber esse influxo enorme de refugiados. Já os italianos ficaram bastante surpresos que um estrangeiro pôde identificar atitudes e crenças da Itália — ainda que essa sensação de desesperança, de ressentimento e de necessidade por esperança são universais em toda a Europa, a Itália perdeu seu sistema político para a oligarquia antes do que a maioria de nós. Eu não sei como o público brasileiro vai responder porque a crise dos refugiados não é tanto um evento diário para vocês, mas imagino que a sensação de ressentimento e alienação contra um sistema político corrupto ressoará nas pessoas.

Você que acha que o teatro (e a arte, de modo geral) constitui um discurso político poderoso?

Sim. As pessoas reagem de forma muito mais poderosa a histórias e emoções do que ao debate factual, particularmente agora, em uma época de “fatos alternativos” e “pós-verdade”. Estamos todos à procura de orientação sobre como viver, e talvez metáforas e narrativas orientem e inspirem melhor do que políticos e jornais.

Li um pouco sobre a geração de escritores britânicos dos anos 50 conhecida como os “angry young men” [jovens raivosos]. Eles o influenciaram de algum modo, já que também escreviam peças sobre problemas sociais?

Não diretamente, muitas daquelas peças parecem datadas e paroquiais hoje — eu gasto mais tempo com os filmes dessa época, como O Mundo Fabuloso de Billy Liar e A Solidão de uma Corrida sem Fim. Mas estou certo de que eles influenciaram a cultural teatral britânica a se interessar mais por trabalhos politicamente engajados e naturalistas do que, digamos, a abstração alemã ou a farsa francesa.

A Inglaterra, como poucos outros países, tem uma tradição enorme no teatro. Isso facilita ou dificulta o trabalho do dramaturgo?

Os dois. O teatro ocupa uma posição cultural mais importante na Grã-Bretanha do que em muitos outros países. Como o teatro tem menos níveis de idiotice gerencial e besteira comercial do que o cinema ou a televisão, isso significa que, se você tem algo a dizer, tem mais chance de ser ouvido do que em muitos outros lugares. Mas o problema é que há muitos liberais moderados em posições de poder que desejam que as obras “políticas” não desafiem ou incomodem genuinamente, mas apenas os assegurem de que o centrismo é moralmente correto e decente, no momento em que ele está sob ataque. Então você tem muitas peças do feminismo branco e burguês — no estilo “Lean In” [“seja pró-ativo”, em tradução livre] — ou peças sobre como basicamente a classe média é decente. Essas peças são muito mais perigosas e tóxicas do que as “obras apolíticas”, porque reforçam o sistema que pretendem criticar.

Li que seu primeiro contato com teatro aconteceu quando trabalhava em uma prisão. Como foi essa experiência?

Foi ótima. Os presos gritam, comentam e tentam subir no palco durante os espetáculos e geralmente deixam você saber se é bom ou não logo de cara. Se eu soubesse que espectadores normais não são como os presos, eu provavelmente teria escolhido outra coisa pra ganhar a vida!


Lampedusa no Cultura Inglesa Festival: de 31/5 a 3/6, às 21h (quinta a sábado) e 19h (domingo). Retirada gratuita de ingressos uma hora antes do espetáculo. Teatro Cultura Inglesa — Pinheiros: Rua Deputado Lacerda Franco, 333 — Pinheiros — São Paulo.

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