Aquarius vai além da especulação imobiliária e mantém coerente filmografia de Kleber Mendonça

Para ler ouvindo: Douglas Germano — Espólio

Cena de Aquarius. Foto: Victor Jucá/Divulgação

Após várias polêmicas, Aquarius chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 1º, da mesma semana em que o processo de impeachment da presidente eleita Dilma Rousseff tem um desfecho em Brasília. Segundo Kleber Mendonça Filho, diretor do filme, quando filmava o longa no ano passado, ele nem imaginava que a crise política terminaria assim. Por menos prevista que essa situação tenha sido, ela não pode ser dissociada das circunstâncias do lançamento do filme hoje.

Uma jornalista de 65 anos (Clara, interpretada por Sônia Braga), viúva e aposentada, lida com o dilema de que o prédio em que vive, em que criou os três filhos e foi feliz com o marido, está sendo comprado por uma construtora. Todos os outros apartamentos do Edifício Aquarius já foram vendidos e ela está sozinha, numa edificação abandonada, negando ofertas generosas. Dona de mais outros cinco imóveis, ela nem cogita a venda. Contrariando a família e sofrendo pressão de ex-vizinhos e do ganancioso diretor do projeto do “Novo Aquarius”, Diego (Humberto Carrão), um jovem, branco, herdeiro da construtora, Clara dá uma lição de obstinação: sua casa, ao contrário do resto do prédio, é charmosa e confortável. É um lugar de boas lembranças, de recepções calorosas e muita música. Sua resistência é notável — assim como a de outra senhora, também de 60 e tantos anos, que passou a segunda-feira sob escrutínio de outros homens brancos e de elite (como Diego), em Brasília.

A semelhança entre Clara e Dilma é essa: resistem. Uma tem de conviver com a entrada de estranhos barbarizando o seu prédio, até com cocô nas escadas. A outra recebe vaias de um estádio inteiro sob transmissão internacional, comparece, para ver “olho no olho”, os que a detratariam e tenta se defender por mais de 15 horas de um processo já definido. Seja qual for a sua opinião sobre essas duas senhoras, estes fatos são inegáveis.

Mas, felizmente, ao contrário da política, a arte costuma ir além. A coesa filmografia de Kleber Mendonça Filho tem mostrado que a sua crítica não é só à especulação imobiliária, ou ao crescimento desordenado das cidades. As construtoras representam, no limite, um dos braços que fazem uma cidade se tornar gélida (como em Recife Frio) e os representantes desse sistema, como Diego, não são mais do que a renovação de uma estrutura que está presente desde o período colonial (como em O Som ao Redor).

Os dois, no entanto, colocam uma antítese que já é clássica na interpretação do Brasil: como pode um sistema racional, que busca números, lucro e produtividade usar de um expediente atrasado, cordial e patrimonialista? Essa é a forma como o capitalismo se deu no Brasil, segundo alguns. E a forma como a pressão sobre Clara se dá talvez sintetize o pior desses dois mundos: o incivilizado da empresa capitalista contemporânea (o oposto, por exemplo, de práticas como o “compliance”), e as táticas excusas dos “serviços” prestados por capangas, jagunços (na versão do século 21, seguranças, como Clodoaldo em O Som Ao Redor) — um dos efeitos das relações de “cordialidade” à brasileira.

Em atuação impecável de Sônia Braga, o filme é dividido em três partes, e mostra Clara em 1980 (aí, interpretada por Bárbara Cohen), na fase de recuperação de um câncer, e no tempo presente, aos 65 anos. Aquarius constrói um arcabouço individual e amoroso para a Clara, primeiro a partir da relação da personagem com o seu corpo, seja pela cabeleira farta ou pelas mudanças provocadas pelo câncer e, depois, pela relação com seus afetos, que de alguma maneira lhe asseguram a força necessária para se contrapor ao assédio do projeto Novo Aquarius.

O filme é a perspectiva de Clara, a câmera mora nela em boa parte da história. Esses momentos são claros, iluminados, como se imaginaria uma vida em uma cidade à beira mar — ainda que cenas como a dela saindo de um banho de mar pareçam uma espécie de anti-Gabriela.

Foto: Victor Jucá/Divulgação

A luminosidade talvez pareça maior por contrastar com um suspense crescente na narrativa e a escuridão do prédio abandonado em que vive. A trilha sonora é certeira — afinal, Clara era jornalista especializada em música — e valoriza a intensidade de clássicos como Maria Bethânia, Gilberto Gil, e Taiguara, que se encaixa como uma luva no longa-metragem, com Hoje.

A aposta de Kleber numa só personagem, mulher e mais velha, sai do comum. Clara tem sua vida à mostra: a solidão, a sexualidade, a alegria dos sobrinhos e netos, a condição econômica privilegiada — ela sequer precisa pensar em dinheiro–, e uma certa consciência de estar fazendo história ao viver aquele drama.

Em diversas entrevistas, Kleber tem lembrado do movimento Ocupe Estelita, que conseguiu reverter a construção do Novo Recife, projeto que faria treze prédios de até 40 andares em uma das áreas mais privilegiadas da cidade, o Cais José Estelita. Como um movimento de uma pessoa só, Clara manda uma mensagem na garrafa com os mesmos dizeres do grupo de jovens do Recife: ocupar e resistir.