Arte nas ruínas

Fábrica de Arte Marcos Amaro inscreve Itu, no interior de São Paulo, no circuito da arte contemporânea brasileira

“Arranque”, Edith Derdyk (Foto: Iara Morselli)

Instalada nas ruínas da Fábrica São Pedro, gigante da indústria têxtil de Itu na primeira metade do século 20, a recém-inaugurada Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA) inscreve a cidade do interior paulista no circuito da arte contemporânea brasileira.

Os galpões com pé direito altíssimo e enormes janelas estão aos poucos sendo ocupado por cursos, oficinas, residências artísticas e obras de arte — tanto as criadas por Marcos Amaro, empresário e artista que dá nome à FAMA e à fundação que a administra, quanto as de sua coleção.

“Esse é um espaço em transformação”, diz Ricardo Resende, curador da Fundação Marcos Amaro. “É um espaço que estava em um processo de decomposição arquitetônica e predial, e que agora a gente entra para reconstruí-lo com arte”.

“É uma dádiva ver, no momento em que a gente vive no país, um espaço como esse no interior de um Estado em que se a gente observa o que ele tem de equipamentos culturais e de produção de arte, no interior, é quase nulo”, continua Resende. “O nosso objetivo é que a FAMA seja realmente uma fomentadora de arte no interior de São Paulo, ampliando esse anel que existe entre Rio e São Paulo.”

Fábrica de Arte Marcos Amaro (Foto à direita: Ricardo Rinaldi)

Nascida no interior, a artista Raquel Fayad — diretora geral da FMA — enfatiza a necessidade de descentralizar o acesso à arte. “Nem todos tem a possibilidade como eu de ir a São Paulo fazer cursos, visitar exposições, participar de encontros com críticos, curadores e outros artistas”, diz. “Trazer o que tem de mais arrojado e atual na arte contemporânea é muito importante para os artistas que temos no interior do estado de São Paulo.”

Um dos aspectos mais interessantes da fábrica é a presença do tempo nas janelas quebradas, nas paredes pichadas, nos tiros de tinta em um galpão que serviu como campo de paintball e no mato que irrompe no concreto, proporcionando ao visitante uma espécie de caminhada sobre as ruínas do século 20.

“A ideia desse espaço aqui é preservar”, diz Resende. “Nós estamos preservando da maneira como nós encontramos, queremos guardar de fato essas características do prédio”, continua o curador, lembrando que a construção é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “A gente vai manter a tradição da fábrica”, completa Marcos Amaro, que pretende construir uma sala de memória com o acervo fotográfico da São Pedro.

Exposições

Almeida Júnior, pintor nascido em Itu e cuja obra elevou o caipira à emblema nacional, nomeia dois grandes salões expositivos ocupados pela mostra O tridimensional na coleção Marcos Amaro. Apesar de iniciar com obras do século 18 e 19 —uma despida Nossa Senhora das Dores, esculpida por Aleijadinho, e uma versão em tamanho reduzido da tela Descanso do Modelo, de Almeida Júnior — a exposição reflete o interesse de Amaro por trabalhos dos séculos seguintes, quase sempre de grande porte.

“Nossa Senhora das Dores”, de Aleijadinho, e “Descanso do Modelo”, de Almeida Júnior

Estão ali representados alguns dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, desde Cildo Meireles e Tunga até Nuno Ramos e Adriana Varejão. São esculturas e instalações imensas, além de telas com objetos que avançam sobre o campo do observador.

Na maioria delas prevalece o aspecto ruinoso, refletindo assim o trabalho de Amaro como artista, conhecido por amontoar carcaças e peças de aviões antigos com outros materiais, como árvores, em esculturas que evocam acidentes aéreos. “Minha obra é totalmente influenciada pelo espaço, não dá para desconectar”, diz Amaro, que mantém seu ateliê em um dos galpões da fábrica, espécie de espelho de suas criações. “Virou essa mescla”, define.

“Blue Star”, de Marcos Amaro (foto de Iara Morselli), e obra sem título de Nuno Ramos

O desfile de obras gigantescas continua nos jardins da fábrica, hoje habitados por esculturas de Emanoel Araújo, Amílcar de Castro e Franz Weissmann, entre outros. Em proporção menor, a instalação Arranque, de Edith Derdyk, toma dois espaços expositivos— uma sala fechada e um galpão a céu aberto — com carvão, papel, fios e pequenas fotografias de um campo de concentração desativado.

“Há três anos eu fiz uma viagem à Polônia para fazer uma pesquisa de prospecção da minha filiação”, conta a artista. “Quando voltei, fiquei muito atrás de espaços abandonados, que não eram mais o que eram mas ainda não eram o que deveriam ser.”

Foi então que Derdyk conheceu a fábrica, antes ainda de ela se tornar um espaço de arte. Ali, encontrou o lugar de passagem que procurava. “A palavra ‘arranque’ tem dois sentidos, o de que você arranca alguma coisa ou quando você dá um sinal de partida”, explica. “A própria palavra já tem essa ideia de um espaço entre uma coisa e outra, um estado de deslocamento e de descolamento.”

Obras sem título de Emanoel Araújo e Franz Weissmann (Fotos: Stefânia Sangi)

A individual de Derdyk é a primeira contemplada por um edital da FAMA que aprovou projetos de outros cinco artistas e coletivos: Eduardo Frota, de Fortaleza; o grupo goiano de performance EmpreZa; a chilena radicada no interior Pola Fernadez; e os paulistas Regina Parra e Rodrigo Sassi. A fábrica ainda tem residência artística confirmada da alemã Barbara Hindahl.


O tridimensional na coleção Marcos Amaro e Arranque, de Edith Derdyk. De terça a sexta-feira, das 10h às 17h. Grátis. Fábrica de Arte Marcos Amaro: Rua Padre Bartolomeu Tadei, 9 — Itu.