Arte nas ruínas

Fábrica de Arte Marcos Amaro inscreve Itu, no interior de São Paulo, no circuito da arte contemporânea brasileira

Andrei Reina
Jul 4, 2018 · 5 min read

Instalada nas ruínas da Fábrica São Pedro, gigante da indústria têxtil de Itu na primeira metade do século 20, a recém-inaugurada Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA) inscreve a cidade do interior paulista no circuito da arte contemporânea brasileira.

Os galpões com pé direito altíssimo e enormes janelas estão aos poucos sendo ocupado por cursos, oficinas, residências artísticas e obras de arte — tanto as criadas por Marcos Amaro, empresário e artista que dá nome à FAMA e à fundação que a administra, quanto as de sua coleção.

“Esse é um espaço em transformação”, diz Ricardo Resende, curador da Fundação Marcos Amaro. “É um espaço que estava em um processo de decomposição arquitetônica e predial, e que agora a gente entra para reconstruí-lo com arte”.

“É uma dádiva ver, no momento em que a gente vive no país, um espaço como esse no interior de um Estado em que se a gente observa o que ele tem de equipamentos culturais e de produção de arte, no interior, é quase nulo”, continua Resende. “O nosso objetivo é que a FAMA seja realmente uma fomentadora de arte no interior de São Paulo, ampliando esse anel que existe entre Rio e São Paulo.”

Nascida no interior, a artista Raquel Fayad — diretora geral da FMA — enfatiza a necessidade de descentralizar o acesso à arte. “Nem todos tem a possibilidade como eu de ir a São Paulo fazer cursos, visitar exposições, participar de encontros com críticos, curadores e outros artistas”, diz. “Trazer o que tem de mais arrojado e atual na arte contemporânea é muito importante para os artistas que temos no interior do estado de São Paulo.”

Um dos aspectos mais interessantes da fábrica é a presença do tempo nas janelas quebradas, nas paredes pichadas, nos tiros de tinta em um galpão que serviu como campo de paintball e no mato que irrompe no concreto, proporcionando ao visitante uma espécie de caminhada sobre as ruínas do século 20.

“A ideia desse espaço aqui é preservar”, diz Resende. “Nós estamos preservando da maneira como nós encontramos, queremos guardar de fato essas características do prédio”, continua o curador, lembrando que a construção é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “A gente vai manter a tradição da fábrica”, completa Marcos Amaro, que pretende construir uma sala de memória com o acervo fotográfico da São Pedro.

Exposições

Almeida Júnior, pintor nascido em Itu e cuja obra elevou o caipira à emblema nacional, nomeia dois grandes salões expositivos ocupados pela mostra O tridimensional na coleção Marcos Amaro. Apesar de iniciar com obras do século 18 e 19 —uma despida Nossa Senhora das Dores, esculpida por Aleijadinho, e uma versão em tamanho reduzido da tela Descanso do Modelo, de Almeida Júnior — a exposição reflete o interesse de Amaro por trabalhos dos séculos seguintes, quase sempre de grande porte.

Estão ali representados alguns dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, desde Cildo Meireles e Tunga até Nuno Ramos e Adriana Varejão. São esculturas e instalações imensas, além de telas com objetos que avançam sobre o campo do observador.

Na maioria delas prevalece o aspecto ruinoso, refletindo assim o trabalho de Amaro como artista, conhecido por amontoar carcaças e peças de aviões antigos com outros materiais, como árvores, em esculturas que evocam acidentes aéreos. “Minha obra é totalmente influenciada pelo espaço, não dá para desconectar”, diz Amaro, que mantém seu ateliê em um dos galpões da fábrica, espécie de espelho de suas criações. “Virou essa mescla”, define.

O desfile de obras gigantescas continua nos jardins da fábrica, hoje habitados por esculturas de Emanoel Araújo, Amílcar de Castro e Franz Weissmann, entre outros. Em proporção menor, a instalação Arranque, de Edith Derdyk, toma dois espaços expositivos— uma sala fechada e um galpão a céu aberto — com carvão, papel, fios e pequenas fotografias de um campo de concentração desativado.

“Há três anos eu fiz uma viagem à Polônia para fazer uma pesquisa de prospecção da minha filiação”, conta a artista. “Quando voltei, fiquei muito atrás de espaços abandonados, que não eram mais o que eram mas ainda não eram o que deveriam ser.”

Foi então que Derdyk conheceu a fábrica, antes ainda de ela se tornar um espaço de arte. Ali, encontrou o lugar de passagem que procurava. “A palavra ‘arranque’ tem dois sentidos, o de que você arranca alguma coisa ou quando você dá um sinal de partida”, explica. “A própria palavra já tem essa ideia de um espaço entre uma coisa e outra, um estado de deslocamento e de descolamento.”

A individual de Derdyk é a primeira contemplada por um edital da FAMA que aprovou projetos de outros cinco artistas e coletivos: Eduardo Frota, de Fortaleza; o grupo goiano de performance EmpreZa; a chilena radicada no interior Pola Fernadez; e os paulistas Regina Parra e Rodrigo Sassi. A fábrica ainda tem residência artística confirmada da alemã Barbara Hindahl.


O tridimensional na coleção Marcos Amaro e Arranque, de Edith Derdyk. De terça a sexta-feira, das 10h às 17h. Grátis. Fábrica de Arte Marcos Amaro: Rua Padre Bartolomeu Tadei, 9 — Itu.

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

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