Arthur Nogueira e a poesia

Compositor paraense, que lança em setembro seu quarto álbum, escreve para a Bravo! sobre a sua relação com a palavra

Guilherme Werneck
Aug 25, 2017 · 3 min read

Essa aí em cima é a capa de Rei Ninguém, novo disco de Arthur Nogueira, feita pela artista visual paraense Elisa Arruda. O álbum tem pré-lançamento na terça, dia 29/8, na São Paulo Fashion Week.

Para o público, Rei Ninguém chega em 11 de setembro, numa parceria da Natura Musical com o selo Joia Moderna. Mas já no dia primeiro de setembro estará disponível o single Consegui, com letra de Antonio Cicero e participação de Fafá de Belém.

Como poesia e música estão na essência do trabalho de Arthur Nogueira, pedimos que ele falasse um pouco sobre essa relação e de como ela aparece em Rei Ninguém. O resultado é esse texto, feito com exclusividade para a Bravo!:

“As pessoas cagam pr’os poetas.” Essa frase da Hilda Hilst quase sempre retorna à minha cabeça. Logo eu, que aos 13 anos descobri a poesia na estante de livros e LPs do meu pai, que só faço música por causa dos poetas, que estou sempre em busca deles. Sim, Hilda estava certa e, infelizmente, a poesia quase nunca dá dinheiro no Brasil. No geral, os poetas são “atropelados” pela correria do mundo moderno, em que “tempo é dinheiro”. Ainda assim, é exatamente a não adequação que esconde o encanto, o tesouro, o maior bem da poesia. Meu parceiro em duas canções desse disco, Antonio Cicero explica que é por não se ajustar ao nosso presente acelerado que a poesia se faz cada vez mais necessária e causa tanto prazer aos que escolhem se entregar a ela. O poema permite, com a condição de que a gente disponha a ele toda nossa atenção e faculdades, o acesso a “outro modo de apreensão do ser e do tempo”, que não é utilitário, que vale por si, que não está a serviço de nada senão da grande beleza. Hoje, tenho a clareza de que foi a descoberta inconsciente disso, do “lance” do poema, que determinou que eu deveria me expressar por meio da música, durante minha infância.

Nesse quarto disco, prossigo minha parceria com Antonio Cicero, grande amigo a quem dediquei meu trabalho anterior, e também abro novos caminhos poéticos. “Rei Ninguém” estabelece diálogos inéditos em minha vida, entre os quais, por exemplo, uma versão em português de uma música de Bob Dylan (feita em parceria com o poeta Erick Monteiro Moraes) e canções com versos de Eucanaã Ferraz e Rose Ausländer, a impressionante poeta judia, de língua alemã, cujo poema inspirou o título do disco. Ao mesmo tempo, também tive o prazer de escrever letras para melodias de Zé Manoel e Luiz Gabriel Lopes, compositores que acompanho com interesse. Depois de dois discos eletrônicos, “Rei Ninguém” é essencialmente acústico, gravado ao vivo durante uma imersão de cerca de uma semana no interior de São Paulo. Considero meu trabalho mais autoral, porque assino, sozinho ou em parceria, todas as canções, convidei os músicos pessoalmente e participei de todas as etapas do processo, inclusive da criação dos arranjos, concebidos em parceria com Allen Alencar (guitarra), Filipe Massumi (violoncelo), João Paulo Deogracias (baixo e sintetizadores), Richard Ribeiro (bateria) e Zé Manoel (piano e teclado). Um “Rei Ninguém” é soberano em sua liberdade e reconhece as múltiplas possibilidades do presente, com coragem e tesão, sem medo nem esperança.

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

)

Guilherme Werneck

Written by

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade