As vísceras de Tiago Ferro

“O Pai da Menina Morta” é um profundo diário do luto vivido pelo autor após o falecimento de sua filha

Antes de ser crítico literário, eu já era jornalista e escrevi alguns livros com base em reportagens e depoimentos. Por experiência própria, posso afirmar que a dor nos leva a um estado de espírito que exibe nossas entranhas ao contar certas histórias. Acontece com parte considerável dos escritores que acompanho. O exemplo mais recente é o de Tiago Ferro, que perdeu uma filha de 8 anos, Manu, em 2016, e agora lança o livro O Pai da Menina Morta.

O título nos provoca, de cara, a refletir sobre a descrição que as pessoas (e a mídia) dão aos parentes de quem passa por uma tragédia. É sempre “a mãe do garoto baleado”, “o pai da vítima”, “o irmão do assassinado”, entre outras variações. O mais chocante, aliás, é quando esses rótulos ultrapassam as barreiras da solidariedade e os familiares — também vítimas — acabam ficando sem sua identidade. Como num dos trechos do romance: “Eu sempre serei o pai da menina morta. Não estou procurando ou exigindo qualquer tipo de justiça. Eu simplesmente aceito a dor aguda na ausência. No vazio. Nós também somos feitos de espaços em branco. (…) São abismos internos. É preciso cuidado para não se perder”.

Com narrativa fragmentada, o autor tece uma espécie de diário do luto, que lembra O Brilho do Bronze, escrito pelo historiador Boris Fausto após o falecimento de sua esposa. Porém, se o acadêmico manteve sua linha mais clássica e contida, no livro de Tiago Ferro nos deparamos com a vida como ela é: dura, sarcástica e cruel. As seções, em ordem aleatória, mostram de tudo, desde os sentimentos que dominam aquele pai nos dias e meses que se seguem à morte da garota, até mesmo os julgamentos de um “tribunal” imaginário que, convenhamos, é típico da raça humana. “Você deixou a sua filha morrer. Que espécie de pai você é? Como você ainda tem coragem de exibir a sua cara por aí? Como você ainda tem a petulância de comer, dormir, sorrir, trepar, respirar? Como? Responda!”. Sim, na mente sórdida da população, quem perde os filhos perde também o direito à vida. Torna-se inadequado a todos os lugares. É predestinado a viver um luto que, não bastasse ser tão dilacerante, entra na lista de hipocrisias desenhadas pela sociedade.

Por sorte, o protagonista parece não se preocupar com o que as pessoas pensam. Ele já tem um problema maior, que é lidar com o vazio imensurável que aquela morte lhe causa. Por outro lado, se um acontecimento tão trágico é antinatural para qualquer pai, ele sabe que precisa continuar vivendo. Ao menos tentando, conforme o fluxo permite. E são esses momentos que vemos no livro. Afinal, ninguém deixa de raciocinar, por mais que os devaneios tomem conta da mente. Ninguém deixa de lamentar outros tantos falecimentos que acontecem. Ninguém deixa de sentir necessidades físicas, como comer, exercitar o corpo, e transar, óbvio! Nada disso é prioridade do personagem, mas faz parte do cotidiano e é indispensável para a existência no mundo dos vivos.

Enquanto as divagações do diário seguem com bom humor, ironia e pitadas de referências à cultura pop, os momentos com choque de realidade comovem até aqueles de sangue mais frio. “Como se esquecer da dor, sem se afastar da pessoa que morreu?”. Tantos pais podem responder a isso com a própria história de vida. Minha amiga Fernanda, uma das participantes do meu livro Mães em Crise, é um exemplo dessa temática. Faz pouco mais de três anos que ela perdeu a primogênita, Carol, e não tem um dia sequer que ela não sinta a presença da filha ao seu lado. “Passados os anos, eu percebi que a morte não nos separou, e sim nos uniu por laços invisíveis e eternos”, disse Fernanda recentemente, em uma de suas inúmeras (e emocionantes) declarações para a filha. Provavelmente, o autor sente algo semelhante.

Tiago, Fernanda e todos os pais que passam pela mesma desventura diariamente, não têm em comum apenas o sentimento dilacerante, mas também o furacão de questionamentos que os domina. Em determinado momento do livro, o protagonista é aconselhado a não alimentar o pensamento daquilo que faria nos próximos anos se a filha estivesse viva. É inútil, visto que uma válvula é acionada e, automaticamente, cria-se uma linha do tempo de fatos não ocorridos na trajetória de quem se foi. Como o protagonista mostra, alguns dias são mais fáceis. Em outros, “a vida está te puxando de volta. Um dia a conta chega”.

Entre seções com inesperadas notas de falecimento, excitantes aventuras sexuais e divertidas memórias da juventude, o autor revela trocas de mensagens com alguém que parece ser sua agente, bem objetiva: “O pessoal da editora adorou a amostra que você mandou. Mas eles querem mais. Mais verdade. Mais benzina. Mais sangue. Eles querem as suas vísceras”.

Xeque-mate! O Pai da Menina Morta expõe as vísceras de Tiago Ferro. Nos sensibilizamos com sua angústia. É necessário se segurar para não julgá-lo em algumas partes e entrar pra seção do “tribunal”. Contudo, conhecemos o que, provavelmente, há de mais profundo e sensível na sua veia de escritor. Todo mundo que já perdeu alguém que ama deveria ler.

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O Pai da Menina Morta, de Tiago Ferro. Editora Todavia, 176 páginas. R$ 44,90.

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