Beleza em perigo

Defensor de inovação conciliada com tradição, o compositor e clarinetista Jörg Widmann vem a São Paulo apresentar obras próprias em diálogo com Mozart, Schumann e Mendelssohn

O compositor Jörg Widmann (Foto: Marco Borggreve)

O músico batuca no corpo da viola, em desafio ao percussionista. Passa, então, a dedilhar as cordas do instrumento, em seguida tocadas com o arco, que encontra antes de se pôr a caminhar pela orquestra. A determinação prossegue: ele encasqueta com a tuba, tenta sobrepor-se à família das cordas e envereda por golpes frenéticos que culminam em um sonoro grito.

Quem ouve e assiste ao Concerto para Viola de Jörg Widmann — interpretado com verve performática por Antoine Tamestit e a Sinfônica da Rádio de Frankfurt — mal pode imaginar que seu autor reza na igreja de Wolfgang Amadeus Mozart, Robert Schumann e Felix Mendelssohn. Na prática musical do alemão, que se divide entre as carreiras de compositor, clarinetista e regente, o passado surge sempre renovado e estimula novas criações.

Esta conciliação entre passado e presente marca os programas que Widmann apresenta com a Orquestra de Câmara da Irlanda, da qual é diretor artístico, nos dias 4 e 5 de junho na Sala São Paulo, para a temporada da Cultura Artística. Na terça, rege a sua 180 beats per minute, um eletrizante sexteto de cordas escrito em 1993, quando tinha 19 anos, ao lado de duas obras de Mendelssohn — a abertura As Hébridas e a Sinfonia nº 3, mais conhecida como Escocesa. Inspirada em Beethoven e escrita para a Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara, Con brio será apresentada na quarta, ao lado da Sinfonia nº 2 de Schumann, a favorita de Widmann.

Nos dois dias, Jörg Widmann interpreta o Concerto para Clarinete de Mozart, uma das mais conhecidas (e fascinantes) peças no repertório do instrumento. “Se você não acredita em Deus e ouvir o segundo movimento, você estará convencido de que deve haver uma força maior do que nós”, diz Widmann, que enxerga “uma beleza em perigo” no concerto.

De Taiwan, uma das últimas paradas antes da primeira vinda ao Brasil, o músico alemão falou à Bravo! por telefone sobre os programas que apresenta na Sala São Paulo. Comentou também a forma como aborda a música do passado: “Nós temos de inventá-la toda noite como uma obra nova”. Leia a íntegra da conversa a seguir.

O Concerto para Viola de Widmann, por Antoine Tamestit

Como um compositor do século 21, qual tipo de relação você estabelece com a música do passado?

Para mim, a conexão com a música do passado é algo muito importante. Acho que devemos criar coisas novas hoje mas, a meu ver, tudo vem do conhecimento e da experiência da música do passado. O que não quer dizer que eu somente olhe para trás de forma sentimental ou nostálgica. Eu amo esta música e vocês vão ouvir isso nas minhas obras que serão tocadas no Brasil, como Con brio, que tem a ver com a música do passado mas com a qual tento criar algo novo.

Há algum movimento, período ou compositor com os quais você mais se identifique?

Eu tenho uma relação próxima com a música do passado em geral, mas Mozart, Mendelssohn, Schumann, Beethoven — esta é a minha linguagem musical, a de onde eu venho. Eu nasci em Munique e cresci com a música folclórica e a música artística dessas pessoas, mas também [ouvi música] do século 20, como Pierre Boulez. Tenho muitas influências, mas o mais importante pra mim é, com a admiração por essa música, encontrar a minha própria linguagem.

Você poderia comentar 180 beats per minute, obra sua que também será apresentada no Brasil?

Eu era muito jovem, tinha 19 anos de idade quando a escrevi. É uma obra para sexteto de cordas. Ela tem duas ou três partes de harmonia, mas toda a peça é baseada no movimento rítmico. Nessa época da minha vida o ritmo era a força motora, somente depois a linguagem harmônica e a melodia se tornaram importantes. Essa obra é puro ritmo.

Ela foi gravada em um CD no ano passado ao lado de duas obras de Mendelssohn que também serão tocadas aqui, a Sinfonia Escocesa e As Hébridas. Há alguma relação entre essas obras e 180 beats per minute?

Certamente. Quero dizer, não diretamente, mas se você pegar, por exemplo, o segundo movimento da Sinfonia Escocesa, [há] aquela alegria pura de ritmo e música folclórica. Neste sentido, fico muito feliz de podermos apresentá-las no mesmo programa, porque estou convencido de que o ouvinte escutará o Mendelssohn de uma maneira diferente com a minha obra. Nesse programa que faremos em São Paulo o público pode ouvir as conexões da minha música com o passado, mas também aquilo que em Mendelssohn há de importante, não só para o que faço, mas para o futuro.

Eu conheci sua música através de um vídeo com a apresentação do Concerto para Viola. Chamava a atenção ali, além do grito do Antoine Tamestit, as características teatrais da obra. Era como se você quisesse contar uma história ou realizar uma performance. Quando você passou a se interessar por esses elementos, digamos, extra-musicais?

Você fala de elementos extra-musicais, mas tocar um instrumento, reger, fazer música, para mim, é de saída algo físico. Já é teatro. O que fiz com meu Concerto para Viola é um aspecto exagerado disso, é claro, mas acredito que quando um músico pega um violino e cria um som, isto já é algo físico e teatral em si mesmo. E quando você ouve uma sinfonia como a de Mendelssohn, é pura experiência física. Para mim não há um contraste entre música absoluta, como uma sinfonia, e teatro.

O Concerto para Clarinete de Mozart por Jörg Widmann

Outra obra que você interpretará no Brasil, esta como solista, é o Concerto para Clarinete de Mozart, frequente em seu repertório. O que ele representa para você?

Eu diria o seguinte: se você não acredita em Deus ou que haja algo acima de nós, e ouvir o segundo movimento, você estará convencido de que deve haver uma força maior do que nós. E se Mozart tivesse escrito somente o segundo movimento, o adágio do Concerto para Clarinete, ele já seria eterno. Ao mesmo tempo, há muitas dissonâncias nesta música. Eu tento mostrar isso com minha orquestra. É lindo, sim, mas é incrivelmente lindo porque é uma beleza em perigo. Se eu tivesse que escolher apenas uma obra, a música mais bonita da minha vida, seria o Concerto para Clarinete de Mozart.

Como a carreira de clarinetista influencia o modo como você compõe e enxerga a música?

Quando componho, é a mesma abordagem do que quando pego o clarinete ou quando conduzo. Não há diferença. Quando toco o Concerto para Clarinete de Mozart eu não digo “bom, é música do passado, é lindo, então devemos tocá-la, ela pertence a nós”. Não, nada disso. Nós temos de inventá-la toda noite como uma obra nova. É música nova para mim, não do passado. Esta seria a minha abordagem.

Em uma entrevista para o jornal The Guardian, você diz que “em basicamente cada obra” sua pode-se ouvir “pelo menos um acorde em lá menor, (…) o tom favorito de Schumann”. Você irá reger a Sinfonia nº 2 de Schumann aqui no Brasil. Como ela ecoa no seu trabalho?

Schumann foi muito, muito importante para mim. Eu diria até que não há uma obra minha que não tenha a ver com Schumann. Em toda a minha música — de câmara, orquestral e solo — sempre há uma sugestão, uma harmonia conectada a ele. O que há de tão moderno no Schumann é o que chamo de “melodia de curva febril”. [Canta um trecho da sinfonia.] É um jeito muito estranho e típico do Schumann de tratar a melodia. E a linguagem harmônica dele, para mim, é a de uma música nova. Se eu tivesse que escolher uma sinfonia na minha vida, seria a nº 2 de Schumann. Ele teve muitos problemas na vida, mas nela ele finalmente os superou. Schumann estava muito doente quando escreveu esta obra, mas quando completou o último movimento, ele disse: “Eu me sinto saudável novamente”. E é isso o que se ouve.

Como você descreveria o trabalho da Orquestra de Câmara da Irlanda?

Para mim é realmente um espírito novo de fazer música. Eles dão tudo de si em cada concerto e é isso o que eu amo na orquestra. Nós temos trabalhado juntos há quase dez anos já. Tive o privilégio de reger e tocar em muitos concertos com eles e o público sempre ama. Eles morreriam pelo concerto, eles dão tudo de si no momento e esta é a mesma razão pela qual eu faço música. Nós podemos talvez tocar algo errado, mas não ligo tanto se o espírito estiver correto.

Quais suas expectativas para os concertos no Brasil?

Devo dizer que esta é a minha primeira vez no Brasil. É uma grande honra para nós, para mim e para a Orquestra de Câmara da Irlanda, tocar a minha música, a de Mendelssohn e a de Schumann no Brasil. É um país fascinante e mal podemos esperar por isso. Estamos todos ansiosos em mostrar a ideia que temos da música, que é a conexão da música do passado com a de hoje.


Jörg Widmann e Orquestra de Câmara da Irlanda. Dias 4 e 5 de junho, às 21h. Ingressos: de R$ 75 a R$ 300 (caso haja disponibilidade, ingressos promocionais serão vendidos a R$ 20 meia hora antes do concerto). Sala São Paulo: Praça Júlio Prestes, 16 — Campos Elíseos — São Paulo.