Bicho de 24 cabeças

Série que começa hoje no CCSP apresenta Rakta, Bixiga 70, Hurtmold e Metá Metá e vários de seus projetos paralelos

Quando subirem ao palco do Centro Cultural São Paulo na noite de hoje para as quatro entradas do projeto Bicho de 4 Cabeças, o integrantes de Hurtmold, Metá Metá, Bixiga 70 e Rakta vão ter ensaiado juntos apenas na passagem de som. Os riscos são altos, mas se existem bandas hoje que podem fazer essa proposta inusitada dar certa são essas quatro.

O encontro, que saiu da cabeça do curador da programação musical do Centro Cultural Alexandre Matias, tem um formato curioso. Hoje serão quatro apresentações na Sala Adoniran Barbosa com todos os músicos reunidos, em quatro entradas diferentes. A cada entrada uma das bandas toma a frente e lidera a sessão de improvisação. Começa com Rakta às 19h, e segue com Metá Metá às 20h, Hurtmold às 21h e Bixiga 70 às 22h. Terminada cada sessão, a sala é esvaziada e o público, renovado. Durante todo o mês, o Centro Cultural programou shows individuais das bandas e de seus diversos projetos paralelos.

“Quando comecei a pensar no que fazer no já tradicional Mês da Cultura Independente, tive de pensar no que é ser independente hoje, nesse cenário em que todo mundo que faz música é, de alguma forma, independente”, disse Matias por telefone à Bravo!. “Daí pensei que, mais do que o rock ou o indie, ser independente tem a ver com uma questão da banda, de se juntar para fazer as coisas, do diálogo que acontece dentro desse ambiente de grupo”, completa.

Para entender se essa tese se sustenta na prática, a Bravo! conversou com integrantes das quatro bandas, buscando falar sobre três questões centrais: a dinâmica de grupo, como é viver na independência e como vêem a questão da improvisação em seus trabalhos. Ao todo foram quatro conversas ao vivo. Com a baixista do Rakta, Carla Boregas, no Centro Cultural São Paulo; com o tecladista e o sax bari do Bixiga 70, Maurício Fleury e Cuca Ferreira, num restaurante de PF em Perdizes; com a vocalista do Metá Metá Juçara Marçal no Sesc 24 de Maio e com o baterista do Hurtmold Maurício Takara no estúdio El Rocha.

Muito interessante ver que mesmo com trajetórias completamente diferentes, tanto esteticamente quanto de formação, há muita convergência na atuação como músicos e nas formas de enfrentar os desafios não só de ser músico em uma época em que a indústria ainda busca maneiras de se redesenhar como de enfrentar a crise que o Brasil atravessa e que impacta diretamente a cultura.

Parte da banda

“Sempre criei no coletivo”. A conversa com Juçara Marçal inicia pela sua trajetória musical. “Comecei cantando em coral, e se alguém depois de te ver falasse que te ouviu, você tinha feito tudo errado”, ri a cantora, que dos grupos de coral da USP, onde estudava, passou a integrar o conjunto vocal Vésper e A Barca antes de lançar seu disco solo ou de entrar para o Metá Metá.

“Sempre aprendo com a banda, mas acho que o período em que mais absorvi música e aprendi foi com as viagens pelo Brasil com a Barca. Conhecer todas aquelas pessoas, conhecer a música popular e folclórica dentro dos rituais foi transformador, completa a cantora, que diz ainda que foi a partir desses encontros e de se aprofundar nos sons do candomblé que começaram as bases do diálogo que entabula com Kiko Dinucci e Thiago França no Metá Metá.

Carla, do Rakta, também se formou em grupo. “Tive uma banda com 18 anos, tentei tocar bateria, mas não aprendi nem a tocar o bumbo. Aos 27 anos comprei um baixo e a Nat [Nathalia Viccari, baterista] me convidou para formar uma banda, que acabou virando o Rakta. Aprendi a tocar já na banda”, conta a baixista. “Sou muito do coletivo, gosto de pessoas, e tocar em banda é saber onde seu som pode entrar”, completa Boregas, que além do Rakta tem seu trabalho solo e o duo Fronte Violeta, com Analena.

Maurício Takara, que também vem de uma linhagem punk, tem banda de hardcore desde os 10 anos de idade e cresceu no estúdio El Rocha, aberto por seu pai quando tinha 15 anos, também vê no trabalho com a banda algo que amplia seus horizontes. “Quando comecei, ser independente era apenas existir como um grupo. O Hurtmold vai fazer 20 anos e é impressionante, porque muitas bandas duram 20 anos, mas a gente não perdeu nenhum integrante nesses anos, só ganhou uma a mais que é o Roger [Martins, que entrou na banda em 2003]”, diz.

“Quando vai fazer música num grupo, leva mais tempo, tem mais debate. Gosto muito de fazer música sozinho, mas me sinto privilegiado de ter essa experiência de banda viva”, diz o baterista, dando como exemplo a própria dinâmica do Hurtmold, que tem metade dos músicos mais aberta a improvisação e metade mais interessada em composição, em criar canções mais estruturadas.

Formado por dez integrantes que já tinham bastante estrada antes de formar a banda, o Bixiga 70 já se constituiu como um espaço democrático de troca de ideias. “A parte musical é sempre a parte fácil. O difícil é a parte de fora do palco”, diz o saxofonista Cuca Ferreira. “O grande feito mesmo foi conseguir fazer o negócio fluir pros dez. Não começou assim. Começou com ideias esparsas de um e de outro. Até fazer com que os dez se identificassem com os sons e com a ideias foi um processo muito difícil, demorou muito”, rebate o tecladista Maurício Fleury. “Tudo que a gente criou do terceiro disco para cá foi tocando junto”, completa Cuca.

Improvisação

Todas as bandas, ou pelos menos boa parte dos membros das bandas, usam em alguma medida a improvisação. Quando não no processo criativo, em suas projetos paralelos.

“Hoje no Bixiga a gente cria muito coletivamente. Se no começo alguém trazia um tema, hoje uma ideia pode partir de qualquer membro da banda. Uma música pode começar com uma levada de percussão”, diz Fleury, que lembra também que todos os músicos atuam em diferentes bandas e o próprio Bixiga 70 tem diversas colaborações, como a com João Donato, por exemplo. “O único risco da improvisação é quando fica legal só pro músico, não pra plateia” ri Cuca, que além do Bixiga 70 tem o projeto de improvisação livre Naaxtro.

Já Maurício Takara começou a se aproximar do mundo da improvisação há mais de 15 anos. “Quando eu comecei a descobrir o free jazz, fui passar um tempo em Nova York, antes do 11 de Setembro, vi muito show, foi uma coisa que começou a me pegar muito. Quando comecei a tocar com o [Rob]Mazurek e com o Thomas Roher, a improvisação ganhou uma importância bem forte na minha música”, diz. “Saindo só da questão musical, indo para um campo mais filosófico, toda essa coisa da arte passageira sem começo e fim necessariamente ganhou uma importância maior.”

Essa questão mais aberta da improvisação, que toca um certo lado mais metafísico, ecoa também no pensamento de Carla Boregas.“Improvisar é ouvir, é uma troca em que você consegue também trabalhar o campo da energia. Com a Paula [Rebellato, tecladista do Rakta] não é nem combinado, mas esse campo acontece naturalmente”, conta.

Já Juçara Marçal achava que até bem pouco tempo ela não saberia improvisar. “O Thiago [França] foi o primeiro que me convidou para um improviso livre, e disse: eu? Você tá louco?”, ri. “Descobri uma possibilidade que eu nunca tinha experimentado, desde então fiz o projeto Nós da Voz, que é de improviso livre mas tendo a voz como protagonista. Cada encontro, você descobre possibilidade suas e de perceber qual é o seu estilo, você percebe recorrências, porque é uma composição, embora instantânea, tanto de colocar vocal, quanto de construção de melodia.”

O que tanto Boregas quanto Marçal concordam é que essa é uma grande experiência de escuta. “Mais do que achar a sua voz, impor a sua visão, o importante na improvisação é ouvir, gosto de pensar em como eu contribuo com a conversa com a minha música”, resume a baixista do Rakta.

Independência

O que fica da conversa é que, se musicalmente a independência se faz a partir de muitos diálogos interdependentes, existe uma parte nada artística necessária para que a música viva que é comum a todos e representa o maior desafio. Talvez o ponto fora da curva seja Boregas.

“Desde a minha primeira banda, eu já abri um selo. Venho de uma história, de uma ética punk do ‘faça você mesmo’ e poder cuidar das minhas coisas com independência é superimportante. Claro que no Rakta a gente se divide, mas eu tenho um lado mascate”, diz a baixista, que tenta viver de música, mas também faz jóias e, quando a realidade aperta, faz frila de produção.

Embora seja uma das maiores cantoras do país e de trabalhar em diferentes projetos, Juçara dá aula e cuida junto com Kiko Dinucci e Thiago França do Metá Metá. “A gente não tem produtor. A gente discute os contratos, as turnês. Ninguém nos representa. Quando tem alguma coisa que tenha muita burocracia, a gente chama uma produtora para nos ajudar”, conta.

No Bixiga 70 funciona do mesmo jeito. “O bom de sermos dez é que dá pra revezar. Acho que todo ano um puxou a parte mais chata. Mas quando um cansa outro assume. Um fala com a imprensa, o outro vai vender os discos. E quando cansa, trocamos”, diz Maurício Fleury.

Takara também cuida da própria vida, além de lutar para manter aberto o El Rocha. “O momento político atrapalha. A gente tinha fila de espera para as pessoas produzirem discos no estúdio. Hoje rareou muito. Temos esse espaço incrível, mas não está fácil manter, mas tudo bem. Se precisarmos sair daqui, arrumamos uma casinha e dá tudo certo”, argumenta.

Esse otimismo também faz parte da independência, como diz com muita propriedade Carla Boregas: “Apesar de toda merda política que tá rolando, eu sinto que tem muita coisa interessante acontecendo em relação ao som, as pessoas está o se misturando, mesmo na música experimental, as diferentes vertentes estão se misturando.”

PROGRAMAÇÃO

dia 5/10
Bicho de Quatro Cabeças
quinta, a partir das 19h, conforme a ordem abaixo:
19h Rakta
20h Metá Metá
21h Hurtmold
22h Bixiga 70

dia 6/10
Acavernus/Carla Borega
sexta, às 21h (excepcionalmente no Espaço Mário Chamie — Praça das Bibliotecas)

dia 8/10
Rakta
domingo, às 18h

dia 13/10
A Espetacular Charanga do França
sexta, às 18h30

dia 14/10
Metá Metá
sábado, às 19h

dia 15/10
Anganga/MdM Duo
domingo, às 18h

dia 19/10
Décio & Held/Sambas do Absurdo
quinta, às 21h

dia 20/10
Atonito/Sambanzo
sexta, às 19h

dia 22/10
Kiko Dinucci/Plim
domingo, às 18h

dia 26/10
Naxxtro/Bode Holofonico
quinta, às 21h

dia 27/10
Corte/M. Takara
sexta, às 19h

dia 28/10
Hurtmold
sábado, às 19h

dia 29/10
Bixiga 70
domingo, às 18h