Cadernos de leituras

A lógica sub judice, o insólito e o humor de Manoel Carlos Karam

Por Carlos Castelo

CREDENCIAIS

Manoel Carlos Karam (1947–2007) nasceu em Rio do Sul, Santa Catarina. Passou a residir em Curitiba a partir de 1966. Era escritor, dramaturgo e jornalista. Escreveu e dirigiu 20 peças de teatro na década de 70 e, a partir dos anos 80, passou a dedicar-se aos livros, vencendo o prêmio Cruz e Souza de Literatura, da Fundação Catarinense de Cultura, em 1995. Seus romances mais divulgados (se é que dá para afirmar isto) são Fontes Murmurantes, O Impostor no Baile de Máscaras e Cebola.

CONEXÕES

Karam veio para botar a lógica sub judice. Para fazer gato e sapato dos raciocínios prontos, das frases feitas, do estabelecido frasal. Nesse sentido pode-se pegar um parágrafo do seu livro Encrenca (Ateliê Editorial), intercalar com um outro período de Algum Tempo Depois (Arte & Letra) que haverá uma conexão qualquer importante para quem se dispuser a fazer o experimento.

TRAMAS QUE SE ABREM E NÃO MAIS CICATRIZAM

Karam pode começar com uma prosa, que depois se torna uma peça de teatro, que se transforma em pequenos aforismos, quase epigramas, e voltam a ser prosa — sem nenhuma explicação formal. Mas para que explicação, ainda mais formal?

COMENDO BOLACHA MARIA NO DIA DE SÃO NUNCA

O alfaiate na porta da alfaiataria boceja para rua.

A vida, ela diz, apanhar, bater, regar as plantas.

Que coisa mais nojenta, e às cinco da tarde!

Solidão é não ter pra quem segurar a escada, diz.

Venha comigo, não gosto de perder o trem sozinho.

O incêndio?, siga a seta.

PARENTES LITERÁRIOS

Kafka, Monty Python, Vonnegut, Gonçalo M. Tavares, Beckett, Cortázar, Borges, Campos de Carvalho. O que há de comum neles é o insólito. O absurdo tem uma importância cabal para esses autores. E Karam não deixa nada a desejar a nenhum de seus primos literários.

DE UM POETA CURITIBANO

Karam foi amigo de um amigo meu, um poeta curitibano — que não revelarei o nome aqui. Disse-me o vate:

“Eu tinha 15 anos, pedi sugestões de livros para ele. Karam foi me levando pela rua, chegou a um chaveiro, fez cópia da chave da casa dele, me deu e falou: 'vá lá quando quiser e pegue na estante. Só não tire da ordem.'

“Karam Amava Borges, Cortázar, especialmente. Muito realismo fantástico. Tinha tudo de cinema. Muita coisa francesa e italiana. Amava Woody Allen. Lia muito roteiros de filmes. Cinema italiano, francês. Foi lá que eu pude conhecer o João Antônio, o José J. Veiga, o Sartre, o Camus. E um choque, os primeiros livros do Rubem Fonseca, os de contos.

“Outra coisa interessante é que o Karam fazia a coluna de humor mais popular da cidade, com pseudônimo Dartagnan. Misturava futebol, piadas, coisa lida por milhares, popular mesmo.”

PALAVRAS FINAIS, AFINAL

Karam morou a maior parte da vida em Curitiba. Logo, sempre que se fala dele, é preciso dizer que sua obra não tem nada a ver com a de Paulo Leminski. Nem com a do Vampiro Dalton Trevisan.

Feito isto, segue o baile.

Karam é para ler quando a gente quer sair da mesmice e entrar em forma. Em forma mental. Nunca leia-o quando estiver com vontade de relaxar. Karam não é um dorflex literário. Está mais para um estupefaciente orgânico, um provocador de humores.

Consuma-o sem moderação.