Cadernos de leituras

As economias de Lydia Davis e dos haicais tropicais

Por Carlos Castelo

Muita gente já deve conhecê-la, mas só fui apresentado a Lydia Davis recentemente.

Talvez nunca a conhecesse se eu não tivesse escrito uma resenha sobre a obra de Gonçalo M. Tavares na semana retrasada. Na pesquisa que promovi, o nome dela aparecia como uma autora “da família” do escritor angolano. Só que, no final das contas, não achei que ela fosse tão próxima dele assim. Serviu para tomar contato com seu originalíssimo material.

Lydia Davis, como repetem todas as suas mais recentes apresentações, de fato é muito difícil de ser rotulada. Se a chamarmos de poeta, estaremos deixando de fora seus belos e atilados aforismos. Se a qualificarmos como contista, perdemos a sua porção memorialista. Isto sem falar em certos tipos de texto de Lydia, que é natural de Massachussets, que são totalmente inclassificáveis. Como algumas anotações de sonhos e cartas enviadas a empresas e instituições de ensino que estão em vários de seus livros, como Nem Vem e Tipos de Perturbação (Companhia das Letras) e Fim da História (José Olympio).

Comecei a lê-la por Nem Vem e, depois de finalizá-lo, parti para Contos Completos (Relógio D’água). A conclusão foi a de que Lydia pode ter um estilo, de fato, inclassificável, mas é uma mestra em classificar sensações, idiossincrasias e coisas. Sim, coisas (não achei um termo melhor) que vemos 24 horas por dia e nos passam batido. Em seus relatos, quase sempre concisos, uma lata de ervilha ou um sanduíche de queijo suíço com tomate podem adquirir um protagonismo gigantesco.

Dentre essas pérolas mínimas do “estilo-seja-lá-o-que-for”, destaco o texto Nem Vem:

“Há pouco tempo deixei de ganhar um prêmio literário porque, segundo eles, sou preguiçosa. O que queriam dizer com preguiçosa é que sou muito econômica. Por exemplo: nunca escrevo por inteiro a expressão “não vem que não tem”, abreviando, em vez disso, para “nem vem”.

Como disse o poeta italiano Giosuè Carducci: “é um tolo aquele que, podendo dizer uma coisa em dez palavras, usa 20”.

Haicas Tropicais

Insistindo na brevidade, acabei de ler Haicais Tropicais (Companhia das Letras). Trata-se de uma bem cuidada antologia de tercetos poéticos produzidos por nomes como Manoel de Barros, Mário Quintana, Paulo Mendes Campos e muitos outros bambas da síntese. Como reza a tradição antropofágica de Pindorama, engolimos, deglutimos e trouxemos à luz algo com o tempero dos Trópicos. Bashô, com certeza, curtiria.