Cadernos de leituras

Acendam as luzes, eu não quero ir para casa no escuro: as últimas palavras e o mundo de O.Henry

Por Carlos Castelo

Se tem um escritor que merece vários Cadernos de Leituras é William Sydney Porter (1862–1910) — vulgo O. Henry.

Travei conhecimento com o autor da Carolina do Norte por meio do livro Achei que meu Pai fosse Deus e outras Histórias Verdadeiras da Vida Americana, organizado por Paul Auster.

São centenas de relatos de homens e mulheres comuns. Num deles, chamado O Manuscrito Encontrado no Sótão, um dos anônimos narradores revela que seu pai, um jornalista, certa feita encontrou um original empoeirado de O.Henry jogado no sótão de casa. Dias depois vendeu-o a um colecionador e, com o valor obtido, ajudou a salvar a vida de um colega, vitimado por uma grave enfermidade e que não possuía recursos para ser tratado.

Li a breve exposição em 2005 e, desde então, passei a fuçar tudo sobre O. Henry. Até mesmo em águas-furtadas. Pena que exista tão pouco material dele e sobre ele no Brasil. Consegui um The Complete Works of O.Henry (Garden City Publishing Co.) e, se fosse editor ou tivesse recursos próprios, já o teria traduzido inteirinho e jogado na mão do mercado. Seria justo. Muito possivelmente, sem O. Henry não teríamos nomes como John Cheever, Jack Kerouac, nem o novo jornalismo de Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer e Truman Capote. É a natureza de suas histórias — em especial as ambientadas em Nova York — ,aquela crueza mesclada a humor e lirismo, o que molda a prosa de seus descendentes mais diretos.

Na Nova York do início do século 20, um lugar-comum dizia serem 400 as pessoas que realmente importavam na cidade. Ao publicar sua segunda coletânea de contos, em 1906, O. Henry fez constar uma nota de abertura em que dizia preferir acreditar no responsável pelo censo, que estimava a quantidade de almas locais em 4 milhões. Nascia The Four Million, considerado um de seus melhores livros.

Garçons, vendedoras de lojas de departamentos, mendigos, malandros, casais enamorados, casais cansados, velhos, jovens, nenhum tipo novaiorquino ficou de fora de sua lente.

Salvou a pátria recentemente a editora Carambaia colocando à disposição dos leitores brasileiros uma lindíssima edição — como sempre — de 19 contos, presentes em The Four Million, traduzidos por Jayme da Costa Pinto.

A propósito, tenho uma teoria sobre a mirrada presença de O.Henry por aqui. O poeta e crítico José Paulo Paes atestava numa antiga apresentação de contos de Will Porter que este abusava de uma técnica mais ou menos nova naquela época: o conto de “twist”, ou de final inesperado.

“Ao contrário do público, que a aceitou deliciado, a crítica sempre torceu o nariz ante a frequência abusiva com que ele usou a fórmula: um crítico de nossos dias chega mesmo a acusá-lo de ter abastardado em vulgar estratagema mecânico o formalismo bem urdido dos contos de Edgar Allan Poe e Ambrose Bierce.”

Apesar de muito respeitar Paes e suas embasadas opiniões, fico ao lado do público deliciado. Com ou sem “twist”, O.Henry lançou luz sobre a literatura universal falando de seu quintal. E foi coerente com isto até em suas últimas palavras:

“Acendam as luzes, eu não quero ir para casa no escuro”.

LIVROS DOADOS / COMPRADOS + Achei Que Meu Pai Fosse Deus E Outras Histórias Verdadeiras Da Vida Americana, organizado por Paul Auster (Companhia das Letras) + A Última Folha E Outros Contos, O.Henry (Hedra) + Ardil 22, Joseph Heller (BestBolso) + Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter (Ubu Editora).

LIVROS LIDOS + O. Henry. Contos (Carambaia).

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