Cadernos de leituras

Analfabesta, Bostífero, Equídnico: alguns dos 500 insultos listados pelo português Sérgio Luís de Carvalho

Por Carlos Castelo

Insultar é uma forma de arte? Para muitos é, e com razão.

Querem um exemplo? Na década de 60, o deputado Carlos Lacerda acabara de discursar no Parlamento. Então um seu opositor, teria comentado:

“Excelência, todo o seu discurso foi inútil. Entrou-me por um ouvido e saiu pelo outro.”

Lacerda devolveu:

“Impossível, caro colega. O som não se propaga no vácuo.”

É esse tipo de tema que trata o delicioso livro do autor português Sérgio Luís de Carvalho, Dicionário de Insultos — A Estranha Origem e a Bizarra História dos Insultos Portugueses (Planeta). Quem o tiver em mãos, contará com a descrição, origem e a história de 500 insultos de que alguns de nós até já fomos alvo na vida.

Carvalho nos explica que a origem da palavra insulto e da palavra assalto é quase igual: insultare, em latim, significa "saltar para cima". Insulto então é um assalto feito à honra e à dignidade de alguém.

Napoleão costumava dizer que Talleyrand, um de seus ministros, era uma bosta dentro de uma luva de seda.

Talvez por causa de assaltos à fama desse naipe é que insultar, de um modo inteligente, para muitos virou grande arte.

Aqui em Pindorama já tivemos o nosso Dicionário Brasileiro de Insultos (Ateliê), escrito por Altair J. Aranha. Mas, como tudo que é bom por aqui logo se finda, encontra-se esgotado e a preços estratosféricos pelos alfarrábios virtuais.

Fruto da curiosidade e de anos de pesquisa, a obra trazia o significado de mais de 3 mil verbetes ofensivos de todas as regiões do país. Altair J. Aranha começou cedo a pesquisar em dicionários e expressões populares, especialmente as mais obscuras.

Como ele explicava, no prefácio: “o insulto pouco conhecido mostrava-se duplamente contundente; de alguma forma qualificava negativamente e, ainda, acrescentava, implicitamente, uma outra ofensa; ignorante”.

Alguns dos meus favoritos dos dois livros são:

Alarve: designativo de pessoa reles ou boçal.

O termo radica no árabe al-garb, que significa "o Ocidente". Desta palavra surgirá o nosso Algarve (o al-garb al-andalus dos árabes, ou seja, o Ocidente do Andaluz).

Alticornígero: o que tem chifres muito altos, cornudo óbvio.

Analfabesta: É um tipo particular de iletrado ignorante e boçal, mas orgulhoso da sua bruta condição…Há misturas lexicais certeiras, pois este insulto é muito apropriado para aqueles que, sendo rudes e brutos, se ufanam de o ser. Cuidado com eles quando estão em cargos de poder. Tem uma variante em analfabruto e pelos mesmos motivos.

Bostífero: Indivíduo cujas palavras e ações são ordinárias, reles, desprezíveis. O sufixo latino fero-ferre — designa “que produz ou transporta". Pode-se dizer, também, merdífero.

Equídnico: próprio de víbora, venenoso. É um insulto erudito, sofisticado. Échdina, em grego, é serpente.

Finalizo concitando a Ateliê Editorial a lançar logo uma segunda edição ampliada do livro original, retirado do forno em 2002. Senão seremos obrigados a insultá-los…