Cadernos de leituras

Uma viagem ao Piauí e ao Maranhão e os "homens ilustres" de James Agee e Walker Evans após a Depressão norte-americana

Floyd Burroughs e seus Filhos (1936), foto de Walker Evans

Por Carlos Castelo

Em 1979, ainda não tínhamos nem 20 anos. Em fevereiro daquele ano, o fotógrafo Walter Moraes e eu nos aboletamos num semileito da Itapemirim e fomos tentar registrar o que seriam os fundões do Piauí e Maranhão. A escolha dos dois estados se deu porque eu tinha parentes nas cidades de Teresina, Floriano e Nova Iorque (do Maranhão). E por isso seria mais fácil conhecer as particularidades do Homem do Meio Norte. De mais a mais, para dois jovens, havia a promessa do Carnaval, mito que sempre nos encantou desde sempre.

Partimos no velho coletivo pela via Dutra. Fora a duplinha de estudantes de jornalismo, não devia haver mais do que cinco almas sacolejando dentro do busão: na ida ao Nordeste, os carros iam vazios; na direção do Sudeste lotavam.

Após rodar uns 30 quilômetros na Dutra, o motorista pegou uma estrada de terra. Estranhamos. Pelas nossas contas, o trecho carroçável só começava bem depois de Belo Jardim, em Pernambuco. Passados alguns minutos, o homem estacionou o carro defronte a uma tapera. Antes de descer dirigiu-se a todos dizendo:

– Vou almoçar com a família. Servidos a pegar um rancho com a gente?

Foi o primeiro ensinamento que registrei. Se você tem uma longa viagem pela frente, os padrões de tempo são outros. Dali até o Piauí seriam 52 horas, viajando noite e dia. Um almoço a mais ou a menos com a prole não alteraria os fins.

Ensinamentos como este devem ter surgido a mancheias ao escritor James Agee e ao fotógrafo Walker Evans quando, em 1936, passaram semanas com lavradores pobres do Alabama para um reportagem sobre os efeitos da Grande Depressão. A matéria — como a nossa — acabou nunca saindo na revista que a encomendou, mas trouxe à luz o clássico do jornalismo literário Elogiemos os Homens Ilustres (Companhia das Letras), que foi a minha leitura da quinzena.

O livro já impressiona pela sequência de fotos na abertura. Evans retrata, através de portraits e objetos cotidianos quase em close, o que virá a seguir no relato de Agee: crueza, impressionismo poético e sensibilidade que erigiram o melhor do jornalismo investigativo norte-americano.

Um pequeno trecho:

“O máximo que Gudger ganhou na vida foi 125 dólares. Isso foi no ano em que arou a terra pela primeira vez. Ele se sentiu extremamente esperançoso e comprou uma mula: mas quando seu senhorio o advertiu de como seria o ano seguinte, ele a vendeu. Na maioria dos anos ele não ganhou mais que 25 a trinta dólares; e em talvez um em cada três anos ele terminou em dívida.”

Quando voltamos do Piauí para São Paulo, vimos o filme Bye Bye, Brasil, de Cacá Diegues. Foi como assistir nosso périplo de um ponto de vista lúdico. Dali para frente, o país nunca mais foi o mesmo. A última ficha caiu. E eu penso nisso night and day, até porque não ficou nada okay.