Cadernos de leituras

Sobre o direito de largar no meio obras chatas e ruins, ou de saltar de livro em livro, sem dor na consciência

Daniel Pennac, o homem dos direitos do leitores

Por Carlos Castelo

Uma vez soube pela coluna do jornalista Paulo Francis, na Folha de S.Paulo, que ele não assistia a um filme ruim até o fim. Para Francis, a vida era muito curta para perder tempo com obras de baixa qualidade. Tentei copiar o sábio plumitivo. Comecei a ver Querelle, do Rainer Werner Fassbinder, e mesmo após presenciar sete cenas de estupro masculino seguidas não consegui abandonar a sala de cinema por culpa de perder o final.

Só recentemente adotei a prática de desapegar de livros, filmes, séries, exposições e peças chatas. Foi ao tomar contato com o Os Direitos Inalienáveis do Leitor, de Daniel Pennac. Divido-os com vocês. Creio que podem mudar a vida de qualquer leitor culpado como eu era.

1. O direito de não ler.

2. O direito de saltar páginas.

3. O direito de não acabar um livro.

4. O direito de reler.

5. O direito de ler não importa o quê.

6. O direito de amar os “heróis” dos romances.

7. O direito de ler não importa onde.

8. O direito de saltar de livro em livro.

9. O direito de ler em voz alta.

10. O direito de não falar do que se leu.

Mencionei o decálogo de Pennac porque seus artigos terceiro e oitavo possibilitaram muitas coisas em minha vida, entre elas escrever as mal traçadas linhas desta coluna. Ou você acha que leio cinco, seis livros por semana?

Seria impossível até para o Stephen Hawking. Da quinzena passada até agora, por exemplo, interrompi a leitura de Locus Solus, de Raymond Roussel, mencionado aqui, para finalizar Azul Quase Transparente, de Ryu Murakami. Não porque Locus Solus fosse loucamente ruim, muito pelo contrário. É que até mesmo o insinuante universo surreal de Roussel não me tirava da cabeça a narrativa de sangue, sexo, drogas e rock’n’roll do autor japonês.

Para mim, Murakami é até mesmo leitura mais obrigatória que o Nobel de Literatura 2017, Kazuo Ishiguro. Pela limpidez, crueza e simplicidade com que faz horrorizar-mo-nos (nunca mais escreverei uma mesóclise como antes do período Temer ) com a inútil existência daqueles rapazes e moças viciados em heroína e Nibrole nos anos The Doors em Tóquio.

Em menos de 150 páginas, Azul Quase Transparente faz um estrago, à la Hiroshima e Nagasaki, em qualquer sensibilidade, até nas mais pequeno- burguesas.

A única coisa aborrecida no livro é que só é encontrável, e olhe lá, em sebos. A edição que tenho é da Brasiliense, Cantadas Literárias, do tempo em que o Caio Fernando Abreu era um adolescente espinhento.

No fundo sei que ainda voltarei a Locus Solus. O considerável trecho que consegui absorver era fantástico — ao pé da letra. Mas prevejo que isso só acontecerá quando terminar as 40 Novelas e O Finado Mattia Pascal (de Luigi Pirandello) que a Companhia das Letras e a Nova Alexandria me mandaram. Fui trair Ryu Murakami e Raymond Roussel lendo o conto Limões da Sicília do dramaturgo da Bota e agora preciso ficar pulando de um livro para o outro.

Ainda bem que Daniel Pennac me perdoa.

LIVROS DOADOS + 40 Novelas de Luigi Pirandello (Companhia das Letras) + O Finado Mattia Pascal, Luigi Pirandello (Nova Alexandria) + Locus Solus, Raymond Roussel (Cultura e Barbárie)

LIVROS LIDOS + Azul Quase Transparente, Ruy Murakami (Brasiliense)

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