Cadernos de leituras

O senso de justiça e de ética dos "Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos", dos irmãos Grimm

Ilustração para "João e Maria", de Arthur Rackham (1909)

Por Carlos Castelo

Que livro existe praticamente em todos os países do mundo, representando, em 2019, o primeiro lugar entre as obras alemãs mais traduzidas, suplantando o Manifesto Comunista (1848) de Marx e Engels, e com importância para a cultura alemã no mesmo nível da Bíblia de Lutero e do Fausto de J.W. Goethe? Acertou quem respondeu Os Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos, de Jacob & Wilhelm, os inesquecíveis irmãos Grimm.

O título da coletânea, traduzida deste modo por Christine Röhrig, preserva a intenção de seus autores de se apartarem dos “contos de fadas e da carochinha (em alemão, Mårchen) e serem vistos como recolhedores de Kinder-und Hausmärchen, justamente os contos maravilhosos infantis e domésticos, aqueles que estão mais perto da “poesia da Natureza” — que Jacob Grimm acreditava serem as narrativas coletadas na região do Hesse (onde hoje fica Frankfurt).

São muitas as histórias, em sua versão “primordial”, que encontramos no livro da Editora 34: O Rei Sapo ou o Henrique de Ferro, A Gata Borralheira, Branca de Neve, O Amado Rolando, Serve-te, Mesinha, A Senhora Holle, O Pescador e sua Mulher e tantos outros clássicos. Detalhe importante: todas embaladas numa edição tão maravilhosa quanto os contos, num projeto gráfico diferenciado de Raul Loureiro.

As versões da tradução brasileira são as de 1812 a 1815. O que significa algo literariamente muito positivo. Por exemplo, na edição de 1812, Rapunzel diz à fada: “sabe, senhora Gothel, as minhas roupas estão tão apertadas que não estão querendo mais servir em mim”. Isso acontece após ela ter recebido secretamente inúmeras visitas do príncipe, que subia à torre usando as suas tranças como elevador. Na edição de 1819 já é diferente. Os Grimm editam, por autocensura, as versões orais que coletaram e substituem a notória gravidez da heroína por algo mais "politicamente correto" para a época.

A maioria dos contos da dupla alemã retrata crianças, animais, ou jovens em situação de fragilidade diante de terríveis fatalidades, representadas por bruxas, ogros, adultos cruéis e desnaturados. No fim, prevalece a justiça e a ética.

Só por isso já seria altamente recomendável reler os irmãos Grimm nos dias de hoje. Reler porque, se não consumimos nós mesmos seus relatos, certamente uma mãe, um pai ou uma avó já nos contou alguns deles. No Brasil, com todos os seus animais mitológicos e bestas antiéticas, diria-se que a leitura é obrigatória. Pena que o “era uma vez”, para nós, não se desenrola numa época remota, mas no presente do indicativo.