Cadernos de leituras

Entre as leituras das férias, as distopias de António Ladeira e uma coletânea de Luis Fernando Verissimo

Foto: Cris j Duncan

Por Carlos Castelo

Gente que escreve sobre livros não tira férias, continua lendo. Para os padrões atuais (ah, a concorrência com os apps de celular e entretantos), é quase impossível compreender os que leem tanto assim. Contudo, os amantes das palavrinhas, mesmo entrincheirados, sempre seguirão firmes e fortes em sua paixão pela literatura.

Durante meu recesso, li um pouco de tudo, como sempre faço. No entanto, algumas obras chamaram mais a minha atenção. Foi o caso do livro de contos Estás Livre no Sábado? (Realejo), do português António Ladeira. São narrativas intrigantes até na hora da definição do seu gênero. Seriam ficção científica? Seriam textos aziagos e cínicos sobre a contemporaneidade? Ou simplesmente uma reflexão bem humorada sobre como poderemos vir a ser num futuro próximo?

Talvez Ladeira tenha conseguido fazer um belo mix de todas essas possibilidades. Seus contos horrorizam e fazem rir; promovem reflexões, mas não levam a nenhuma resposta concreta.

Mas uma coisa é certa: a influência de George Orwell, em especial do de 1984, é bastante presente no livro. Ecos de Philip K. Dick e Ray Bradbury também podem ser sentidos na prosa do autor.

O conto Os Monociclistas me deixou muitas lembranças, mesmo depois de um bom tempo da leitura. O seu primeiro parágrafo:

"Lembro-me da avenida sem o zumbido dos monociclistas. De passear o meu cão Golias. (Que saudades do Golias!) De estar sozinho na esplanada, de ter medo do futuro. Por vezes, o meu irmão Marcel vinha fazer-me companhia. Hoje tudo mudou. Mudou para melhor, José. Já não tenho medo. Já não existe a esplanada. O meu irmão ainda é vivo. Sei exactamente onde o encontraria se o quisesse procurar…"

A partir daí um sem-número de situações quase delirantes sucedem-se. E o mais terrível é que, olhando para o nosso mundinho de 2019, concluímos que, logo ali, em 2045, elas poderão estar acontecendo no dia a dia.

A conclusão deste e de muitos contos de Estás Livre no Sábado? quem poderia responder era o também feérico Ray Bradbury:

"Temos demasiados telefones celulares. Temos demasiadas internets. É preciso livrarmo-nos das máquinas."

Ironias do tempo

Nos anos 1990, Isabel Falcão se correspondia com seu ídolo Luis Fernando Verissimo. Ela no Rio, ele em Porto Alegre. Já Adriana Falcão, nas últimas duas décadas trabalhou com o escritor e sua filha Mariana na confecção de roteiros de TV e cinema. Ninguém mais adequado que as duas para compor a coletânea Ironias do Tempo (Companhia das Letras) com o melhor de LFV. Aliás, lançar um livro com o melhor dele nem seria tão difícil assim — afinal, tudo o que o gaúcho toca vira pérola. O que Isabel e Adriana trouxeram à luz, no entanto, vai além. Trata-se de uma leitura muito particular do inventor do O Analista de Bagé: as ironias do tempo registradas pelos olhos de Verissimo. Já devo ter lido praticamente toda a obra do Luis Fernando (que é como me dirijo a ele quando mando-lhe um e-mail), mas a seleção de Isabel e Adriana Falcão me surpreendeu, divertiu e emocionou. Bingo!