Cadernos de leituras

Uma antologia de quase dois séculos do humor russo e o espantoso de Cássio Zanatta

Por Carlos Castelo

Nesta quinzena, excepcionalmente, li alguns lançamentos.

Um deles foi a Antologia do Humor Russo (1832–2014), da Editora 34. É um verdadeiro tour-de-force, a exemplo do que a editora já havia feito na Antologia do Conto Russo, com um sem-número de tradutores trabalhando em cima de textos originais.

O material abre com um conto de Gógol, de 1832, e encerra-se no contemporâneo Mikhail Véller, de 2014. Entre outros russos que praticaram o cômico no período estão Tchekhov, Zamiátin, Kharms, Maiakóvski, Býkov, Sorókin. Ou seja, a fina flor da terra de Vladimir Putin. Isso sem falar nos autores que nunca foram traduzidos para o português.

As surpresas são muitas e grandes. A começar dos tipos de narrativas: há desde pequenos relatos de um parágrafo até (quase) novelas. Depois, podemos notar, mesmo em contos do século 19, que os russos já produziam histórias insólitas, de um nonsense à la Franz Kafka.

Entre elas está O Órgãozinho, de Mikhail Ievgráfovitch Saltikov-Schedrin, composto em 1870. Nele, um estranho político de uma localidade por nome Tolóvia (provavelmente originário de tolice) passa a irritar a população com suas histrionices e termina por viver um desfecho bizarro — não, não darei spoiler — digno de uma peça de Ionesco.

Também chama a atenção A Ofensa, de Aleksandr Kuprin, datada de 1906. A história ressalta, de modo hilário, os pontos de vista de uma espécie de sindicato de ladrões “honrados”. Em um teatro privado, no foyer, era concluída a jornada ordinária de uma pequena comissão de advogados locais, que se propusera a defender, sem custos, a causa dos moradores que haviam sofrido com o último pogrom contra os judeus. No meio da função entram os tais larápios e um deles, um tipo de orador, defende a atividade profissional dos criminosos assim:

“Há, porém, o aspecto filosófico, econômico e social da questão.

Embora não queira abusar de sua atenção, devo, no entanto, declarar que a nossa ocupação se aproxima sobremodo daquele conceito que se chama de arte, porque nela entram todos os elementos que compõem a arte: a vocação, a inspiração, a fantasia, o engenho, a ambição e um longo e árduo noviciado científico.”

A Antologia do Conto Russo, com organização de Arlete Cavaliere, está à venda exclusivamente na Livraria da Vila.

Nepotismo do bem

Cássio Zanatta é meu amigo há séculos. E é um dos grandes redatores da nossa Publicidade. De uns tempos pra cá, ele vem se dedicando também à redação de crônicas. Lançou agora seu segundo livro, O Espantoso Nisso Tudo (Realejo).

Como bem diz Adriana Falcão na apresentação da obra, é um livro que nos deixa emocionados. É fato, Zanatta tem o raro dom de tirar sentimentos inusitados até de uma pedra rolante. Nisso está de acordo com uma das melhores definições de arte: transformar o ordinário em extraordinário.

Leia e não se comova, se for capaz.