Cadernos de leituras

A mundo da malandragem na Broadway e a narrativa sem enfeites de Damon Runyon

Por Carlos Castelo

“Fume Ary, cheire Vinícius. Beba Nelson Cavaquinho”.

Os versos são de nosso letrista soberano Chico Buarque de Hollanda e os tomo emprestados para falar de preferências literárias. Essas especificidades são quase como drogas que se fumam, cheiram e bebem pela aí. Existem autores que “batem” em nós e outros não. O mesmo Guimarães Rosa que me faz viajar pode ser que lhe faça sentir-se entediado; o James Joyce que pilha os seus nervos me enche os picuás com sua retórica.

Digo isto, em forma de nariz de cera, porque nessa quinzena li o livro de um escritor do qual nunca tinha sequer ouvido falar. E não é que o cidadão me deixou, para continuar lançando mão da analogia com os estupefacientes, totalmente cabeçudo. Não por eventuais malabarismos estilísticos ou devaneios semióticos, mas até pela ausência deles. Estou falando de Damon Runyon e de sua obra Eles e Elas — Contos da Broadway (Carambaia). O também jornalista norte-americano, da área dos Esportes, possui uma maneira de narrar que foi de encontro às minhas preferências como o parachoque de caminhão desgovernado a um poste.

O cenário é a Nova York daqueles anos do célebre fotógrafo Arthur “Weegee” Fellig. E o narrador dos contos — sem dúvida o próprio Runyon — tinha entre seus colegas de copo e de cruz nada mais, nada menos, que Al Capone. E assim ele vai desfilando a história co-vivida com esses gângsteres por nome Harry the Horse, Sleepout Sam Levinsky, Lone Louie, Nick the Greek, Big Nig, Gray John, Okay Okun. Todos eles armando alguma em casas de apostas ou bodegas como Ikey the Pig, Nick Detroit ou Mindy’s.

Para deixar mais claro a pegada urbana e franca, fiquem com um trechinho da apresentação do tradutor Jayme da Costa Pinto:

“O que Runyon faz com o tempo verbal equivale a uma depuração extrema da língua, que fica reduzida à sua forma mais básica — o que não significa mais simples; pelo contrário, ao atingir esse nível de pureza quase agramatical da linguagem, o autor cria a base em que essa falta de estrutura temporal sustenta ações congeladas num presente eterno. A linguagem urbana da prosa de Runyon transita por esse presente na forma de fragmentos, frases juntadas como peças de um jogo infantil ou como o discurso truncado de imigrantes…Runyon oferece ao leitor um relato parcelado, mas não primitivo, dos acontecimentos à medida que eles se desenrolam. A ênfase recai, antes, sobre o aqui e o agora, sobre a comunicação direta e reta… É uma forma literária que busca dar expressão a certo esgarçamento social específico da vida nas grandes cidades do século XX”.

Moral: se a leitura é uma descoberta, acabei de encontrar um pequeno tesouro da linguagem.