Cadernos de leituras
A poesia de Bertolt Brecht e a desumanidade das cidades

Por Carlos Castelo
Bertolt Brecht ficou datado? Ou pior, estaria sendo demonizado por ser um autor engajado? Enquanto polariza-se em tornos de tais questões, perde-se a oportunidade de fruir as ideias brechtianas — e não me refiro apenas a seu universal conceito de distanciamento. Há incontáveis outras facetas na obra do mestre germânico, entre elas a sua — pouca mencionada — vocação para a poesia. Foi o que pude ler em Poemas — 1913–1956 (Editora 34). Trata-se de uma alentada coletânea com 260 poemas composta de baladas, sátiras, canções de amor, versos para crianças, exortações à luta, louvações e elegias.
Um dos temas que mais chama atenção é o da grande cidade. Ainda muito jovem, Brecht ficou impressionado com Munique e Berlim. Impressionado não em especial com a grandiosidade dos espaços, mas com a desumanidade em que seus habitantes estavam metidos.
Walter Benjamin, mais tarde, diria que Bertolt Brecht “é, talvez, o primeiro grande poeta que tem algo a dizer a respeito do homem urbano”. E, como dramaturgo, não nos olvidemos, ele criou a peça Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny, certamente por querer entender que tipo de pessoa habitava aqueles desvãos inóspitos e insalubres. O poema Ó Falladah, aí estás Pendurado! (*), de 1913, revela, de forma muito clara e plástica, como era viver (ou sobreviver) por aqueles cantões urbanos da Alemanha:
Puxando minha carroça, apesar da fraqueza
Cheguei até a Alameda Frankfurt.
Lá pensei: Oh, Jesus
Essa fraqueza! Se não me cuido
Pode acontecer que eu acabe na sarjeta.
Dez minutos depois restavam apenas os meus ossos na rua.
Mal acabara de cair, no chão o pescoço
(O cocheiro criou asas)
Já saíam correndo das casas
Pessoas famintas; um pedaço de carne queriam obter
Com facas arrancaram-me a carne do osso
E eu que ainda vivia, não havia terminado de morrer!
Mas eu os conhecia de antes, o povo!
Sacos para me proteger das moscas me traziam
Davam-me pão de ontem, e ao cocheiro diziam
Que me tratasse bem, davam-lhe conselhos.
Antes tão amigáveis, tão hostis hoje!
De repente assim mudados! Ah, o que aconteceu com eles?
Então me perguntei: Que frieza
Deve ter se apossado dessa gente!
Quem os trata tão malevolente
Que cada um se torne assim desprezível?
Ajudem-nos, portanto! E o façam com presteza!
Senão lhes acontecerá algo que os senhores não julgam possível!
(*) Falladah é uma referência a um cavalo de um conto de Grimm.
A lírica de Brecht sobre a urbe é apenas um de seus muitos trunfos. O poeta praticamente transitou por todos os gêneros. Sem falar em suas parcerias no teatro com o músico Kurt Weill. Mas aí já é pauta para outra coluna.

