Cadernos de leituras

Pequenas editoras, de extremo apuro e bom gosto, povoam as estantes dos leitores com poesia digna de nota alta

Hilda Machado

Por Carlos Castelo

Gostaria de ser um filósofo acadêmico, pós-doutorado, e não um livre-pensador-prático para construir uma teoria sobre o que vem acontecendo nas letras brasileiros. Contudo, mesmo correndo o risco de passar vergonha em público, vou arriscar alguns palpites. As grandes editoras estão apostando, como nunca, em lançamentos de nomes de fora. Especialmente na área de ficção. Vão lá, às feiras de Frankfurt da vida, compram mancheias de escribas promissores, traduzem e lançam na Botocúndia. Fica bem mais em conta do que ler e analisar centenas de originais e o risco é menor.

Por outro lado há a poesia. Sempre Ela nos salvando nos momentos mais obscuros. Confesso que poucas vezes vi, talvez apenas nos anos 1970, com o fenômeno “poesia marginal”, algo semelhante ao que brota hoje. Pequenas editoras, de extremo apuro e bom gosto, espalhadas por diversos estados da federação, povoam as estantes dos leitores com material digno de nota alta.

Temos Patuá, Urutau, Ubu, Todavia, Carambaia, Noir e uma fileira de outras fazendo o papel que as grandes deveriam estar cumprindo. Leio, no momento, alguns livros de poesia simultaneamente, de casas editoriais pequenas, médias e grandes, já que o que importa é trazer versos à luz.

O primeiro é Nuvens, de Hilda Machado. Um grande achado do poeta Ricardo Domeneck e da Editora 34. Em vida, essa poeta-cineasta publicou apenas dois poemas em revistas literárias. Deixou, porém, essa obra, organizada por ela mesma e inédita até 2018.

A poesia de Hilda Machado é sarcástica, auto-depreciativa e, talvez pela sua formação audiovisual, lembra, por vezes, um croma-key feito de palavras. Como neste trecho de Um Homem no Chão da Minha Sala:

O homem no chão da minha sala

cidades de ouro

castelos de mel

velhas metáforas

sinos línguas gelatina

O céu no chão da minha sala

Aprecio também Fotografia & Poesia (afinidades eletivas), de Adolfo Montejo Navas (Ubu). Nele, Navas propõe paralelos luminosos entre as duas artes. Para tanto vai lançando mão de inúmeras ferramentas argumentativas. Entre elas, o imagético poema Em Uma Estação de Metrô, de Ezra Pound:

A aparição destas faces na multidão; Pétalas num úmido, negro ramo.

Conta-se que Pound, em 1911, ao descer do metrô em Paris, viu, num flash, um lindo rosto. E outro, e mais outro. Dias após o episódio tentou exprimir o significado que aquilo tivera para ele. Certa noite conseguiu, ao lembrar a cena como inusitados borrões coloridos. Nos versos de um quase haicai, a imagem vira pétalas de flores num ramo. Eis aí mais uma afinidade espontânea entre foto e poesia: “uma eternização móvel e viva dos momentos intensos” — defende Navas citando o poeta Carlos Riba.

Finalmente venho ainda mergulhando na soberba edição de Primeiro Caderno do Alumno de Poesia Oswald de Andrade (Companhia das Letras).

Trata-se de um fac-símile do original, lançado em 1927. Como bem observa na apresentação Manuel da Costa Pinto, em Caderno do Alumno…, “o amoralismo eufórico de quem faz pilhéria com aquilo que é socialmente condenado e que, sendo vazado no modo da piada infantil, acaba por neutralizar a censura”.

Apenas por tal procedimento, a obra já poderia ser considerada seminal. Mas ainda é a mãe do poema-piada (que se espraiou em nomes como Juó Bananére, Glauco Mattoso, Millôr, José Paulo Paes e Bith) e o pai de muitos procedimentos sistematizados pela poesia concreta.

Se nada disso o anima a ler Oswald de Andrade em seu auge trocista, veja só as figuras do fac-símile. São da Tarsila do Amaral.

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