Cadernos de leituras

Os caminhos tortuosos para conseguir — quem sabe um dia — ler "Ulysses", de James Joyce

Bravo!
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Jun 18 · 3 min read

Por Carlos Castelo

Quando completei 18 anos tirei a CNH e decidi que leria Ulysses, de James Joyce. A CNH continua comigo até hoje, já a obra máxima do “gênio incompreendido”, bem, essa promessa ainda não cumpri.

Quando peguei a edição de capa dura preta do Círculo do Livro, em tradução de Antônio Houaiss, julguei que tiraria de letra. No entanto, mesmo com toda a minúcia que imprimi à leitura, só consegui vencer pouco mais de 100 páginas. Como todo bom palrador, comentava sobre J. J. com os contemporâneos da facul como se fosse amicíssimo da família irlandesa Joyce. Mas era apenas o clássico binômio arrogância/insegurança da juventude.

Anos depois, já um pouco mais amadurecido, dei com a tradução de Bernardina Pinheiro. Dizia a fortuna crítica que se tratava de uma versão mais coloquial e acessível aos mortais que a de Houaiss. Mesmo assim, decidi dessa vez me fortalecer um pouco mais. Fiz uma leitura prévia de Hamlet, Tristão e Isolda e de Um Retrato do Artista quando Jovem. Sem falar num Joyce Annotated, de Don Gifford, que trouxe de um sebo londrino para me servir de guia michelin nas andanças de Leopold Bloom e Stephen Dedalus.

Apesar de contar com todo esse aparato, novamente dei com os burros n’água. Quando a linguagem mais realista foi dando lugar a pastiches, paródias e zoações com a própria narrativa me dei por vencido: Ulysses definitivamente não era para mim.

Até eu descobrir a tradução de Caetano W. Galindo. Por que não tentar mais uma vez? Um homem mais rodado não precisa ter medo do ridículo, nem do fracasso. Apesar de crer na afirmação, adquiri o catatau e terminei apenas lendo a introdução de Declan Kiberd. Puro medo do goleiro diante do pênalti.

Felizmente veio à luz Sim, Eu Digo Sim — Uma Visita Guiada ao Ulysses de James Joyce, do mesmo Galindo. Uma obra que faltava para os teimosos cultores do pai do Bloomsday como eu.

Retomei então, pela terceira vez, as andanças daqueles anti-heróis da Torre Martello até os desvarios interiores de Molly.

Em sua obra Joyce, o estudioso S. L. Goldberg, afirma que o próprio J. J. considerava o conto De Quanta Terra Precisa um Homem, de Liév Tolstói, o melhor de todos.

Eis o resumo da história:

Neste conto, o escritor russo recria a dramática história do camponês Pakhóm, um homem obcecado pelo desejo de obter mais terras.

O que ele não sabe é que o diabo, escondido, o escuta e resolve despertar nele o impulso de conseguir ainda mais terras.

Depois de conseguir ampliar sua propriedade, Pakhóm resolve adquirir terras no longínquo território dos bashquires. Lá é desafiado pelo chefe da aldeia: por um valor simbólico terá toda a terra que conseguir percorrer a pé durante um dia, desde que, antes de o sol se pôr, retorne ao ponto de partida; caso contrário, perderá tudo.

Seria o "quase cego que sabia tudo de cor" um autor tão obcecado pelo desejo de ampliar os territórios do romance que acabou perdendo tudo?

Responderei, dia desses, numa outra resenha por aqui. Isso se afinal conseguir ler o Ulysses.

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