Cadernos de leituras

O primeiro romance de Giovana Madalosso e mais um inédito de Kafka — ao som de John Lennon

Por Carlos Castelo

Na primeira década dos anos 2000, literatura online ganhou força. Lembro-me de, por essa época, estranhar os convites para escrever crônicas em blogs. Para mim, o que valia mesmo era ver minha produção na mídia impressa. Não me recordo a razão, mas acabei cedendo à invitação do editor de Blônicas, Nelson Botter Jr., para colaborar em sua página semanalmente.

Num primeiro momento não me senti à vontade batucando ao lado de autores bem mais jovens que eu. Só me mantive pela presença, dentre os colaboradores, do meu contemporâneo Lusa Silvestre, hoje roteirista de um sem-número de longas, entre eles o premiado Estômago. E, claro, do grande nome do blog, o escritor e jornalista Xico Sá.

Entre os novatos do Blônicas estavam Antonio Prata, Giovana Madalosso e Tati Bernardi.

Tati Bernardi, inclusive, estreou no blog porque decidi mudar de dia da semana e lhe cedi o meu.

Recentemente recebi da Todavia, a primeira incursão de Madalosso no romance. É complicado redigir material crítico quando se tem em mãos o livro de uma colega que vimos nascer como artista. Ou ainda, em meu caso, uma colega de quem se conhece o trabalho desde antes disso, quando ela ainda era uma redatora publicitária. Mesmo assim, posso afirmar, com tranquilidade — e o leitor checará mergulhando em Tudo Pode ser Roubado— que Madalosso cometeu uma narrativa diferenciada.

A leitura é cativante, pictórica e nos leva a vislumbrar — como num filme — a saga da garçonete de um conhecido restaurante da região da avenida Paulista que, em seus momentos de lazer, acumula vil metal através de encontros aleatórios, em casas de homens e mulheres, afanando roupas de grifes e outros objetos valiosos.

O nosso espaço não é lá muito propício a uma sinopse nas regras da arte, porém adianto que Giovana Madalosso soube lançar mão de recursos dramáticos suficientes para nos carrear a um mundo, a cada página, mais insólito e cheio de abjetas ambições. Tudo narrado no modo mordaz, que caracteriza a voz da autora de A Teta Racional desde sempre.

E pensar que isso tudo começou em 2000 e pouco no Blônicas…

Kafka inédito em português

Franz Kafka é uma espécie de John Lennon da literatura universal. Quando menos se espera, aparece um fragmento desconhecido e indispensável de sua obra. E olha que ele nunca teve uma Yoko Ono na vida.

Agora temos a coletânea de contos Blumfeld, um Solteirão de Mais Idade e Outras Histórias, lançada pela Civilização Brasileira. O organizador, Marcelo Backes, separou os contos mais importantes do autor e ainda incluiu um texto inédito: a peça O Guarda da Cripta, único drama escrito por K.

Backes verteu diretamente do alemão os 36 contos do livro. No posfácio, a vida e obra de Kafka são analisadas, e a teoria sobre as semelhanças entre os heróis do autor é esmiuçada.

Já tinha lido Josefine, a Cantora e Um Artista da Fome, presentes nessa antologia. Agora me regalarei com as outras 34 histórias kafkianas. Ouvindo, ao fundo, John Lennon.

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