Cadernos de leituras

Novo livro de Marcelo Mirisola acaba com qualquer devaneio de que a literatura salva vidas ou constrói pontes para a esperança

Por Carlos Castelo

“Literatura só exige uma coisa do escritor: rompimento. Não escrevo para corresponder às expectativas de jurados de concursos literários e muito menos para ficar de boa com curadores de Flips, Sescs, programas culinários etc. Escrever, na minha nada modesta opinião, é o contrário disso: é dizer Não. Dizer nem fodendo, nunca, jamais. E eu sei muito bem que fazer isso aqui nesse país de frouxos é assinar o próprio atestado de óbito. Dane-se. Eu escrevo para zoar minha própria liberdade, para me detonar, e perder tudo, escrevo para fazer o contraponto; vale dizer, escrevo para ir além do horizonte, e no final dessa picada não existe um lugar bonito e tranquilo pra gente se amar. Resumindo: se eu acabar com o sonho de um sujeito(a) como você que pensa que literatura salva vidas e/ou tem alguma utilidade diferente de perder a esperança, já vai ter valido a pena.”

Eu já tinha lido Fátima fez os Pés para Mostrar na Choperia há tempos (e gostei), mas foi em 2017 que bati os olhos neste post acima no feicebuque. Decidi então mandar ao autor uma mensagem dizendo que tencionava batucar algo sobre sua nova obra aqui na coluna. “Seria legal se você antes lesse” — disse-me ele. E completou: (Como se me Fumasse tem…) jeitão de canto do cisne, esse.. acho que é a melhor coisa que fiz”.

Recebi o livro e li meio correndo. Até agora não sei se é o canto de cisne de Marcelo Mirisola, mas, não há dúvida, o autor cumpriu sua promessa: a leitura acaba com qualquer devaneio de que a literatura salva vidas ou constrói pontes para a esperança. No final não fica nada sobre nada: do Aeroanta à praia do Santinho, passando pelo cut-up.

Talvez por romper com tanta coisa que os devotos das igrejinhas pagam pau é que Mirisola, de fato, acabou assinando seu atestado de óbito. Nota-se pelas resenhas que a grande imprensa lhe devota. Chamam-no preguiçosamente de “escritor escatológico que escracha a sociedade” ou apenas o põem de lado. Os críticos óbvios sempre lhe alcunham de Charles Bukowiski ou Louis C.K. dos trópicos, o que é tão injusto quanto ele ser avaliado como incômodo literário nos cadernos-B-da-vida ou nos certames literários.

Marcelo Mirisola é Marcelo Mirisola. Ponto. O cara que nos faz, só para ficar num microscópico trecho de seu novo livro, conhecer “Valentina e Nilceia que batia minha porra com toddyinho, Sarah da canjica, Ana Beatriz e Isadora que não ia embora, Amanda, Gorete, dona Baratinha, Milena e Lis que não me quis”. Ou ainda o camarada que descreve a relação com um pai do modo mais vil, cru e, ao mesmo tempo, amoroso que já vi.

Continuo meio ressacado com a leitura de Como se me Fumasse. Aquelas páginas parecem ter me tragado e a Eparema não está melhorando meu estado. Mas uma coisa eu digo: sem o rompimento de Mirisola, a nossa literatura babaca e corporativa é quem, hora dessas, vai se romper.

Aqui de Dentro

Recebi e lerei Aqui de Dentro, de Sam Shepard, editado pela Estação Liberdade. O prefácio é de Patti Smith, aquela. Foi o primeiro romance do dramaturgo e último livro publicado em vida. Os temas são de grande densidade: a memória, a morte e as dissonâncias das relações familiares e amorosas.

Manual Prático de Editoração e Estilo

Confesso ter um fetiche por obras pensadas para editores, designers, revisores de provas e diagramadores. Essa lindíssima obra de Plínio Martins Filho (meu editor em Orações Insubordinadas)é um verdadeiro tratado sobre como transformar um livro num corpo elegante e gracioso. Edição da Editora Unicamp, Edusp e Editora UFMG.

Macunaíma

Quem vai a Santiago do Chile tem como programa obrigatório visitar a casa de Pablo Neruda. Quem vem a São Paulo deveria ter o mesmo desejo em relação à casa de Mário de Andrade, na rua Lopes Chaves, Barra Funda.

Para antes do passeio, nada como a leitura da esmerada edição de Macunaíma, da Ubu Editora.

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