Cadernos de leituras

Entre Millôr e Lobo Antunes, os recheios de cicuta de Evandro Affonso Ferreira e Juliano Garcia Pessanha

Evandro Affonso Ferreira

Por Carlos Castelo

Tempos atrás visitei o sebo Avalovara, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Estava examinando os livros usados de sempre quando um homem baixo e magro aproximou-se de mim. Ficou ali espiando as obras empoeiradas junto comigo. Num determinado momento teríamos de nos falar e a ação partiu dele. Comentou alguns textos pelos quais tinha afeição. Se não me falha a memória — tem um bom tempo o evento — referiu-se à sua predileção por Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes. Teceu altos elogios ao português. Fiquei olhando-o em silêncio, talvez porque não estava buscando nada naquelas prateleiras que tivesse a ver com Os Cus de Judas. Aliás, nem com os Cus de Judas de ninguém. Mas o jeito do homem era afável, a maneira como proseava aquecia o ambiente.

Num certo momento ele me viu com um livro de Millôr Fernandes nas mãos. Se não me engano era O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr. Adoro esse livrinho.

O homem deu um riso tristonho. Na hora julguei que ele estava achando menor eu ler Millôr. Talvez Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes, fosse algo que todo candidato a escriba devesse ler e não humor carioca, pensei. Mas, de repente, o homem me confidenciou:
 
 — Sabe, um dia eu quis fazer o que esse cara fazia… 
 
Imaginei que ele falava do António Lobo Antunes. Mas não. Ele referia-se ao guru do Méier.
 
Aquele homem que viera conversar comigo era Evandro Affonso Ferreira, o escritor-proprietário do Avalovara naqueles tempos idos.
 
 — Muita gente queria ser Millôr — lembro-me de ter lhe dito.
 
Evandro falou que, sim, quisera muito fazer algo na linha do “cara do Pasquim”. Mas agora trabalhava outro tipo de prosa. 
 
Levei o livro dos pensamentos millorianos e, no caminho de volta para casa, fiquei me perguntando se a prosa que Evandro mencionara era a que puxava com os frequentadores de seu estabelecimento. Ou se, de fato, ele produzia seu próprio material.
 
Santa ignorância a minha. Meses depois dei com Grogotó! (Topbooks), uma explosão de sonoridades da última flor do Lácio — e suas conexões com o tupi-guarani e o iorubá.
 
Soube depois que o dono da Avalovara estreara em 1996, como autor, com o livro de humor Bombons Recheados de Cicuta. E que, mais tarde, o renegou. 
 
Sim, ele quis um dia ser Millôr, mas foi melhor: foi ser Evandro. 
 
Agora, anos depois, leio o seu recém-lançado Epigramas Recheados de Cicuta (Sesi-SP), em parceria com Juliano Garcia Pessanha. E que boa surpresa. Digerindo seus novos doces notei que ele conseguiu algo notável: contemplar o humor de Millôr com o ritmo Affonso Ferreira. O sarcasmo e a invenção é que se regozijam.

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