Cadernos de leituras

As "notícias em três linhas" de Félix Fénéon, a rabugice de Marshall Sahlins e o assombro segundo um time de primeira

Retrato de Félix Fénéon (1890), de Paul Signac

Verdadeiros “haicais jornalísticos” escritos por um francês, quase anônimo, do século 20. Encantadores, mordazes, redigidos com estilo e concisão. É o que vemos, sempre encantados, em Notícias em Três Linhas (Rocco). São centenas dessas “balas de estalo”, em tamanho extra small, publicadas em diários franceses agrupados sob a rubrica faits divers. Pela ótica de Félix Fénéon, a França do início do século 20 surge como uma apresentação em power point, revelando cenas nunca dantes representadas em prosa ou verso.

Depois de quase ser preso, acusado de anarquismo (temperado com bananas de dinamite), Fénéon perdeu seu cargo no governo e foi dedicar-se ao jornalismo. Deram 135 caracteres para ele resolver a parada e suas “migalhas” viraram uma travessura literária de altíssimo nível. A comicidade, o timing preciso, o senso de oportunidade — tudo se une em linhas sucintas que lembram um tuíte, mas uma tuitada inspiradíssima. Como estas:

“O sr. Scheid, de Dunquerque, deu três tiros na mulher. Como errasse todos, mirou na sogra: foi tiro e queda.”

“Nas redondezas de Noisy-sous-École, caiu morto o sr. Louis Delillieu, 70 anos: insolação. Seu cão Fiel rapidamente lhe comeu a cabeça.”

“Pela quinta vez, Cuvillier, peixeiro em Marines, se envenenou e, dessa vez, foi definitivo.”

“Ai, gritou um esperto que comia ostras, 'uma pérola!' Um vizinho de mesa comprou-a por 100 francos. Preço: 30 cêntimos no bazar da Maison-Laffitte.”

Fénéon, uma esfinge na terra de Asterix, é fruto da primeira onda modernista — um faz-tudo cultural, que optou por se manter nos bastidores da literatura. Traduziu, publicou e até revelou nomes seminais do final do século 19 e início do século 20 — Proust, Apollinaire, Rimbaud, Gide, Joyce — , mas raramente materializava os seus próprios trabalhos. Seus contemporâneos costumavam dizer que “ele manteve-se para si mesmo”.

Confesso que me identifiquei sobremaneira com quase tudo de Fénéon. Perdoem-me a autocitação, mas passou, já passou…Só não deixem de ler.

Esperando Foucault, Ainda

Capitalismo tardio, globalização, terrorismo, relativismo cultural, pós-estruturalismo, utilitarismo, pós-colonialismo. Estes são os principais alvos do rabugento (mas engraçado) antropólogo Marshall Sahlins.

Este Esperando Foucault, Ainda — que foi lançado em 2004 pela finada Cosac Naify volta agora pelas mãos da Ubu — trazendo os 50 textos curtos nos quais Sahlins bombardeia a atual obsessão foucault-gramsci-nietzscheana para explicar tudo e um pouco mais. Reflexão e diversão garantida.

Contos de Assombro

Ivan Turguêniev, E. T. A. Hoffmann, Luigi Pirandello, Robert Louis Stevenson, M. R. James, Émile Zola, Washington Irving, Horacio Quiroga, Leonid Andrêiev João do Rio, Virginia Woolf, Humberto de Campos, Edith Wharton, Charles Nodier, Leopoldo Lugones, Medeiros e Albuquerque, Emilia Pardo Bazán, Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant. Este é o time que a Carambaia colocou em campo para contar Contos de Assombro. A newsletter de Bravo! já recomendou na sexta-feira passada, mas re-recomendo. Horacio Quiroga é um dos meus favoritos no departamento medo e nunca soube que Luigi Pirandello havia escrito contos de horror. Só por isso já vale a leitura.

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