Cadernos de leituras
Uma playlist com César Aira, Gonçalo Júnior, Nuno Ramos e o Bandido da Luz Vermelha

Por Carlos Castelo
Sabe quando você prepara uma playlist aleatoriamente na sua plataforma de música e depois a ouve? Aleatoriamente, no sentido de adicionar nela de Mozart a Ramones, de Dominguinhos a King Crimson. Pois foram assim as minhas leituras da quinzena: randômicas.
O primeiro foi um autor que, vez por outra, mencionarei aqui: César Aira. Trata-se de um dos mais interessantes escritores argentinos, de uma inventividade ímpar. E que nos brinda com histórias, de conteúdos e formas, sempre muito diversas.
Dentre os 80 livros que Aira trouxe à luz, escolhi conhecer Continuação de Ideias Diversas (Papéis Selvagens). Diria-se que a obra pode ser vista como um caderno de anotações, rascunhos de observações, lembranças de leituras do passado, digressões sobre a arte da ficção e até uma espécie de anedotário. A fragmentação desses quase aforismos, à la Karl Kaus, é a tônica do livro e lembram por vezes a síntese e a precisão dos haicais.
Em seguida, iniciei a biografia de João Acácio Pereira da Costa, mais conhecido pela alcunha de Bandido da Luz Vermelha. O personagem que assaltou, de forma violenta, mais de 150 mansões em São Paulo entre 1966 e 1967, faz parte dos meus pesadelos da infância.
Estava longe de morar num palacete pelos anos 1960 (residia num miniapartamento na Lapa de Baixo), mas ainda me recordo do receio que tinha de encontrar pela frente o monstro que invadia domicílios paulistanos matando e estuprando suas vítimas.
Em Famigerado (Noir), o jornalista e editor Gonçalo Júnior nos entrega uma história bastante atraente, do ponto de vista literário, e minuciosa em seus aspectos jornalísticos. O autor foi atrás de todos os detalhes em matérias jornalísticas do período, entrevistas e em processos do Fórum Criminal de São Paulo.
A terceira via foi a reunião de ensaios de Nuno Ramos, Verifique Se o Mesmo (Todavia). O multicriador das artes plásticas e da literatura fez um grande mix de temas para colocar em movimento, na verdade, a sua maior obsessão: o Brasil. Textos como No Palácio de Moebius, em que vai costurando insights preciosos sobre João Gilberto, Lígia Clark, Graciliano Ramos e Mira Schendel, já pode ser considerado um clássico do gênero. E seguem pensamentos argutos sobre cinema, futebol, canção popular, Glauber Rocha, Oscar Niemeyer, Nelson Cavaquinho e quetais. Para audiências que não se satisfazem com pontos de vista rasos.
Em tempo: agradeço à Lexicon, que através da Digitaliza Brasil, me forneceu versões digitais de seu Dicionário de Locuções e Expressões da Língua Portuguesa (mencionados na coluna recentemente) para teste. Funcionou nas plataformas Kindle e Ibook com perfeição e recomendo aos que gostam de degustar o idioma a usá-lo em seus devices.

