Cadernos de leituras

Os perdidos de B. Traven e os escritos lisérgicos de Richard Brautigan

B. Traven

Por Carlos Castelo

Há autores muito difíceis de se achar por aqui, mesmo em sebos. E, quando os encontramos, é aquele caminhão de dinheiro para levá-los até nossas estantes. Um deles é B. Traven. Por um lado é até compreensível o sumiço desse autor, já que ele adorava dar um perdido.

Ele escreveu O Tesouro de Sierra Madre, que deu origem ao cultuado longa-metragem homônimo de Hollywood (1948), e não apareceu nem no set de filmagem para tomar um cafezinho com a equipe. Há uma verdadeira mitologia de esquisitices relativas a seu lado misantropo como, por exemplo, o de viver trocando de nome e de endereço para não ser encontrado por ninguém. Ou ainda de que era, na verdade, um anarquista de origem alemã. Em suma, quase nada se sabe ao certo sobre a vida de B. Traven.

Li recentemente o conto O Visitante Noturno, do livro de mesmo nome editado pela Conrad. É mesmo uma pena que não tenham lançado mais obras de Traven no Brasil. Para mim, o estilo dele é um misto da fantasia de Ambrose Bierce com o fluxo rápido, eficiente e telegráfico de Hemingway. Para o gênero desse conto em questão, o suspense metafísico (acabei de inventar agora essa modalidade literária), o fato de Traven não se perder em descrições infindáveis agrega ainda mais verossimilhança à trama. E quem sai ganhando é o leitor, que não consegue mais largar o livro até desvendar o mistério por trás de tudo.

Outro baluarte da ausência nas livrarias era Richard Brautigan. Era porque sua obra mais cult, Pescar Truta na América, esgotada até nos melhores alfarrábios desde 1991, acaba de sair numa edição muito bem cuidada da José Olympio.

O livro é francamente lisérgico. Tanto que pode ser lido de trás para frente, de cima para baixo, ou mesmo de lado, que não alterará em nada o sentido. Até porque não creio que o sentido fosse propriamente o essencial para Brautigan — um dos últimos beats da contracultura norte-americana. Pescar Truta na América pode ser um bar, uma valsa, um movimento de rua pró-paz ou mesmo um milionário que namorava Maria Callas. Enfim, escolha o que você quer que Pescar Truta na América seja e boas fisgadas.

Contudo, uma observação importante: não pense que a obra é 100% nonsense e que, por essa razão, não mereça ser degustada com o devido valor literário implícito. O escritor japonês Haruki Murakami declarou que ler Brautigan era “como desembarcar no Novo Mundo”.