Cadernos de leituras

Os poemas-piadas de 27 escritores brasileiros e a vida e as melodias de Vadico

Vadico abre os trabalhos em um bar da Vila Isabel

Por Carlos Castelo

Gregório Duvivier é um ótimo humorista. Especialmente no setor vídeos de youtube. As suas diatribes na net ficaram, ninguém pode negar, antológicas. O mesmo não se pode dizer quando Duviver organiza antologias. É o caso de Poema-piada — Breve Antologia da Poesia Engraçada (Ubu).

Duvivier selecionou 27 poetas brasileiros, “com vozes e humores muito diferentes”, para esta breve antologia. Nas suas palavras: “Tem poesia que nem conversa com o humor: do alto da torre de marfim, olha pro humor todo esfarrapado e finge que não vê. Tem humor que não quer saber de poesia: atropela a ingenuidade do poeta lírico com o trator do cinismo. Às vezes acontece da poesia e o humor se esbarrarem por aí e terem uma noite inesquecível. No Brasil, aconteceu tantas vezes que os dois gêneros se casaram — se é que se pode chamar de casamento uma união tão bem sucedida. O matrimônio foi celebrado com um hífen, nascendo assim o ‘poema-piada’.”

O conceito até que é singular, mas a seleção poderia ser mais completa. Conta-se com os obrigatoriamente óbvios Oswald de Andrade, Gregório de Matos, Glauco Mattoso, Juó Bananére, Millôr Fernandes, Mário Quintana. Temos também os que muitos desconhecem Pedro Rocha, Zuca Sardan, Bruno Brum, Bruna Beber, Angélica Freitas. E não contamos com figuras importantes do humor poético do tamanho de um Noel Rosa, um Cornélio Pires. Ou, se for para falar de nomes contemporâneos que fossem contemplados também, os ótimos poetas-letristas da vanguarda paulistana, como César Brunetti.

Por um lado é positivo lançar um livro sobre poesia — e ainda mais de versos de humor — em tempos de Kéferas e atores que se metem a ser literatos. Por outro, já que se resolveu colocá-lo nas prateleiras, que tragam uma seleta mais apurada e menos da “tchurma.”

Vadico, o parceiro de Noel

Noel Rosa foi genial. Só que não foi tão brilhante assim sozinho. Teve parceiros notáveis, como Orestes Barbosa e Ismael Silva. Uma dessas estrelas de primeira grandeza que juntaram-se a de Noel foi o paulistano do Brás Oswaldo Gogliano, o Vadico (1910–1962). Criou as melodias das icônicas Feitio de Oração, Feitiço da Vila, Pra que Mentir?, Conversa de Botequim, Cem mil-réis e Provei. Gogliano tocou com Carmen Miranda, atuou em Hollywood, e voltou ao Brasil para se tornar maestro. É mais ou menos o que se sabe de sua vida. Por isso é tão oportuno ler a biografia feita por Gonçalo Júnior, Pra que Mentir? — Vadico, Noel Rosa e o Samba (Noir).

A editora Noir tem se notabilizado por esse tipo de livro sobre nomes da nossa música. Um outro a ser lido, em breve, será o que versa sobre a vida de Catulo da Paixão Cearense.