Caetano e os novos baianos

“Eles não vão acabar com a cultura brasileira”, diz Caetano Veloso em show com jovens músicos

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Feb 12 · 3 min read

Por Claudio Leal

“Apague a luz de mim. Toda”, pediu Caetano Veloso ao iluminador, no Teatro Castro Alves, em Salvador, no sábado (8). Os focos de luz caíram então sobre o clarinetista Ivan Sacerdote e o guitarrista Felipe Guedes, por alguns minutos sozinhos e endiabrados em torno de “Billie’s Bounce”, de Charlie Parker.

“Estou aqui para apresentar. Sou um veículo”, avisou o tropicalista. O show “Caetano Veloso apresenta Ivan Sacerdote” deriva de um álbum recém-lançado, idealizado pela produtora Paula Lavigne, no qual o compositor canta nove de suas canções com o clarinetista.

Depois de dividir sete músicas com Sacerdote, Caetano chamou Felipe Guedes ao palco para acompanhá-los em “Onde o Rio é mais baiano”, uma ode à proximidade cultural entre a Bahia e a Mangueira. Nesse ponto, houve uma transição na musicalidade do show. Ao longo de 14 números, Guedes instaurou uma atmosfera autônoma em relação ao disco, criando efeitos percussivos na guitarra, num auxílio econômico à voz do cantor.

De uma família musical vinculada ao terreiro do Gantois, o multi-instrumentista se destacou na cena baiana dos últimos anos. Há sempre um jogo lúdico no rigor de suas harmonias. No verão de 2019, conquistou a admiração de Caetano Veloso, que chorou ao ouvi-lo pela primeira vez.

Na noite de estreia, Caetano afirmou que pretende “mostrar a mais gente o talento de Ivan Sacerdote” e “o que acontece musicalmente na Bahia”. Numa pontuação política, acrescentou que os novos talentos de Salvador trazem uma certeza: “Eles não vão acabar com a cultura brasileira”. Mais adiante, insistiu: “Eles não vão acabar”.

No veraneio baiano, o tropicalista montou o roteiro, conduziu os ensaios e aproximou de sua cabeça musical os dois instrumentistas mais ligados ao samba-jazz. Sacerdote pediu para incluir “Quando o galo cantou”, do álbum “Abraçaço” (2012), e escreveu um arranjo inventivo para “O leãozinho”, ao sabor das imagens solares da letra.

Num outro toque do clarinetista, “Não Identificado” ganhou uma citação de “Toneladas de desejo”, hit da Timbalada recentemente cantado pelo pagodeiro Igor Kannário. De algum modo, essa mistura atende à cautela do tropicalista com o selo opressor de “música sofisticada”.

A surpresa veio com o resgate de “Janelas Abertas Nº 2”, composta no exílio em Londres e jamais gravada pelo artista. Espelhada em “Janelas Abertas”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, a canção foi enviada em 1971 para a cantora Maria Bethânia, sua irmã.

Caetano pensou em cantá-la depois de reouvir a gravação de Chico Buarque no show dividido por ambos no mesmo Teatro Castro Alves, em novembro de 1972. Na voz do baiano, “Janelas Abertas Nº2” ganhou uma interpretação mais suave, como se deixasse flutuar a violência natural da canção: “Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília/ Em cada um matar um membro da família”.

Da música ao ensaísmo, Caetano Veloso abriu várias frentes artísticas, e nem sempre a crítica ressalta seus experimentos de cantor. O novo show sobreleva esse poder de intérprete, exemplificado pelas releituras de “Luz do Sol” e “Qualquer Coisa”, renovadas por dentro.

“O Ciúme” e “Aquele frevo axé” (parceria com Cezar Mendes) foram outros momentos reveladores de um estilo capaz de assimilar várias escolas de canto, sem excluir as contraditórias entre si, de Amália Rodrigues a Orlando Silva. Depois da morte de João Gilberto, seu mestre-modelo, não há mais afronta em considerá-lo o mais habilidoso cantor brasileiro em cena.

O projeto com os jovens músicos envolveu composições suas menos conhecidas, como “Peter Gast”, “Manhatã” e “Você não gosta de mim”, também incluídas no disco “Caetano Veloso & Ivan Sacerdote”. Por ora restrito a Salvador, o show deve viajar para o Rio e São Paulo.

O cenário da turnê “Abraçaço”, assinado por Hélio Eichbauer, foi parcialmente reaproveitado, mas exigiu mudanças na iluminação. O tapete levado ao palco veio da própria casa baiana de Caetano, assim como as cadeiras desenhadas por Lina Bo Bardi, sem que houvesse o propósito consciente de reproduzir o cenário real dos encontros musicais organizados por Paulo Lavigne. Em férias, mas não a passeio, Caetano deve dedicar o resto do verão às composições de seu próximo disco autoral.

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